"Hoje posso dormir sem goteira em cima dos meus filhos", diz moradora em entrega de habitacional no Recife
A entrega do habitacional Vila Esperança, localizada no bairro do Monteiro, Zona Oeste do Recife, foi realizada nesta quinta-feira (21), pela Prefeitura do Recife
Publicado: 21/05/2026 às 14:58
Aurinete Maria e a mãe já estão morando no habitacional do Monteiro (RAFAEL VIEIRA/DP)
“Hoje eu posso dormir sem ter goteira caindo em cima dos meus filhos.” Foi assim, emocionada, que a auxiliar administrativa Juciara Maria, de 25 anos, resumiu o sentimento ao receber as chaves do novo apartamento no Habitacional Vila Esperança, entregue nesta quinta-feira (21), no bairro do Monteiro, Zona Oeste do Recife.
Mãe de duas crianças pequenas, de 2 e 3 anos, Juciara contou que vivia em uma casa improvisada, sem saneamento básico e com apenas um quarto. Segundo ela, os filhos começaram a desenvolver alergias por conta das condições do local, onde havia lama, animais soltos e infiltrações.
“Eu morava em um lugar que não tinha saneamento básico, tinha cavalo, muita sujeira e ninguém respeitava. Meus filhos começaram a ter alergia. Não dava para todo mundo dormir junto. Minha filha dormia na casa da minha irmã e meu filho dormia comigo”, relatou.
Ela disse que acompanhou diariamente a construção do residencial e que os filhos alimentavam a expectativa de finalmente terem um quarto.
“Todos os dias quando eu passava para ir trabalhar, meus filhos perguntavam: ‘mamãe, a gente vai morar aqui?’, ‘mamãe, eu vou ter um quarto?’. Hoje a palavra é gratidão”, afirmou.
Juciara também relembrou as dificuldades enfrentadas após perder praticamente tudo durante uma enchente. Segundo ela, a mudança representa a oportunidade de recomeçar com mais dignidade.
“Eu perdi tudo na última cheia. Hoje eu só tenho umas caixas, lençóis para cobrir meus filhos e a geladeira que consegui comprar. Vou construir tudo aos poucos novamente”, disse.
Apesar das dificuldades financeiras, ela afirmou que o novo apartamento representa segurança e qualidade de vida para a família.
“Agora eu posso dormir sem pingueira em cima dos meus filhos e em cima de mim. É uma vida nova, um aconchego novo”, completou.
O habitacional foi construído para atender famílias removidas das margens do Rio Capibaribe durante as obras do sistema viário da Ponte Jaime Gusmão. Ao todo, 75 apartamentos começaram a ser entregues pela Prefeitura do Recife. A obra teve um aporte de R$ 11,5 milhões.
Histórias de vida
Entre os beneficiados está Rafael Paz, que viu a casa da mãe ser demolida para a construção da ponte. Apesar da incerteza durante o processo, ele contou que a família sempre sonhou em continuar morando na mesma região.
“Eu estava na barriga da minha mãe quando ela chegou aqui. Isso aqui era tudo mato. Ela me criou e minha irmã sozinha. Lutou muito para sustentar a gente e hoje está realizando o sonho dela”, contou.
Rafael afirmou que a família aprovou o novo apartamento, apesar de algumas preocupações com segurança e espaço.
“O importante é ter um lugar da gente, não pagar aluguel e conseguir se proteger da chuva e do sol”, disse.
A aposentada Aurinete Maria Bezerra da Luz, de 62 anos, também comemorou a mudança ao lado da mãe, de 93 anos. As duas moravam anteriormente em uma casa na beira do rio e precisaram se mudar para o Sítio dos Pintos após o início das obras da ponte.
No imóvel provisório, conviviam com infiltrações, goteiras e dificuldades de locomoção, justamente no período em que a mãe de Aurinete se preparava para uma cirurgia de catarata.
“Era muito sofrimento. Tudo longe, muita dificuldade. A casa cheia de goteiras. Agora estamos em um lugar melhor, confortável. Foi Deus quem preparou essa moradia”, afirmou.
De pescador a mestre de obra
O mestre de obras Levi José de Figueiredo, de 44 anos, contou que passou boa parte da vida vivendo da pesca no Rio Capibaribe. Ele saía diariamente da comunidade do Monteiro para pescar em regiões como Ponta do Limoeiro e Boca da Barra, utilizando um pequeno barco com motor para garantir o sustento.
Segundo Levi, a mudança começou quando precisou deixar a casa onde morava por causa das obras da Ponte Jaime Gusmão. Sem conseguir continuar trabalhando como pescador, decidiu buscar capacitação profissional.
“Eu vivia da pesca. Saía todo dia para pescar no Capibaribe. Depois que tive que sair da minha casa por causa da construção da ponte, fiquei sem trabalhar e fui fazer cursos para me capacitar”, relatou.
Hoje, ele atua na construção civil trabalhando com obras. Levi contou ainda que tinha acabado de reformar a antiga residência antes da desapropriação.
“Minha casinha era toda organizadinha. Eu tinha feito reforma há pouco tempo antes de sair”, disse.
Apesar do apego ao antigo imóvel, ele relembrou as dificuldades enfrentadas por morar na beira do rio, principalmente durante os períodos de cheia. “Quem mora na beira do rio sofre com enchente. Se eu ainda estivesse lá, teria passado por várias enchentes nesses últimos anos”, afirmou.
Levi contou que, no início, não acreditava que o habitacional realmente seria entregue. “Eu não tinha expectativa nenhuma, mas a prefeitura e a URB prometeram que a gente ia sair da casa da gente e voltar para morar na mesma localidade. Graças a Deus, hoje estou recebendo minha casa de volta”, completou.
Segundo o presidente da Autarquia de Urbanização do Recife (URB) Recife, Luís Henrique Lira, o conjunto habitacional começou a ser construído em 2023 e atende famílias diretamente impactadas pelas intervenções da Ponte Jaime Gusmão.
“Esse projeto foi pensado justamente para garantir moradia digna às famílias que viviam em situação muito precária na margem do rio. Muitas delas aguardavam uma solução habitacional há anos”, afirmou.
Já o prefeito do Recife, Victor Marques, destacou que a entrega dos apartamentos conclui um ciclo de intervenções urbanísticas na região.
“A entrega desses apartamentos reforça a política habitacional da cidade e conclui um projeto importante iniciado com a Ponte Jaime Gusmão. É uma obra pensada ouvindo os moradores e garantindo mais dignidade para as famílias”, afirmou.
O prefeito também anunciou novas intervenções para o Recife, como a construção da ponte Cordeiro/Casa Forte, além de obras de pavimentação em ruas da Iputinga, implantação da ETE Cordeiro, construção de um parque linear em frente ao habitacional e uma creche ao lado do residencial com recursos do PAC.