Marco da orla, Casa do Brigadeiro resiste no "mar de prédios" em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife
Em meio aos grandes prédios da Avenida Boa Viagem, a Casa do Brigadeiro testemunha mudanças na via há 81 anos
Publicado: 02/03/2026 às 07:00
Casa do Brigadeiro, número 4.244, na Avenida Boa Viagem, na Zona Sul do Recife (Foto: Rafel Vieira/DP Foto)
Os oito quilômetros da Avenida Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, são tomados por um horizonte repleto de prédios que parecem não ter mais fim, não só para os lados, mas também para cima. Em meio às altas estruturas, uma das únicas casas na via resistiu ao tempo e virou referência mesmo “engolida” pela vizinhança, como mostram imagens do Diario de Pernambuco. A Casa do Brigadeiro, número 4.224, olha, de dentro de um mar de edifícios, diretamente para o mar da praia de Boa Viagem.
Aos 81 anos de existência, o imóvel insiste em mostrar como a Avenida Boa Viagem mudou ao longo da história, não só recifense, mas brasileira. A casa foi inaugurada em 11 de outubro de 1944, para ser lar do Brigadeiro Eduardo Gomes, que à época era Major-Brigadeiro-do-Ar da Aeronáutica. Recife, naquele momento, tinha uma importância mundial: era uma das bases estadunidenses na Segunda Guerra.
O Brigadeiro
O Brigadeiro Eduardo Gomes era carioca e nasceu em 1896. Ainda hoje, ele é lembrado pela participação na Aeronáutica e na política. A carreira foi marcada pelo envolvimento no Movimento Tenentista e na revolta dos 18 do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, sendo um dos únicos sobreviventes. Ele chegou à capital pernambucana em 1941, quando foi designado Comandante das I e II Zonas Aéreas, sediadas em Belém e no Recife, respectivamente, e se transferiu para a Terra dos Altos Coqueiros.
Em 1945 e 1950, ele foi candidato à Presidência da República pela UDN, mas não venceu em nenhuma das ocasiões, sendo derrotado por Vargas. O doce “brigadeiro” ficou conhecido pela patente dele durante a campanha, quando era vendido para arrecadação de fundos. Posteriormente, foi Ministro da Aeronáutica nos governos Café Filho e Castelo Branco.
Em 1964, participou do Golpe de Estado que depôs o presidente João Goulart. Vinte anos depois, em 1984, foi proclamado Patrono da Força Aérea Brasileira (FAB) por suas virtudes e dedicação à pátria.
A Casa do Brigadeiro
O imóvel foi construído quando a Avenida Boa Viagem não era, ainda, um grande foco residencial na capital pernambucana. A exploração do litoral da localidade teve início em 1924, projeto do governador Sérgio Loreto, com a construção da via e incentivos à movimentação social na área, conta a professora da UFRPE e coordenadora do Laboratório de Estudo sobre o Recife (RecLab), Mariana Zerbone.
“Só na década de 20 a avenida é construída e, junto disso, se fez um plano de isenção de impostos. Foram cerca de 40 casas construídas nessa época, porque foi liberado imposto para construção na avenida. Naquele momento, era para veranear. Ninguém se mudou direto para Boa Viagem, era como um balneário, porque isso estava acontecendo em outros países na Europa”, explica Zerbone.
O padrão era de casas muito grandes, todas da elite recifense. “Eram pessoas que tinham dinheiro para investir”, diz a docente.
Cerca de 20 anos depois, a Casa do Brigadeiro foi inaugurada.
“No período da guerra de 39 a 44, Recife passa a ser base americana. A base americana tem muita influência no Pina e Boa Viagem. Foi construído o Cassino Americano, base aérea americana, aeroclube. Na Avenida Boa Viagem, há muito terreno que ainda é da Aeronáutica. [Na época] Veio o Brigadeiro Eduardo Gomes, então, provavelmente por ser uma casa para uma alta patente, se localiza num local muito privilegiado da praia”, comenta a professora.
Próximo ao portão, há uma placa, instalada em dezembro de 2008, com algumas informações sobre a Casa.
