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Patrimônio histórico de Pernambuco, o Cemitério dos Ingleses é alvo de furtos e vandalismos

Nove câmeras de monitoramento e refletores de iluminação estão na lista de itens furtados recentemente do Cemitério dos Ingleses, patrimônio com mais de dois séculos de existência

Cadu Silva

Publicado: 28/01/2026 às 12:38

Cemitério dos Ingleses, patrimônio histórico com mais de dois séculos, é alvo de furtos e vandalismos/KAROL RODRIGUES/DP

Cemitério dos Ingleses, patrimônio histórico com mais de dois séculos, é alvo de furtos e vandalismos (KAROL RODRIGUES/DP)

Sob a vigilância apenas dos caninos Joly e Spyke, o Cemitério dos Ingleses, em Santo Amaro, região central do Recife, tem sido alvo de constantes furtos.

Como as nove câmeras de monitoramento e refletores de iluminação que recentemente foram levados do local, um patrimônio histórico de Pernambuco com mais de dois séculos de existência.

Há quase três décadas trabalhando no local, o coveiro Marcos Pereira, de 58 anos, relata que os crimes acontecem principalmente durante a madrugada e ao amanhecer.

“Cinco e meia da manhã eles pulam a cerca lá por trás. Cortam a concertina, entram pelo muro, sobem em telhado. Aqui não tem segurança nenhuma”, afirma.

Segundo Marcos, a cerca elétrica não funciona por falta de bateria e parte da estrutura não pode ser modificada por se tratar de um patrimônio histórico.

“A gente não pode aumentar o muro, não pode mexer em muita coisa. Aí fica fácil pra eles. Ladrão entra de todo jeito”, diz.

Cruz de ferro, câmeras e fios estão entre os principais alvos.

De acordo com Marcos, apenas em 2023, cerca de 60 cruzes, algumas com identificação de pessoas sepultadas, foram levadas do local.

No furto mais recente, além das nove câmeras, os criminosos levaram quatro refletores de grande porte, além de fiação elétrica, cabos da bomba d’água e refletores menores.

“Hoje não tem uma câmera funcionando. Levaram tudo”, relata o coveiro.

Marcos afirma ainda que placas de mármore e gavetas de alumínio também são arrancadas para revenda como sucata.

“O que a gente conserta hoje, eles voltam de madrugada e levam de novo”, lamenta.

Entre os episódios mais graves está a violação de sepulturas. Segundo o coveiro, em um dos casos, gavetas de alumínio foram furtadas e os restos mortais de um sepultamento ficaram espalhados pelo chão.

“Quando cheguei de manhã, os ossos estavam todos no chão. Aquilo ali não tem explicação”, relata Marcos.

“Polícia classifica ocorrências como ‘furto pequeno’, diz funcionário.

Segundo o coveiro, a polícia já foi acionada diversas vezes, mas as ocorrências não avançaram.

“A resposta foi que era furto pequeno e que não podia fazer nada. Aí a gente fica entregue a quem? Aos ladrões?”, desabafa.

Sem recursos

O administrador do cemitério, Ângelo de Souza, explica que o espaço é particular e se mantém com a contribuição de cerca de 160 famílias, que pagam uma mensalidade.

De acordo com ele, o valor não é suficiente para bancar a vigilância permanente do espaço.

“Para manter segurança 24 horas seriam necessários pelo menos dois vigilantes, o que passa de cinco mil reais por mês. O cemitério não tem essa condição financeira”, afirma Ângelo.

“A arrecadação mal cobre manutenção básica.”

Por conta da falta de recursos, Marcos contou que a única maneira de obter um mínimo de segurança é utilizar os seus dois cachorros, os vira-latas Joly, de 4 anos e, Spyke de 7 anos.

Apesar da boa vontade e muitos latidos dos caninos, o Cemitério do Ingleses segue sendo invadido.

Conforme o coveiro, os cachorros ficam soltos durante a noite, porém os criminosos utilizam pedaços de madeira, pedras e até tijolos para afastar os animais e cometer o assalto.

“Quando os ladrões entram jogam pedra e pau. Qual é o cachorro que aguenta tijolo? Nenhum animal aguenta isso. Nem cachorro consegue segurar”, defende.

Com a falta de segurança, famílias têm evitado realizar velórios no local.

“O pessoal não quer mais velar aqui. À noite ninguém fica. Todo mundo tem medo”, conta Marcos.

Cemitério dos Ingleses

Fundado em 1814, com mais de dois séculos de existência, o Cemitério dos Ingleses, é um dos mais antigos espaços históricos da cidade e um marco da presença britânica em Pernambuco.

Criado a partir de uma demanda diplomática do Império Britânico, o local destinava-se ao sepultamento de súditos ingleses, impedidos de serem enterrados em igrejas católicas por professarem a fé anglicana.

Com arquitetura neogótica e túmulos em ferro fundido, o cemitério reflete a influência cultural e tecnológica trazida pelos ingleses no século XIX.

Ao longo do tempo, passou a receber sepultamentos de outras nacionalidades e religiões, tornando-se um espaço de caráter internacional.

Entre os nomes históricos ali sepultados está o general José Inácio de Abreu e Lima, cuja presença simboliza a defesa da liberdade religiosa.

O cemitério é mantido pela comunidade anglicana e segue como um patrimônio pouco conhecido, mas fundamental para a memória histórica e cultural do Recife.

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