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DRAMA

"Há 26 anos, perdi uma filha debaixo desse barro", diz moradora atingida por deslizamento em Olinda, no domingo (12)

Empregada doméstica Ana Paula dos Santos, de 53 anos, perdeu a filha de 9 anos em um deslizamento de barreira, há 26 anos, semelhante ao do último domingo, em Águas Compridas, Olinda

Bartô Leonel

Publicado: 13/04/2026 às 14:28

Moradora de Águas Compridas preocupada com a lona rasgada na barreira/RAFAEL VIEIRA/DP

Moradora de Águas Compridas preocupada com a lona rasgada na barreira (RAFAEL VIEIRA/DP)

Não é a toa que os moradores da Rua Oito de Maio, em Águas Compridas, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, não conseguem dormir em noites de chuva.

O medo de deslizamento de barreiras, como o do último domingo (12) que interditou casas da rua, não tira apenas o sono, mas faz alguns moradores reviverem os seus piores pesadelos.

“Há 26 anos, eu perdi uma filha embaixo desse barro, justamente nesse terreno ao lado. Ela tinha 9 anos e essa barreira caiu por cima da minha casa e matou a minha filha”, contou a empregada doméstica Ana Paula dos Santos, de 53 anos.

A sua filha tinha 9 anos quando foi soterrada por conta da queda de uma barreira na mesma localidade.

“Esse problema com deslizamento de barreira é antigo. Quando está chovendo, a gente não dorme. Eu venho aqui para a sala, porque qualquer coisa a gente tem que sair desesperada. Faz mais de mais de 50 anos que eu moro aqui e nada é resolvido”, ressaltou.

No momento do deslizamento, Ana Paula estava na casa de familiares, em Boa Viagem, quando foi avisada pela vizinha Joseane Silva, de 52 anos, que a barreira tinha cedido e que o barro da encosta, junto com entulhos, estava invadindo o terreno de sua residência.

Joseane Silva também foi testemunha do o drama de Ana Paula, 26 anos atrás.

“Quando aconteceu o deslizamento que matou a filha da vizinha, eu estava dormindo e escutei um barulho igual ao que ouvi ontem. Depois desse barulho, só escutei minha mãe gritando na porta da cozinha e foi aí que vi a situação da barreira e da casa totalmente destruída”, relembrou Joseane.

“Conseguimos tirar algumas pessoas da casa e continuamos procurando a menina, que foi encontrada às 2h. Foi uma noite que, se eu tivesse um inimigo, eu não desejaria que ele passe-se. Algo se repetiu neste domingo”.

Problemas na instalação de lonas nas barreiras de Olinda

Joseane afirma que fez diversas solicitações para a Defesa Civil de Olinda para que fosse recolocada a lona que protegia a barreira, que foi queimada, segundo ela, pelos moradores que residem na parte de cima da encosta.

Porém, apesar das insistentes ligações, o equipamento não foi instalado.

“Essa tragédia, aqui, foi uma tragédia anunciada. São 26 anos que aconteceu (o outro deslizamento) e o poder público não fez nada. É repugnante essa questão do poder público não fazer nada, mas também tem o lado da falta de educação da própria população, que ficava jogando lixo na barreira”, ressaltou a moradora.

“Foi o lixo que fez a barreira cair, pois jogaram um caminhão de metralha” destacou Joseane, que reside com a mãe de 72 anos, a filha, o irmão e o sobrinho.

O problema com as lonas nas encostas não foi encontrado pela reportagem do Diario de Pernambuco apenas na Rua Oito Maio.

Também em Águas Compridas, mas na Estrada da Mirueira, a dona de casa Eva Rodrigues, de 61 anos, fez relatos semelhantes à da vizinha de bairro.

Segundo ela, a filha já realizou diversos protocolos que solicitaram a troca do equipamento, que rasgou por conta do vento.

“A lona está rasgada desde agosto do ano passado. De lá para cá, a minha filha ficou solicitando uma nova lona, mas ninguém nunca veio até agora”, reclamou.

“Estou morando na casa da frente, com minha mãe, por conta do medo. Já vi barreiras menores provocarem diversos estragos. Já desocupei minha sala, o meu quarto e o da minha irmã, para prevenir”, explicou.

Em todos os casos, a falta de condições financeiras faz com que as famílias permaneçam nesses locais e vivenciem o medo e a perda de sono em dias de chuva.

Explicação sobre as lonas

O secretário executivo da Defesa Civil de Olinda, Carlos D'Albuquerque, esteve nesta segunda-feira (13) na

Rua Oito de Maio para vistoriar os trabalhos de limpeza das casas e retirada de bananeiras e coqueiros da barreira.

Durante a vistoria, ele justificou a não instalação das lonas, como relatadas pelas moradores de Águas Compridas.

“A gente tem um período de colocação de lona, que acontece a partir do final de fevereiro para começo de março. Isso acontece porque se colocarmos muito cedo, chega na quadra chuvosa e ela já estará toda estragada, como foi o caso da que tinha aqui”, adiantou.

Ainda segundo o secretário, uma lona será instalada ainda nesta segunda (13) na barreira que deslizou na rua Oito de Maio, para evitar outro problema.

 

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