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Chuva deixa em alerta comunidade à beira de canal no Recife: "Necessidade me obriga a viver aqui"

O Diario retornou à casa de Marta Teles, na Comunidade do Vietnã, na Zona Oeste do Recife, e ouviu relatos de apreensão após a chuva intensa desta quarta (1º)

Bartô Leonel

Publicado: 01/04/2026 às 14:41

Marta relatou a apreensão com a chuva desta quarta (1)/MARINA TORRES/DP

Marta relatou a apreensão com a chuva desta quarta (1) (MARINA TORRES/DP)

A rotina de “fiscalizar” o volume de chuva que cai no Recife voltou a ser realidade para a moradora da Comunidade do Vietnã, Marta Teles, que reside em uma casa construída sobre o canal da localidade, situado na zona oeste da capital pernambucana.

A apreensão e o medo da residência ceder permaneceu com ela durante quase toda a madrugada desta quarta-feira (1).

"Pingou em todo canto. Fiquei doidinha. Fui dormir era umas 4h da manhã, pois foi muita água. Estava com medo de acontecer qualquer coisa, pois já estava pronta para pegar os animaizinhos e sair correndo de dentro”, relatou.

Marta Teles foi ouvida pela reportagem do Diario de Pernambuco há 10 dias, data em que a Prefeitura do Recife lançava a Ação Inverno de 2026, que prevê uma série de medidas para minimizar os problemas causados pela chuva.

Entre as ações previstas na Ação Inverno estão a requalificação de seis canais da capital pernambucana, sendo o do Vietnã, que passa por debaixo da residência de Marta, um dos beneficiados.

Porém, enquanto as obras no canal da comunidade não acontecem, a agonia durante as chuvas permanece a mesma, algo vivenciado por ela há anos.

"A gente está dentro dos ratos, das baratas e de tudo que não presta. As crianças ficam pisando nessa lama podre, correndo o risco de pegar uma doença. Eu não posso nem está enfrentando essa realidade, tenho pressão alta e diabetes, mas a necessidade me obriga a viver aqui, pois não tenho condições. Recebo apenas um salário, mas um salário dá pra quê?”, destacou Marta Teles.

Segundo ela, a residência nunca chegou a alagar porque foi construída em cima de uma laje, classificada por ela como uma “ponte”, que atravessa o canal. O nível em que foi erguida evita que a água invada a casa.

Marta Teles justifica que a escolha do terreno para construir sua residência se deu por ser a única “beira de área” disponível para construção da casa, diante das necessidades e dificuldades financeiras.

Problema comum à toda comunidade

“Não ter outro lugar para morar” é o argumento de outros moradores da Comunidade do Vietnã para justificar a permanência na localidade, mesmo após anos de transtornos causados pela chuva.

“Não tem outro lugar pra gente ir. Não só eu, como todo mundo que mora aqui, na comunidade, que precisa. Se eu tivesse uma casa boa, eu não estaria aqui. Mas como só tenho essa, vou fazer o que?”, relatou outra moradora da Comunidade do Vietnã, Lúcia Casemiro, que reside nas margens do canal há quase 13 anos.

Segundo ela, em outros anos, a chuva invadiu a sua residência e fez com que ela perdesse alguns móveis, obrigando-a a fazer intervenções no seu imóvel.

A dona de casa, Tânia Maria, que reside na comunidade, também perdeu seus pertences em sua casa por conta da água.

“Quando o canal está muito cheio, a água retorna para gente. Se vier mesmo uma ‘trovão de água”, aqui vira o ‘Titanic’. Em 2024, por exemplo, a água entrou em todas as casas, principalmente, a minha que perdi quase tudo”, ressaltou.

Outro medo dos moradores no período de chuva é com as redes de energia elétrica da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) que passam por cima das casas.

“Quando chove aqui, a gente não consegue nem dormir por conta dessa rede elétrica, pois ela faz muita zoada”, destacou Tânia. O medo de rompimento da rede durante as chuvas também tira o sono dos moradores.

Várias residências da localidade foram cadastradas e receberam um selo do Programa ProMorar da Prefeitura do Recife.

Segundo Tânia, os moradores foram informados que receberão indenizações ou serão transferidos para unidades habitacionais que estão sendo construídas no bairro do Jiquiá, também na zona oeste do Recife.

A reportagem do Diario de Pernambuco procurou a Prefeitura do Recife a fim de saber se existe uma previsão de data para a retirada das famílias para os habitacionais do Jiquiá. A gestão respondeu mediante nota. Confira na íntegra:

"A Prefeitura do Recife informa que iniciou, no começo de março, um conjunto de obras estruturadoras de macrodrenagem na Zona Oeste da cidade, com investimento de quase R$ 60 milhões, voltadas à redução dos alagamentos em áreas como a Comunidade do Vietnã. As intervenções são executadas no âmbito do ProMorar Recife e incluem a requalificação dos canais da Chesf e do Vietnã, a implantação de reservatórios de retenção de água nas alças da BR-232 e melhorias no sistema de microdrenagem da Avenida Abdias de Carvalho. Ao todo, mais de 100 mil pessoas devem ser beneficiadas.

Uma das principais frentes já iniciadas é a construção de quatro reservatórios de detenção de cheias nas alças da BR-232, entre os bairros do Curado e Torrões. Juntos, os equipamentos terão capacidade para armazenar cerca de 117 mil metros cúbicos de água, o equivalente a aproximadamente 45 piscinas olímpicas, e devem reduzir em até 30% o pico das cheias em eventos extremos, diminuindo significativamente os alagamentos que atingem a Comunidade do Vietnã, Torrões e o entorno da Avenida Abdias de Carvalho.

Outra intervenção estruturadora é a requalificação dos canais da Chesf e do Vietnã, com investimento da ordem de R$ 21 milhões. As obras vão ampliar a capacidade de escoamento das águas pluviais por meio da limpeza, desobstrução e requalificação das calhas, além de intervenções como estabilização das margens, retaludamento e revestimento. Também estão previstas alterações no traçado do canal da Chesf, com instalação de bueiros, implantação de ecobarreira e criação de acessos laterais, o que deve facilitar a manutenção e reduzir o risco de transbordamentos.

Para viabilizar as obras, cerca de 300 imóveis precisarão ser desapropriados. Até o momento, 189 famílias já foram cadastradas, sendo que 47 concluíram negociação e outras 32 estão em processo de acordo.

As famílias impactadas podem optar por diferentes modalidades de atendimento habitacional, como reassentamento em unidades no Jiquiá, indenização ou compra assistida. Em janeiro deste ano, a Prefeitura do Recife, em parceria com o Governo Federal, lançou chamamento público para a construção de três conjuntos habitacionais no bairro, totalizando 480 unidades, com investimento estimado em R$ 84 milhões".

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