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Vida Urbana
DENÚNCIA

Familiares de pacientes do Hospital Getúlio Vargas denunciam superlotação e desassistência

Diario de Pernambuco recebeu imagens que mostram aglomeração de pacientes e familiares nos corredores do Hospital Getúlio Vargas, na Zona Oeste do Recife

Nicolle Gomes

Publicado: 17/07/2026 às 15:27

Corredores do HGV lotados e sem estrutura/Foto: Cortesia

Corredores do HGV lotados e sem estrutura (Foto: Cortesia)

Familiares de pacientes do Hospital Getúlio Vargas (HGV), na Zona Oeste do Recife, denunciam superlotação e falta de assistência adequada na unidade de saúde. O Diario de Pernambuco ouviu relatos e recebeu imagens que mostram a situação no local.

Maria Santos* contou à equipe de reportagem que o pai dela, de 74 anos, está internado no HGV após sofrer uma queda no último dia 26 de junho.

“Ele é diabético, caiu de aproximadamente dois metros e teve três fraturas graves. Desde a internação, ele permanece em uma maca no corredor, aguardando cirurgia, sem se mover”, iniciou.

Segundo Maria, durante o período, o paciente desenvolveu escaras por permanecer imóvel e apresentou um quadro de alucinações. A familiar diz, ainda, que solicitou que isso fosse registrado em prontuário, mas que os funcionários negaram o registro.

O relato também destaca que os acompanhantes dos pacientes também são submetidos a condições insalubres.

“Além da demora para a cirurgia, a situação dentro do hospital é extremamente precária. Os corredores estão lotados de pacientes, há macas uma ao lado da outra sem espaço para circulação, os banheiros estão em condições de uso, e familiares convivem diariamente com a falta de estrutura e de informações”, detalhou Maria.

A família do paciente informou que procurou o serviço de assistência social do HGV em busca de auxílio e foi informada de que nenhum outro hospital aceitaria a transferência do paciente em razão da gravidade do quadro clínico.

“A assistente social nos orientou a procurar o Ministério Público para formalizar uma denúncia, pois, segundo ela, somente uma intervenção judicial poderia resolver o caso”, comenta Maria.

O Diario também conversou com Fábio Silva*. O tio dele está internado há 15 dias, aguardando um procedimento cirúrgico após quebrar o fêmur.

“Ele tem mais de 70 anos e está há mais de 15 dias numa maca do corredor sem conseguir se mover. Marcaram a cirurgia dele pro dia 5 de julho e, quando chegou no dia da cirurgia, cancelaram sem motivo”, diz Fábio.

Segundo ele, é comum que os procedimentos sejam marcados, porém, no suposto dia de realização, sejam adiados sem motivos explícitos.

“Eles dão esperança ao paciente de que a cirurgia será realizada e, no dia marcado, a cancelam. Quando perguntamos o motivo do cancelamento, o médico respondeu de forma ríspida que, se continuássemos questionando, registraria no prontuário que estávamos sendo agressivos”, relata.

O relato de Fábio reforçou a situação descrita por Maria. Segundo ele, o hospital está em situação de “abandono”.

“É tudo uma nojeira, banheiro imundo, cheio de fezes e sangue pelo chão. Um paciente morreu na nossa frente durante a madrugada e, mesmo informando as enfermeiras, o corpo dele só foi retirado pela manhã”, pontuou.

Vale lembrar que, no início de junho, a governadora Raquel Lyra entregou o novo bloco cirúrgico do Hospital Getúlio Vargas (HGV). Com investimento de R$ 11,06 milhões, a estrutura conta com oito salas cirúrgicas e capacidade para realizar até mil procedimentos por mês.

De acordo com a divulgação feita pelo Governo de Pernambuco na época da inauguração, com a entrega do novo bloco, o HGV reforçaria a assistência nas áreas de Cirurgia Geral, Cirurgia Vascular, Urologia, Ortopedia, Ortopedia Pediátrica e Cirurgia Bucomaxilofacial.

"O bloco foi projetado com maior tecnologia, o que otimiza a dinâmica cirúrgica, permitindo a realização de procedimentos mais complexos e com alta resolutividade", informou o governo à época.

Justiça

A família de Maria entrou com um processo judicial para pedir urgência na realização das cirurgias que o pai dela precisa. O Diario teve acesso ao processo.

À Justiça de Pernambuco, o Estado afirmou que a situação do pai de Maria não é urgente e que um dos procedimentos já havia sido realizado.

No último dia 15 de julho, a Justiça entendeu que a situação do paciente é grave e necessita de urgência para os procedimentos.

“Verifico comprovada a necessidade da realização das cirurgias ortopédicas no autor para reparo das fraturas relatadas pelos profissionais médicos. A condição clínica confirma as múltiplas fraturas e a necessidade premente de intervenção cirúrgica ortopédica”, escreveu o juiz responsável pelo caso, que terá identidade preservada para manutenção de sigilo dos denunciantes.

O magistrado destacou, ainda, que o paciente corre perigo por ser idoso e já apresentar complicações decorrentes da imobilização prolongada, como lesões por pressão e risco de tromboembolismo.

Por fim, ficou determinado que o Estado providencie a realização das cirurgias das quais o paciente precisa, no prazo de 30 dias úteis, em qualquer hospital da rede pública ou privada. Apesar da vitória na Justiça, a família afirmou à reportagem nesta sexta-feira (17) que a situação se mantém.

Já a família do tio de Fábio segue tentando entrar na Justiça para conseguir o procedimento. Segundo ele contou ao Diario, o HGV se recusa a dar um laudo que comprove a urgência da cirurgia para que órgãos competentes sejam acionados.

O que diz a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE)

O Diario de Pernambuco entrou em contato com a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE). Em nota, o HGV se pronunciou sobre os relatos. Confira a seguir na íntegra:

"A direção do Hospital Getúlio Vargas (HGV) reconhece o aumento da demanda por atendimento nos últimos dias. O HGV é referência estadual em cirurgia geral, vascular, bucomaxilofacial, clínica médica, traumatologia e ortopedia, e tem recebido pacientes de média e alta complexidade de todo o Estado.

A gestão vem adotando medidas de qualificação dos fluxos assistenciais, com foco na agilidade da regulação, na rotatividade segura dos leitos e na transferência dos pacientes para unidades de retaguarda da Rede Estadual.

Vale ressaltar que todos os pacientes que chegam ao HGV são acolhidos, avaliados e medicados pela equipe multidisciplinar, seguindo protocolo de classificação de risco. Sobre a realização de cirurgias, os procedimentos seguem critérios técnicos de prioridade, conforme gravidade e urgência, em consonância com os princípios do SUS.

A unidade ressalta, ainda, que os banheiros são regularmente higienizados pela equipe de limpeza, conforme rotina estabelecida. No entanto, em períodos de maior fluxo de pacientes e acompanhantes, pode haver necessidade de reforço na frequência da limpeza, que é realizada sempre que identificada essa demanda".

*nome fictício 

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