Uma em cada oito vítimas de feminicídio em Pernambuco tinha medida protetiva ativa contra o assassino
Dos 88 casos de feminicídio registrados em Pernambuco em 2025, 11 envolveram mulheres que já haviam acionado o sistema de proteção. Dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública
Publicado: 23/07/2026 às 08:01
Priscila foi morta pelo ex-companheiro na frente dos filhos. (Foto: Cortesia)
No dia 9 de dezembro de 2025, o desfecho que a família de Priscila Carla Pimentel, de 32 anos, tanto lutou para evitar aconteceu. A técnica de enfermagem foi assassinada a facadas pelo ex-companheiro José Robson Santos da Silva, 35, no bairro de Cajueiro Seco, em Jaboatão dos Guararapes. O feminicídio ocorreu apesar de medida protetiva e das diversas vezes que Priscila procurou a delegacia para denunciar o agressor.
A morte da técnica de enfermagem é um dos 11 casos de feminicídio de 2025, em Pernambuco, nos quais as vítimas tinham medida protetiva de urgência ativa no momento do óbito, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Ao todo, Pernambuco contabilizou 88 feminicídios no ano passado. Isso significa que, a cada oito casos, uma vítima tinha medida protetiva vigente contra o autor do crime.
Em 2024, foram 78 feminicídios no estado, o que representa aumento de 12,5%. Pernambuco também teve alta no registro de descumprimento de medida protetiva de urgência. O dado saltou de 3.789 em 2024 para 4.358 no último ano; um aumento de 14,7%.
"O Estado falhou"
Priscila e José Robson ficaram juntos por cerca de 17 anos, em um relacionamento marcado por agressões, e tiveram seis filhos. A mulher havia terminado a relação aproximadamente seis meses antes do crime.
"O casamento sempre foi muito conturbado. Muita agressão, muita falta de respeito. Só que nos últimos anos foi piorando", diz a atendente Paloma Pimentel, de 25 anos, irmã de Priscila.
Priscila chegou a sair de casa, mas era convencida a voltar por ele, que usava os filhos para manipulá-la. "Ele pegava uma das filhas, levava para casa e dizia que só devolveria se minha irmã voltasse", conta Paloma.
Após um episódio em que o homem jogou as roupas da esposa na rua, a mulher foi morar com a mãe e nunca mais voltou.
"Ele nunca aceitou a separação", diz a atendente.
Paloma conta que ele chegou a usar tornozeleira eletrônica após entrar no mesmo Uber que Priscila com uma faca. "Minha irmã implorou para o motorista levá-la para a delegacia. Ele estava com uma faca, era para ter sido preso em flagrante, mas não foi".
Em seguida, ele rompeu a tornozeleira eletrônica e invadiu a casa da ex-sogra. "Essa foi a primeira tentativa de matar a minha irmã".
"O Estado falhou várias vezes", resume a mulher. "Falhou quando botaram a tornozeleira eletrônica e ele não foi preso; quando ele rompeu a tornozeleira eletrônica e não vieram atrás para prendê-lo; falhou por não dar suporte para minha irmã; quando ele estava na porta da minha mãe, quebrando tudo, e ela ligou para polícia, que chegou depois de três horas. Falhou porque meu sobrinho saiu correndo até o hospital procurando uma viatura da polícia e não tinha ninguém para ele pedir socorro". Segundo Paloma, a irmã procurou a polícia para denunciar o ex-marido ao menos quatro vezes.
Priscila foi morta na frente de dois filhos. Após ser preso em flagrante pelo feminicídio, José Robson disse em interrogatório que assassinou Priscila para "defender a honra", conforme documento obtido pela reportagem. Segundo Paloma, mesmo já cumprindo prisão preventiva pelo feminicídio, ele tatuou o nome da ex-companheira no pescoço.
"Minha irmã não realizou os sonhos dela. Iria começar a trabalhar como técnica de enfermagem no mês seguinte. Era o sonho dela formar minha sobrinha no ABC", lamenta a atendente.
"Sempre vai existir uma próxima mulher. A lei brasileira não pode permitir que essa próxima mulher seja uma vítima", finaliza.
Alarme
O anuário contabiliza que 44,4% das mulheres assassinadas no Brasil foram mortas por razão de gênero, o maior percentual desde 2015, quando o feminicídio entrou para o Código Penal brasileiro.
"O feminicídio - e boa parte dos demais crimes contra mulheres - é, antes de tudo, a expressão extrema das desigualdades de gênero e das formas de controle e dominação historicamente exercidas sobre as mulheres, do machismo e de um padrão de masculinidade que é violento e, portanto, problemático", declara o FBSP no anuário.
"A gravidade que esses dados evidenciam é crua: uma parcela significativa das mulheres mortas por feminicídio já havia acionado o sistema de proteção", acrescenta o fórum. "Elas tinham uma medida protetiva ativa. O Estado havia se comprometido, formalmente, a protegê-las. Mas não protegeu".
Para o fórum, esses dados são reveladores dos limites da capacidade estatal de proteção às mulheres em situação de risco. O documento também destaca o descumprimento de medidas protetivas de urgência, cujos registros cresceram 16,7% no país em comparação com 2024. São 362 descumprimentos por dia, 15 a cada hora.
"O conjunto desses dados atualiza um argumento que temos levantado há algumas edições do Anuário, e que tem a ver com o fato de o descumprimento de uma medida protetiva ser, com frequência, um sinal claro de alarme antes da morte - e o Estado brasileiro o registra 362 vezes por dia sem, ainda, tratá-lo como tal", aponta.