Pesquisadoras explicam condições que contribuíram para incidentes com tubarões no Grande Recife
Influência das marés é um elemento importante porque permite que animais de grande porte se aproximem mais da faixa costeira, ampliando a área compartilhada entre banhistas e tubarões
Publicado: 02/06/2026 às 18:17
Para a pesquisadora Alessandra Fischer, a ocorrência de dois episódios em sequência pode estar relacionada a um conjunto de condições ambientais (Foto: Karol Rodrigues/DP Foto)
Os dois incidentes com tubarões registrados em pouco mais de 24 horas no litoral do Grande Recife chamaram a atenção de banhistas para os fatores ambientais que favorecem a aproximação entre esses animais e os seres humanos. Em ambos os casos, são observados fenômenos em comum que contribuíram para as ocorrências.
No domingo (31), um menino de 11 anos foi mordido por um tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. A vítima sofreu lesões graves na perna, no quadril e na mão esquerda e precisou passar por amputação do membro inferior. Menos de um dia depois, na segunda-feira (1º), uma jovem de 19 anos foi atacada na Praia de Boa Viagem, no Recife. Ela chegou ao Hospital da Restauração (HR) com amputação traumática da perna direita na altura da coxa.
Apesar da proximidade temporal entre os casos, as análises do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) indicam que os ataques foram provocados por espécies diferentes. O incidente de Piedade foi atribuído a um tubarão-cabeça-chata, enquanto o de Boa Viagem teve características compatíveis com um tubarão-tigre de aproximadamente três metros de comprimento.
Para Alessandra Fischer, pesquisadora do Laboratório de Etologia Pesqueira e do Núcleo de Ecologia Aquática (NEA) da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e integrante do Projeto Ecotuba, a ocorrência de dois episódios em sequência pode estar relacionada a um conjunto de condições ambientais que tradicionalmente são observadas pelos pesquisadores quando analisam incidentes com tubarões no estado.
“Nós acreditamos que, mais uma vez, alguns fatores que sempre destacamos podem ter contribuído para esses incidentes. A lua estava em fase de crescimento, o que influencia as marés, tornando-as mais altas e aumentando o volume de água próximo à costa. Isso pode favorecer o encontro entre pessoas e tubarões”, explica.
Segundo a pesquisadora, a influência das marés é um elemento importante porque permite que animais de grande porte se aproximem mais da faixa costeira, ampliando a área compartilhada entre banhistas e tubarões.
Outro fator apontado por ela foi a condição da água nos dias que antecederam os incidentes. “No primeiro caso, por exemplo, havia chovido no dia anterior, deixando a água mais turva. Essa condição também pode contribuir para uma confusão por parte do animal no momento em que ele investiga o que está à sua frente”, destaca.
A redução da visibilidade é considerada um dos elementos mais importantes para a ocorrência de mordidas. Em águas turvas, o tubarão depende mais de outros sentidos para identificar potenciais presas e objetos em movimento. Nessas circunstâncias, a chance de um contato exploratório aumenta. “Portanto, acreditamos que a combinação dessas características ambientais pode ter influenciado a ocorrência desses dois incidentes em sequência”, acrescenta.
"“O tubarão não ataca o ser humano de forma intencional. Ele não vai naquela intenção de se alimentar. Por isso, usamos o termo ‘incidente’, porque, de fato, trata-se de uma situação que não é esperada", frisa a pesquisadora do projeto Ecotuba, Camila Vilarim.
Os dois casos aconteceram em praias inseridas na área de maior incidência de ataques de tubarão em Pernambuco. Desde o início do monitoramento oficial, em 1992, o estado acumula 84 registros de incidentes. A maior parte deles ocorreu nas praias urbanas do Grande Recife.
A região reúne características ambientais consideradas favoráveis à circulação de tubarões, como a proximidade de estuários, canais e desembocaduras de rios. Além disso, a combinação de marés elevadas e correntes costeiras cria um ambiente frequentemente utilizado por espécies como o cabeça-chata e o tubarão-tigre.
Os dois animais identificados pelo Cemit figuram entre as espécies mais associadas aos incidentes registrados em Pernambuco ao longo das últimas décadas. O cabeça-chata possui grande capacidade de utilizar áreas costeiras rasas e estuarinas, enquanto o tubarão-tigre é um predador de grande porte que circula regularmente pelo litoral pernambucano.
Como reduzir os riscos
A prevenção continua sendo a principal ferramenta para evitar novos incidentes. As recomendações incluem evitar entrar no mar em locais sinalizados como áreas de risco, respeitar as orientações dos guarda-vidas, não tomar banho próximo a canais e desembocaduras de rios, evitar atividades aquáticas durante marés altas e redobrar a atenção após períodos de chuva, quando a água tende a ficar mais turva.
Essas orientações fazem parte das campanhas educativas desenvolvidas há anos por pesquisadores e órgãos de monitoramento em Pernambuco.