“Construída ao final da Segunda Guerra Mundial, pelo patrono da Força Aérea Brasileira, Brigadeiro Eduardo Gomes, em meio a poucos vizinhos, mangues e dificuldades viárias. Voltada para o Atlântico, mantendo eterna vigilância do nosso litoral, onde 34 navios brasileiros foram torpedeados, causando a morte de 1081 pessoas, na maioria, civis inocentes. Projeta a grandeza de uma geração de heróis, que souberam hipotecar suas existências a serviço da pátria, sem nada exigirem, nem mesmo compreensão. O trabalho de conservação da beleza arquitetônica da casa retrata o carinho e o respeito da família aeronáutica para com a sociedade pernambucana que, há mais de 60 anos acolhe fraternalmente a força aérea na terra dos altos coqueiros.
Recife, dezembro de 2008”, cita o material.
Do balneário da elite à verticalização inevitável
Na década de 50, o governo de Pernambuco incentivou prédios altos com isenções fiscais na Avenida para que a via seguisse o padrão do Rio de Janeiro, visando "se tornar um pouco Copacabana". Aí começam as surgir os primeiros prédios.
“Os primeiros edifícios foram construídos por um outro incentivo para a construção de edifícios altos na Avenida Boa Viagem. Teve um decreto de isenção de todos os impostos municipais durante 15 anos para a construção de hotéis, principalmente com mais de seis andares. É uma proposta de modificação da paisagem, do uso da Avenida, para se tornar um pouco Copacabana. Recife está sempre olhando para outros lugares como referência de padrão de urbanização”, relembra Mariana.
A princípio, os edifícios não substituíram as casas, mas sim começaram a ocupar os espaços que ainda existiam na Avenida. A substituição aconteceu depois, segundo a professora, como a Casa-Navio. Construída também na década de 1940, foi uma das mais marcantes da Avenida Boa Viagem. O imóvel foi demolido em 1981, para a construção do Edifício Vânia.
Avançando no tempo, já em 2000, a docente conta que, em uma pesquisa própria, mapeou apenas cerca de 100 casas ao longo da Avenida Boa Viagem. Neste século, a via é majoritariamente predial. Segundo dados da Prefeitura do Recife, hoje, dos 6.707 imóveis registrados pela gestão na extensão da via, apenas 24 são casas.
Nesse movimento, a especulação mobiliária se fortaleceu na região. Não à toa, Boa Viagem, atualmente, tem o quarto aluguel mais caro do Recife. Enquanto o setor imobiliário – descrito por Zerbone como “muito forte para definir muito como a cidade é construída" – substituiu quase todas as residências por edifícios, a Casa do Brigadeiro permanece.
Para a geógrafa, a manutenção dessa memória é fundamental, pois a paisagem é uma "coexistência de edificações de tempos diferentes". Hoje, a Casa funciona como uma bússola para os recifenses, sendo um ponto de referência essencial que ajuda a "ler" as camadas históricas da capital pernambucana.
“A gente consegue perceber essa permanência do tempo por conta da sua preservação, justamente por ser equipamento militar. A Casa do Brigadeiro está ali como esse memorial, essa arquitetura da década de 40 que só não foi engolida porque de fato é uma casa militar”, diz Daniel Uchôa, professor, pesquisador e morador de Boa Viagem. Ele também é fundador do Coletivo Setúbal.
Segundo Uchôa, que pela referência que o imóvel tem, poderia virar um aparelho cultural para Boa Viagem.
“Como um morador de Boa Viagem que nasceu nos anos oitenta, sempre vi prédios para todo lado. Só que eram prédios menores. Aumentaram de cinco para trinta andares na virada dos anos dois mil. Agora tudo é prédio, não existem mais terrenos. Nós sugerimos que essa casa precisa ser tombada pelo valor histórico e precisa cumprir um papel histórico hoje na cidade do Recife. A Zona Sul carece de equipamentos culturais e aquele lugar, a Casa do Brigadeiro, poderia sediar o Museu da História de Boa Viagem”, revela.