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Vida Urbana

Inquérito aponta Deolane como peça-chave em esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC

Segundo o inquérito policial, obtido pelo Diario de Pernambuco, Deolane Bezerra era beneficiária de valores oriundos de transportadora utilizada como braço financeiro do PCC

Bartô Leonel

Publicado: 21/05/2026 às 19:25

Prisão de Deolane Bezerra faz parte de uma operação conjunta do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil,/Foto: LECO VIANA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO

Prisão de Deolane Bezerra faz parte de uma operação conjunta do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil, (Foto: LECO VIANA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO)

O inquérito policial que embasou a prisão preventiva da influenciadora digital e advogada pernambucana Deolane Bezerra, nesta quinta-feira (21), em Barueri, no estado de São Paulo, aponta “com bastante segurança” que ela seria atualmente uma das principais integrantes do esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

“A partir das informações colhidas em afastamentos de sigilos bancário, financeiro e fiscal, demonstram com bastante segurança, que Deolane Bezerra dos Santos é hoje uma das mais importantes pessoas integrantes do vasto e diferenciado esquema de lavagem e capitais gerido pela ORCRIM [Organização Criminosa] Primeiro Comando da Capital”, diz trecho do inquérito policial obtido pelo Diario de Pernambuco.

Segundo as investigações, Deolane era uma das beneficiárias de valores oriundos da transportadora Lopes Lemos Transportes Ltda, que era utilizada para lavar dinheiro do crime organizado. A empresa é considerada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo como um dos braços financeiros do PCC.

Ainda conforme o inquérito, os valores destinados para Deolane eram “recebidos em contexto de “acerto” ou “fechamento” financeiro, e não como contraprestação lícita por serviços advocatícios.”

Para chegar até Deolane, as investigações identificaram uma “estreita ligação” dela com Everton de Souza, vulgo Player, apontado como intermediador do núcleo financeiro, que tinha a responsabilidade de indicar quais contas receberam os recursos do esquema.

Entre as contas indicadas por ele, duas eram de Deolane, fator que motivou a investigação da advogada. Ainda de acordo com inquérito, a quebra de sigilos bancário e fiscal demonstraram “movimentações vultosas e incompatíveis com as rendas declaradas”.

A investigação também constatou a existência de transações com pessoas e empresas suspeitas, além da ostentação de padrão de vida elevado e publicamente exibido em redes sociais, algo desproporcional às informações fiscais de Deolane. Já com relação às empresas vinculadas à acusada, elas funcionavam como “uma verdadeira 'caixa central' do grupo”, já que apresentou movimentação na casa de dezenas de milhões de reais.

Segundo o inquérito, as movimentações apresentam “expressiva parcela de créditos sem identificação de depositantes, provenientes sobretudo de intermediadoras de pagamento, plataformas digitais e fintechs, muitas delas já associadas, em outros procedimentos, a ocorrências de estelionato e fraudes eletrônicas”.

Operação Vérnix

A prisão de Deolane Bezerra faz parte de uma operação conjunta do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil, que mira um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. Junto a Deolane, estão entre os investigados Marco Herbas Camacho, o ‘Marcola’, considerado o líder da facção, preso desde 1999, e seu irmão, Alejandro Camacho (Marcolinhas), que também cumpre pena em sistema carcerário de segurança máxima em Brasília.

A investigação, chamada de Operação Vérnix, começou em 2019 e passou a mirar a influenciadora após terem sido identificados depósitos suspeitos e movimentações financeiras incompatíveis em contas vinculadas a ela entre 2018 e 2021.

Segundo os investigadores, foram mais de 50 depósitos que totalizaram aproximadamente R$ 700 mil. As múltiplas transferências sinalizam uma tentativa de dificultar o rastreamento do dinheiro.

As investigações tiveram origem em 2019, quando bilhetes e manuscritos foram apreendidos pela Polícia Penal no interior da Penitenciária II de Presidente Venceslau, em poder de dois sentenciados.

O material, segundo o MPSP, revelou elementos relacionados à dinâmica interna do PCC, à atuação de lideranças encarceradas e a possíveis ataques contra agentes públicos.

Durante esses sete anos de investigações, foram instaurados três inquéritos policiais sucessivos. O primeiro inquérito teve como foco direto os dois sentenciados que estavam na posse dos manuscritos. O segundo inquérito foi originado durante a análise dos manuscritos, nos quais tinha uma citação sobre uma “mulher da transportadora”, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa.

O segundo inquérito buscou identificar quem seria a mulher mencionada nos bilhetes e qual seria a relação da transportadora com o grupo criminoso. A investigação resultou na Operação Lado a Lado, que revelou que a transportadora, sediada em Presidente Venceslau, apresentava movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente e a utilização da transportadora como verdadeiro braço financeiro do PCC.

Conforme o MPSP, a apreensão de um aparelho celular durante a Operação Lado a Lado revelou conversas com pessoas ligadas à cúpula da facção criminosa, além de indícios de repasses financeiros e conexões com Deolane. A apuração ainda constatou que essa influenciadora possuía estreitos vínculos pessoais e negociais com um dos gestores fantasmas daquela transportadora.

Ao todo, a Operação Vérnix decretou seis prisões preventivas, bloqueios de valores superiores a R$ 327 milhões, sequestro de 17 veículos, incluindo modelos de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões, além de quatro imóveis vinculados aos investigados.

Três investigados estariam respectivamente na Itália, na Espanha e na Bolívia, fazendo com que a Polícia Civil de São Paulo representasse pela inclusão deles na Lista Vermelha da Interpol.

Investigações distintas

De acordo com o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, a operação desta quinta-feira (21) não tem relação com a Operação Integration, deflagrada em 2024, no Recife, na qual Deolane também foi presa.

A Operação Integration foi deflagrada pela Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) e investigava um suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio de jogos de azar.

Em fevereiro deste ano, a Justiça Federal de Pernambuco (JFPE) anulou decisões da Integration e determinou que a investigação e as provas produzidas pela Polícia Civil fossem encaminhadas à Polícia Federal.

Porém, recentemente, a influenciadora foi processada pelo delegado Paulo Gondim, da Polícia Civil de Pernambuco, responsável pela prisão dela durante as ações da Operação Integration. O delegado pede uma indenização de R$ 81 mil na justiça por danos morais.

Segundo os advogados do delegado, a influenciadora passou a dar “declarações ofensivas e inverídicas” contra o delegado da Polícia Civil de Pernambuco (PCPE), por meio das redes sociais e entrevistas públicas.

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