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Vida Urbana
200 ANOS

Tragédia do Vostok: quando o sonho do circo se transformou em dor profunda

Há 25 anos, uma criança foi arrastada para a jaula e devorada pelos leões no intervalo das apresentações do circo Vostok; Esta é a quinta reportagem da retrospectiva dos 200 anos do Diario de Pernambuco

Carlos Lopes

Publicado: 30/08/2025 às 08:00

Juninho foi arrastado por leão para a jaula e devorado por cinco felinos/Alcione Ferreira/Aquivo DP

Juninho foi arrastado por leão para a jaula e devorado por cinco felinos (Alcione Ferreira/Aquivo DP)

A tarde do domingo no circo com as crianças tinha tudo para ser o grande programa do final de semana para a família Fonseca. E outras 1.800 pessoas que compraram ingressos do Gran Circo Vostok, instalado no estacionamento do Shopping Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes.

Mas a tarde do domingo, 9 de abril de 2000, ficaria marcada por um evento brutal. Ao passar próximo à jaula dos leões, o garoto José Miguel Júnior, de apenas 6 anos, foi arrancado do chão pela pata de um dos felinos, arrastado por entre as grades para dentro. E devorado pelos animais enjaulados.

A Tragédia do Circo Vostok é a quinta reportagem da série retrospectiva dos 200 anos do Diario de Pernambuco, o jornal mais antigo em circulação da América Latina.

Promessa
Juninho adorava circo, insistia para que a mãe, Maria da Conceição Silva Guerra, o levasse com a irmã, Mirela, de três anos, para o Vostok, que tanto via nas propagandas de tevê.

Ela prometeu que levaria, na semana anterior à tragédia. Mas faltou dinheiro, como explicou à reportagem do Diario de Pernambuco, e o passeio foi adiado.

“Como o pai dele veio no final de semana, aproveitou para levá-los”, revelou Maria, separada de José Miguel, e grávida de outro relacionamento.

O garoto acordou no domingo feliz da vida. Era o dia do circo, de estar pertinho de todas aquelas atrações que via na tevê. “Lembro dele dançando comigo e a irmã de manhã cedo”, relatou.

Como tentando manter vivas as últimas cenas do filho na memória, Maria contou que, quando o pai chegou, Juninho e Mirela já estavam prontos e ansiosos pelo passeio inédito. “Ele saiu daqui correndo pela rua”.

Parecia sonho
Para o pai, o vendedor autônomo José Miguel dos Santos Ferreira, de 36 anos, a programação circense era a oportunidade de matar a saudade da convivência dos filhos, ao mesmo tempo, em que realizava o sonho do mais velho.

E tudo parecia um sonho para Juninho, Mirela e o primo deles, Adson, de 10 anos, durante a primeira parte da programação do Circo Vostok, encerrada com apresentação dos pôneis.

Haveria um intervalo de 20 minutos até o início da segunda parte. O apresentador do circo, Roberto Gonçalves, convidou as crianças para aproveitar a parada e tirar fotos com os cavalinhos, em um estúdio por trás do picadeiro ao preço de R$ 5,00.

José Miguel saiu da plateia com os filhos e o sobrinho, e, assim como centenas de pais e crianças, atravessaram o picadeiro, que seria montado para as atrações da segunda parte do espetáculo.
Os 20 minutos foram insuficientes para que todos registrassem imagens com os pôneis e a família Fonseca resolveu retornar para os seus assentos e aguardar as próximas atrações.

Ao chegar ao picadeiro, o novo cenário já estava montado, com a jaula dos leões logo na frente, mas ainda sem os animais. José Miguel, com Mirela nos braços, Juninho e Adson, atrás, faziam o trajeto de volta à plateia.

Num dado momento, Juninho passou à frente do pai e da irmã. Neste dado momento, a grade que separava o carro-jaula do túnel de acesso à jaula do picadeiro foi aberta.

Em segundos, um leão deu o bote e arrastou a criança de seis anos para dentro, na frente do pai, que tentou segurá-lo, bateu na cabeça do animal, pediu ajuda. O domador tentou conter o ataque, em vão.

Outros leões, cinco no total, também atacaram o corpo de Juninho e o levaram para o carro-jaula. Impotente, José Miguel teve a pior visão que um pai poderia ter na vida.
“Meu filho morreu sorrindo”, contou o pai, após o sepultamento do filho, no dia seguinte. “Na hora que aquela fera o arrastou, ele olhou para mim e disse: ‘Ai, painho’. Mas não foi um ai de dor. Foi como quem diz vou morrer, mas estou feliz porque vou com Deus”.

 

Reportagem do Diario desmentiu um Vostok

“O Vostok tem mais de 100 anos e nunca houve um acidente”, garantiu Luiz Vostok, filho do proprietário e responsável pelo circo, poucas horas após Juninho ter sido devorado por alguns dos seus leões. “E vamos continuar funcionando normalmente”, completou.

