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Após botar 3 filhos na faculdade, doméstica volta a estudar e sonha em cursar Gastronomia

A empregada doméstica Simone Maria, de 55 anos, é aluna do EJA da EREF Professor Cândido Duarte, no bairro da Várzea, no Recife. Situação de vulnerabilidade social a impediu de concluir os estudos no "tempo ideal"

Bartô Leonel

Publicado: 16/03/2026 às 06:31

Simone Maria é estudante do módulo V da EJA, que corresponde ao 6º ano do ensino fundamental/Foto: Rafael Vieira / DP Fotos

Simone Maria é estudante do módulo V da EJA, que corresponde ao 6º ano do ensino fundamental (Foto: Rafael Vieira / DP Fotos)

Pegar no lápis e abrir o caderno dentro de uma sala de aula pode ser um ato simples e até detestável para alguns alunos, porém para estudantes que ingressam na Educação de Jovens e Adultos (EJA), como é o caso da empregada doméstica, Simone Maria, de 55 anos, essas atitudes podem representar o recomeço de um sonho que foi adormecido com o tempo.

Simone Maria é estudante do módulo V da EJA, que corresponde ao 6º ano do ensino fundamental, na Escola de Referência em Ensino Fundamental (EREF) Professor Cândido Duarte, localizada no bairro da Várzea, na Zona Oeste do Recife. Ela tem o sonho de fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e cursar a graduação de gastronomia.

“Eu sempre tive vontade de voltar a estudar. Quando era muito nova, meus pais se separaram, deixando eu e meus irmãos à mercê. Por isso que não estudei no ‘tempo ideal’. Mas, eu sempre tive esse desejo de estudar. O meu sonho é fazer o Enem para conseguir ingressar em uma faculdade. Tenho o sonho de cursar culinária e ser uma chefe”, explicou.

Porém, mesmo não tendo a oportunidade de concluir a escola no tempo considerado ideal, ela sempre incentivou seus três filhos a seguirem o caminho dos estudos, tanto que todos ingressaram no ensino superior.

“Acho muito bonito as pessoas levando os filhos para a escola e sempre encaminhei meus filhos para os estudos, sempre em escolas públicas porque nunca tive condições de pagar uma particular. E esse meu incentivo pelo estudo deu certo, pois dois já se formaram e o meu filho adotivo está fazendo graduação de Engenharia da Computação na rural (UFRPE)", destacou, lembrando com orgulho: "A minha filha mais velha é formada em Enfermagem e meu filho em Direito, os dois na UFPE”.

E foram os próprios filhos, junto com o seu marido, José Márcio, de 50 anos, que incentivaram Simone a voltar à sala de aula. No início, ela e o esposo ingressaram no PE +Alfabetizado, programa coordenado pela Secretaria Executiva de Desenvolvimento da Educação (Sede), que tem como objetivo superar o analfabetismo e elevar a escolaridade da população jovem, adulta e idosa.

Durante as aulas do programa, uma das professoras a incentivaram a ingressar no EJA para finalizar o ensino médio e fundamental. Por conta do emprego de pedreiro, José Márcio não conseguiu conciliar a escola com o trabalho, desistindo, no momento, de dar sequência aos estudos.

“Essa rotina de estudar e trabalhar é cansativa e por isso que meu marido não conseguiu seguir nos estudos. Minha rotina mesmo é bastante corrida, pois passo o dia trabalhando como empregada doméstica lá em Casa Forte, pego ônibus lotado todos os dias e venho à noite estudar. Mas, mesmo com tudo isso, nada impede de seguir meu sonho e eu vou atrás. É o sonho de fazer gastronomia que me impulsiona a estudar”, ressaltou Simone Maria.

Motivos por não estudar no “tempo ideal”

Segundo Simone, a separação dos pais fez com que ela e seus irmãos passassem por diversas situações de vulnerabilidade social, não tendo ninguém para realizar matrícula nas escolas na época. Essa situação fez com que eles trabalhassem desde cedo. Na época da separação, Simone tinha apenas 9 anos de idade.

Com o passar dos anos, sua irmã mais velha, Sandra Valéria, de 58 anos, voltou a estudar e atualmente está cursando Ciências Sociais em uma faculdade particular. O irmão mais novo, Paulo, com quem Simone não tem mais contato, também retomou os estudos.

Preconceito por voltar a estudar

Além dos traumas de um passado sofrido, Simone também tenta superar o preconceito que ainda assola as pessoas que ingressam no EJA.

“Já escutei muitas pessoas dizendo que não era o tempo para voltar a estudar. Muitos diziam: ‘depois dessa idade, tu vai buscar o quê na escola? Tu vai entrar na faculdade com 100 anos, é?’ Essas falas me abalaram um pouco no começo, tanto que quando escrevia, eu tremia muito por que me lembrava dessas palavras”, relembrou.

“Mas com o tempo, eu passei a responder essas pessoas dizendo que não existe idade para voltar a estudar. Essas pessoas que falaram isso para mim são gente preconceituosas e devemos tirar esse pensamento da sociedade e incentivar as pessoas a voltar a estudar”, completou.

Além da vontade de atingir o sonho desejado, o acolhimento proporcionado pela escola, segundo Simone, tem sido fundamental para seguir em busca do seu sonho.

“Os professores dão uma base muito forte para a gente. Coisa que nunca pensei em estudar, estamos vendo. Eles estão ensinando inglês para os alunos e estou até bem. Todos aqui na escola nos tratam bem, do porteiro ao professor. Eles nos ajudam até em tudo, até mesmo no momento de escrever, pois muitos alunos perderam o costume com o tempo”, enfatizou.

Números da EJA

Segundo dados da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco (SEE-PE), o quantitativo de pessoas matriculadas no EJA este ano, que atualmente está com 63.768 alunos, já superou os números de 2025, quando foram registradas 62.317 matrículas.

Mesmo com esse aumento, o quantitativo de matrículas diminuiu 7% em comparação a 2024, quando foram registrados 66.886 alunos. Vale destacar que o processo de inscrição para o EJA ainda segue em aberto.

"A Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI) é fundamental para promover inclusão social, reduzir desigualdades e garantir o direito à educação para quem não concluiu os estudos na idade regular. Além de combater o analfabetismo, contribui para a qualificação profissional, melhoria da renda e fortalecimento da autoestima”, destacou a gerente de Políticas Educacionais de Jovens, Adultos e Idosos, Jeane Lima.

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