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DIREITOS HUMANOS

"Só queria deixar de comer resto", diz família que vive embaixo da Via Mangue, no Recife

Moradores em situação de rua relatam dificuldades para conseguir habitação e sobrevivem em espaço improvisado marcado por perigo sob a avenida na Zona Sul do Recife

Adelmo Lucena

Publicado: 27/05/2026 às 06:00

Marcelo Benedito vive com a eposa embaixo de viaduto da Via Mangue, no Recife/Foto: Marina Torres/Acervo DP Foto

Marcelo Benedito vive com a eposa embaixo de viaduto da Via Mangue, no Recife (Foto: Marina Torres/Acervo DP Foto)

Sob um dos viadutos da Via Mangue, em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, duas famílias improvisaram moradias com colchões, móveis recolhidos da rua, sacos de reciclagem e objetos descartados. Debaixo da estrutura, onde o barulho dos carros já não incomoda mais, há roupas penduradas e eletrodomésticos quebrados que pertencem a cinco pessoas que tentam manter uma rotina, ainda marcada pela falta de moradia e pela busca diária por comida e renda.

Entre elas estão Marcos Benedito dos Santos, de 54 anos, e a esposa, Janair Costa, de 42. Ao lado do casal, outro homem e uma mulher dividem o espaço abaixo do viaduto. Eles estavam dormindo quando a equipe do Diario de Pernambuco chegou ao local.

O espaço parece crescer aos poucos, à medida que novos objetos são encontrados pelas ruas da Zona Sul. Há caixas, pedaços de madeira, ventiladores quebrados, cadeiras, brinquedos antigos e sacos cheios de materiais recicláveis. Algumas bonecas penduradas nas pilastras chamam atenção de quem passa pela Via Mangue sem imaginar que, logo abaixo da pista, famílias tentam diariamente deixar o espaço em busca de algo melhor.

Parte da renda vem da reciclagem e o grupo recolhe latas, papelão e outros materiais descartados para vender. Em muitos dias, a comida chega por meio de doações feitas por trabalhadores de um prédio em construção ao lado do viaduto, que distribuem quentinhas no fim do expediente.

No meio dos objetos espalhados, Marcos fala sobre arte como quem tenta enxergar beleza em um lugar marcado pela sobrevivência. Cercado por brinquedos velhos, bandeiras do Brasil e peças encontradas no lixo, ele imagina transformar o espaço em algo diferente. “Tenho uma ideia de fazer uma instalação, enchendo tudo com materiais recicláveis e lixo reaproveitado, para montar um parque com uma roda giratória, como se fosse um circo”, conta.

Dentro do barraco improvisado, colchões cobertos por lençóis vermelhos ficam apoiados sobre madeira e entulho. Um pequeno refrigerador divide espaço com caixas plásticas, roupas e caixas de som. Poucos metros adiante, preso por uma corda curta na entrada da moradia, um cachorro acompanha o movimento de pessoas e veículos.

O animal aparece várias vezes durante a conversa e Marcos interrompe a entrevista para olhar se ele está bem, ajustar a corda e fazer carinho. O cachorro virou sua companhia inseparável. “Dos R$ 600 que recebo do governo federal, mando R$ 400 para os meus filhos, que moram em Piedade, e fico com o restante para manter meu cachorro, minha mulher e a mim mesmo”, relata.

Marcos diz que vive naquele trecho da Via Mangue há cerca de quatro anos, mas antes disso, chegou a morar em Santa Catarina e trabalhou no Recife. Conta que chegou a fazer estágio na Compesa, na Avenida Cruz Cabugá. Hoje, tenta reorganizar a própria vida enquanto enfrenta dificuldades para conseguir emprego e sair das ruas.

Aos 13 anos, foi morar nas ruas pela primeira vez. Ele fala do futuro com a esperança de ter uma vida melhor. “Nós aqui precisamos, principalmente eu e meu vizinho, de um lugar para viver. A gente quer sair daqui. Não quer viver isso para sempre. A gente quer parar de ter que comer resto de comida dos outros”, afirma.

Ao lembrar da juventude, Marcos conta que conheceu Janair ainda adolescente, quando os dois moravam em Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. Os filhos vivem atualmente com parentes da esposa. “Eu não quero ser melhor do que ninguém. Só queria um canto para viver. Não quero duplex, não. Queria apenas um terreninho para fazer uma casa e viver com minha família”, diz.

Em outro momento da conversa, ele fala sobre o uso de drogas e sobre como a convivência com os outros moradores ajudou a diminuir o consumo. “Aqui tinha droga, roubo de fios e várias outras situações. E, através desses meus vizinhos, eu consegui diminuir o uso de drogas. Eu era usuário de mais de 50 pedras por dia”, relata.

Marcos continua organizando objetos recolhidos pelas ruas, cuidando do cachorro e tentando manter de pé o pequeno espaço que chama de casa. Acima dele, a cidade continua passando.

A situação encontrada sob a Via Mangue retrata um problema antigo do Recife. Dados recentes da Fundação João Pinheiro apontam que a capital pernambucana possui déficit habitacional estimado em 54 mil moradias. Grande parte desse número está relacionada ao peso do aluguel no orçamento das famílias, quando mais de 30% da renda mensal é comprometida apenas para manter a moradia.

Além do alto custo dos aluguéis, o Recife enfrenta limitações para ampliar a habitação popular, como a falta de terrenos disponíveis, áreas sujeitas a alagamentos e milhares de imóveis vazios espalhados principalmente pela região central da cidade.

Levantamentos apresentados ao Conselho da Cidade identificaram mais de 95 mil imóveis desocupados no Recife. Somente nos bairros de Santo Antônio e São José, centenas de prédios sem uso foram mapeados, muitos considerados aptos para projetos de habitação social.

Enfrentamento ao déficit de moradias e assistência social

Em nota, a Prefeitura do Recife informou que a política habitacional desenvolvida desde 2021 já viabilizou mais de 7 mil unidades habitacionais entre obras concluídas, em andamento e aprovadas pelo Programa Minha Casa Minha Vida e pela PPP Morar no Centro.
Segundo a gestão municipal, oito conjuntos habitacionais já foram entregues, totalizando 1.811 moradias. Outras 2 mil unidades estão em construção em bairros como Boa Viagem, Imbiribeira, Ilha do Retiro, Cordeiro e Iputinga.

A prefeitura também destacou que a PPP Morar no Centro prevê a criação de mais de mil habitações na região central do Recife, por meio da recuperação de edifícios e construção de novos empreendimentos nos bairros de São José, Santo Antônio, Boa Vista e Cabanga.

Já a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome informou que realiza abordagens sociais diárias na área sob o viaduto da Via Mangue por meio do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS), acompanhando Marcos e outras famílias que vivem no local.

Segundo a pasta, durante as ações são oferecidos acolhimento institucional, encaminhamento para serviços de saúde, apoio para emissão de documentos, acesso à alimentação e inclusão em programas sociais. A pasta ressaltou que o acolhimento não é obrigatório, já que a população em situação de rua possui direito constitucional de ir e vir.

A gestão municipal também destacou o trabalho do Centro POP Boa Viagem, equipamento voltado à população em situação de rua que oferece banho, alimentação, itens de higiene, lavanderia, espaço para descanso e acompanhamento psicológico e social.

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