Dois dias depois da tragédia, a reportagem do Diario de Pernambuco apurava a informação de que os felinos do Vostok já haviam deixado marcas profundas em outra criança.

A edição do dia 12 de abril trouxe na primeira página: “Leoa do circo Vostok também atacou no RS”. Na capa do caderno de Vida Urbana, a reportagem contava a história do estudante Fabiano da Silva Correa, de 12 anos, que teve parte do braço devorado por uma leoa.

As circunstâncias foram diferentes do caso Juninho. O garoto gaúcho brincava com amigos no terreno baldio, em Porto Alegre, onde o circo Vostok havia realizado apresentações e iniciava o desmonte da estrutura.

Fabiano teria se aproximado da jaula e feito até carinho na cabeça de uma leoa de sete meses. Mas quando mexeu no rabo do animal, teve o braço abocanhado e parcialmente destruído.

Desta vez, Luiz Vostok admitiu falha na segurança e demitiu o responsável pela guarda da jaula dos leões por permitir a aproximação de crianças em um terreno baldio, com livre acesso a qualquer pessoa. Mas o circo não foi responsabilizado pelo ataque.

No caso de Juninho, o domador Claudinei Pires da Rocha foi indiciado por homicídio culposo, sem a intenção de matar. O circo Vostok não respondeu criminalmente pela morte da criança, apenas pagou indenização por danos morais e materiais.

A condenação fixada pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco foi de R$ 1 milhão, mas foi reformada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a família Fonseca recebeu R$ 275 mil.

Já a família Vostok viajou para os Estados Unidos após a tragédia.

 

Depoimento: “Uma das mais tristes coberturas”

“A trágica morte do menino José Miguel dos Santos Junior, de apenas 6 anos, atacado por leões no Circo Vostok, foi uma das notícias mais tristes já publicadas pelo Diario de Pernambuco ao longo dos seus 200 anos.

A dor do seu pai, José Miguel dos Santos, foi capturada de forma comovente na fotografia da repórter Alcione Ferreira, que ocupou a primeira página do jornal em 10 de abril de 2000.

A tragédia, ocorrida em um domingo que deveria ser de diversão, teve repercussão nacional e internacional. O editor de Fotografia na época, Otávio de Souza, recebeu uma avalanche de solicitações de imagens do incidente, incluindo pedidos de dois jornais noruegueses e três britânicos, entre eles o renomado Daily Mail.

Nos dias seguintes, o assunto dominou as páginas do Diario. Uma equipe de repórteres experientes, incluindo Ana Paula Neiva, Catarina Lucrécia, Júlio Pedrosa, Margareth Andrea e Osnaldo Moraes, foi escalada para cobrir o caso.

Na fotografia, se revezaram os repórteres fotográficos Alcione Ferreira, Alexandre Gondim, Dorival Elze, Gil Vicente, Petrônio Lins, Ricardo Fernandes e Teresa Maia.

O Diario se tornou referência na cobertura e chegou a ser procurado por um cidadão gaúcho, que queria fazer chegar à polícia pernambucana uma matéria publicada na imprensa do Rio Grande do Sul sobre o ataque de uma leoa do Circo Vostok ao menino Fabiano da Silva Corrêa, de 12 anos, em Porto Alegre, no dia 27 de maio de 1997. A vítima sobreviveu, mas perdeu um dos braços.

O morador da capital gaúcha estava querendo denunciar o fato e tentava passar a reportagem por fax para a Delegacia de Piedade, mas a unidade não possuía o equipamento. Então, acionou o Diario, que recebeu a matéria por fax e entregou a denúncia ao delegado do caso.

A cobertura abordou não apenas a tragédia em si, mas também o clamor por justiça e os debates sobre medidas de segurança adequadas. A morte do menino levantou uma ampla discussão no país sobre a utilização de animais como entretenimento em circos no Brasil, resultando na aprovação de leis em vários estados.

Pernambuco se tornou o primeiro a proibir o uso de animais em circos, com a aprovação da lei 377/2000 na Assembleia Legislativa em maio de 2001.

Além de Pernambuco, apresentações com animais em circos também foram proibidas em Alagoas, Paraíba, Goiás, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Espírito Santo e Minas Gerais.

Foi um avanço, mas, infelizmente, 25 anos após a tragédia, ainda não há uma lei nacional que regule o uso de animais, sobretudo os de grande porte em espaços de entretenimento.

Desde 2000, o uso de animais em espetáculos circenses foi tratado em mais de 30 projetos de lei, dos quais 19 continuam em tramitação. A maioria defende a proibição da prática.”

Diretora de Jornalismo do Dario de Pernambuco, Paula Losada era colunista do caderno de Vida Urbana na época que chegou a notícia na redação da Tragédia do Vostok.

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