Acidentes com ciclistas já somam 5,8 mil casos no Grande Recife em 2026
Ciclistas ainda enfrentam vias inseguras e precisam recorrer a calçadas e até à contramão para completar trajetos
Publicado: 18/08/2026 às 19:28
Maioria dos ciclistas do Recife usam bike para ir ao trabalho (Foto: Marina Torres/DP Foto)
O número de acidentes envolvendo ciclistas na Região Metropolitana do Recife já soma, em 2026, mais de 5,8 mil casos, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES-PE). Os dados foram solicitados pelo Diario de Pernambuco antes do Dia Nacional do Ciclista, celebrado na quarta-feira (19).
Entre os registros deste ano, 2.735 foram classificados como colisão ou abalroamento, o equivalente a 46,5% do total. Na sequência aparecem tombamentos ou capotamentos, com 1.269 casos (21,6%), quedas do veículo, com 1.034 (17,6%), e atropelamentos, que somaram 643 ocorrências (10,9%).
Também foram registrados 108 casos classificados como “outros”, 54 de natureza ignorada e 42 choques com objeto fixo.
Os números de 2026 ainda são parciais e não podem ser comparados diretamente com os totais anuais de 2024 e 2025. Ainda assim, as 5.885 ocorrências registradas até 18 de agosto representam mais da metade dos acidentes contabilizados em todo o ano passado.
Em 2025, foram registradas 10.187 ocorrências ao longo de todo o ano, 12,8% a mais que em 2024, quando houve 9.032 notificações.
Mais bicicletas nas ruas
Um diagnóstico divulgado em julho pela Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) contabilizou viagens durante 14 horas em 12 municípios e identificou 23.848 deslocamentos de bicicleta nos pontos monitorados.
A pesquisa foi realizada em Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, São Lourenço da Mata, Paulista, Moreno, Abreu e Lima, Igarassu, Itapissuma, Ilha de Itamaracá, Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca.
Jaboatão dos Guararapes apresentou o maior volume, com 5.071 viagens, seguido por Olinda, com 3.968. Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca tiveram 2.421 e 2.416, respectivamente. Mesmo em municípios menores, como Ilha de Itamaracá e Itapissuma, foram registrados mais de 1,5 mil deslocamentos nos pontos avaliados.
O levantamento mostra ainda que o uso da bicicleta é predominantemente ligado à rotina. O estudo identificou uma demanda voltada principalmente ao trabalho, aos estudos e a outros serviços, mesmo em locais onde a infraestrutura cicloviária é insuficiente ou descontínua.
A metodologia utilizada pela Ameciclo registra a quantidade de bicicletas, dados de gênero, idade aparente, tipo de bicicleta, uso de capacete, carona, finalidade da viagem e comportamentos como circulação na contramão e uso da calçada. As contagens são realizadas das 6h às 20h.
Contramão e calçada aparecem como alternativas ao risco
Um dos principais alertas do levantamento está no comportamento dos ciclistas diante das condições das vias. Em São Lourenço da Mata, 46% das viagens observadas ocorreram na contramão. Em Jaboatão dos Guararapes, o índice chegou a 31,5%; em Itapissuma, a 26%; e em Igarassu, a 19%.
O relatório relaciona esses comportamentos à falta de rotas diretas e de conexões adequadas. A circulação pela calçada também aparece com frequência: 35% das viagens observadas em Abreu e Lima ocorreram nesse espaço, considerando calçadas comuns e compartilhadas. Em Camaragibe, o índice foi de 23% e, em Moreno, de 21%.
Para a Ameciclo, os dados indicam que essas escolhas não devem ser analisadas como infrações individuais. O relatório aponta que a ausência de infraestrutura adequada leva ciclistas a adotar estratégias para reduzir a exposição ao tráfego motorizado.
O documento recomenda, entre outras medidas, estruturas fisicamente segregadas em corredores de tráfego pesado, conexões mais diretas e ciclovias bidirecionais.
O problema também afeta quem não utiliza a bicicleta apenas para trabalhar. A participação de mulheres e crianças é menor em vários pontos analisados. Em Moreno, mulheres representaram apenas 2% das viagens observadas; em Camaragibe, 2,5%. Já em Ipojuca e na Ilha de Itamaracá, os índices chegaram a 20% e 18%, respectivamente.
Bicicleta como instrumento de trabalho
A pesquisa mostra que a bicicleta possui uma função econômica importante no Grande Recife. Em Olinda, 23% das viagens foram feitas com bicicletas cargueiras, enquanto na Ilha de Itamaracá o percentual chegou a 23,5%. Em números absolutos, Jaboatão registrou 981 viagens com bicicletas cargueiras ou adaptadas para transportar cargas.
O levantamento também identificou 978 viagens relacionadas a atividades de serviço, incluindo entregas por aplicativo, o equivalente a 4,17% de todas as viagens monitoradas. Em Camaragibe, o serviço respondeu por 9,6% do fluxo; em Paulista, por 9,1%; e em Jaboatão, por 8,1%.
A concentração dos deslocamentos também ajuda a explicar os momentos de maior exposição aos riscos. O intervalo entre 17h e 18h foi o de maior movimento em 11 dos 12 pontos monitorados. Em Jaboatão e em outros municípios, porém, a circulação já começa a crescer a partir das 6h, indicando deslocamentos mais longos para o trabalho.
Recife amplia rede cicloviária
Na capital pernambucana, a prefeitura divulgou que o Recife possui atualmente cerca de 206 quilômetros de malha cicloviária, dos quais aproximadamente 195 quilômetros são conectados. Segundo os dados municipais, a extensão corresponde a 83% da infraestrutura prevista para a cidade pelo Plano Diretor Cicloviário.
A cidade também conta com cerca de 65 áreas de trânsito calmo, onde a velocidade máxima é de 30 km/h, além de mais de 5 mil vagas públicas para bicicletas instaladas desde 2021.
Entre as novas estruturas em implantação está uma ciclovia de 4,8 quilômetros na região da Avenida Mascarenhas de Morais, na Imbiribeira, com ligação prevista entre a divisa com Jaboatão dos Guararapes e a Avenida Engenheiro Alves de Souza.
Outra ciclovia integra as obras da ponte Cordeiro-Casa Forte e da requalificação do complexo viário da III Perimetral. Também está prevista uma ciclovia no Parque Linear do Rio Pina.