Entre algoritmos e militância, como será construída a política do futuro?
Com transição do debate político para o ambiente digital, organizações tradicionais enfrentam desafios na disputa por espaço com influenciadores
Publicado: 07/11/2026 às 07:00
Juventude protagoniza debate político no ambiente digital (Foto: Arquivo/EBC)
O futuro da política brasileira passa, cada vez mais, pelas telas dos celulares, pela linguagem das redes sociais e por novas formas de mobilização que desafiam as estruturas tradicionais de representação. A ascensão de lideranças jovens, capazes de reunir milhões de seguidores e transformar visibilidade digital em capital político, aponta para uma mudança que vai além das disputas eleitorais. Em um cenário no qual influenciadores dividem espaço com partidos, sindicatos e movimentos sociais, o desafio dos próximos anos será conciliar a força dessas novas vozes com a construção coletiva da participação democrática.
As eleições de 2026 evidenciaram essa transformação. Mais uma vez, o palanque digital teve como protagonistas personalidades jovens que, por meio de linguagens próprias e adaptadas à dinâmica da internet, mobilizaram milhões de pessoas em torno de suas ideias e trajetórias. O fenômeno, no entanto, não representa necessariamente o enfraquecimento das organizações políticas tradicionais, mas impõe a elas a necessidade de reinventar suas estratégias de diálogo e mobilização.
Na avaliação do jornalista Marcos Barbosa, pesquisador da Universidade de Salamanca, na Espanha, a ascensão das redes sociais não significou o desaparecimento das lideranças políticas que já atuavam fora do ambiente digital. O que ocorreu, segundo ele, foi uma aproximação entre os dois universos. “Existe esse movimento de grupos que já existiam, já eram organizados e lideranças que já atuavam, de utilizarem a plataforma para chegar a novos públicos e, digamos, ‘furar a bolha’. Por outro lado, existe também o caminho inverso, pessoas que surgiram no contexto digital”, avaliou.
Em Pernambuco, nomes como os deputados federais eleitos Jones Manoel (PSOL) e Rosa Amorim (PT) representam trajetórias vinculadas a organizações políticas tradicionais, posteriormente ampliadas pela atuação nas redes sociais. Por outro lado, o deputado federal eleito Thiago Medina (PL) e o deputado estadual eleito Emerson Freitas (MDB), por exemplo, utilizaram a visibilidade conquistada no ambiente digital como instrumento para ingressar na disputa eleitoral.
Para o cientista político João Paulo Bandeira, a migração das formas de atuação política para o ambiente digital acompanha uma transformação mais ampla da sociedade. “Por que a política está na internet? Porque o mundo está na internet. Por que a política é digital? Porque o mundo é digital. A política acompanha as mudanças da própria sociedade. Nesse contexto, vemos muitos influenciadores, figuras de certa forma individualizadas, que estão ali se transformando em entidades políticas”, apontou.
O pesquisador, no entanto, chama atenção para os riscos associados à ascensão dessas personalidades. Entre eles, está a possibilidade de surgimento de lideranças demagógicas, mais preocupadas em dizer o que o público deseja ouvir do que em assumir compromissos com a verdade. Segundo Bandeira, mesmo quando concentram sua atuação em temas políticos, os influenciadores podem interferir na maneira como seus seguidores interpretam diferentes assuntos. Nesse contexto, os algoritmos contribuem para a formação de comunidades fechadas em torno de determinadas opiniões, favorecendo a reprodução de perspectivas semelhantes e reduzindo o contato com posições divergentes.
Partidos e organizações tradicionais em xeque?
Historicamente, a participação na vida política esteve associada ao envolvimento com organizações como partidos, sindicatos, coletivos e movimentos sociais. Essas instituições funcionam como espaços de articulação de interesses e construção de pautas coletivas. Com a expansão da internet e das redes sociais, porém, passaram a dividir a capacidade de mobilização com personalidades que conquistaram grande visibilidade individual no ambiente digital.
O historiador Jones Manoel (PSOL), que acumula mais de 3 milhões de seguidores nas redes sociais e foi o segundo deputado federal mais votado de Pernambuco nas eleições deste ano, com quase 250 mil votos, avalia que uma eventual perda de protagonismo das organizações tradicionais está relacionada, em grande medida, à dificuldade dessas instituições de estabelecer um diálogo efetivo com a sociedade.
“O mandato parlamentar, por exemplo, virou um feudo em si mesmo dos partidos políticos. Nenhum militante de partido político controla os mandatos parlamentares do seu partido. Fazem o que querem, como querem, não estão sujeitos a escrutínio coletivo, à formulação. Não existe no Brasil um único partido que obrigue os seus parlamentares a construir coletivamente o planejamento de mandato”, criticou.
Para Jones, a burocratização das estruturas partidárias é um dos fatores que ajudam a explicar o distanciamento dos jovens. Durante a campanha eleitoral, ele afirma ter buscado estabelecer uma conexão direta com demandas concretas dessa parcela da população, como as dificuldades de inserção no mercado de trabalho. A estratégia teria contribuído para sua votação expressiva entre os eleitores mais jovens.
Já o vereador recifense Gilson Machado Filho (Podemos), que foi o segundo candidato a deputado estadual mais votado em Pernambuco neste pleito, não considera que as organizações partidárias tenham perdido espaço. Na avaliação dele, o que existe é um ambiente mais diversificado, no qual os partidos precisam disputar a atenção e a capacidade de mobilização com outras formas de atuação política.
“[Os partidos] ainda ocupam um grande espaço, a única mudança é que, antigamente, só eles ocupavam os espaços, hoje em dia não. Hoje também ocupam os espaços as pessoas que sabem utilizar as redes sociais, muitos influenciadores”, afirmou o parlamentar, que reúne mais de 400 mil seguidores nas plataformas digitais.
A vereadora Kari Santos (PT), que soma mais de 600 mil seguidores nas redes sociais, também pondera que a ausência de vínculos formais com instituições políticas não significa, necessariamente, uma atuação individualizada. Para ela, mesmo fora das estruturas tradicionais, as personalidades que se destacam na internet desenvolvem estratégias de articulação coletiva e adaptam seus conteúdos para dialogar com diferentes públicos.
“Essas eleições mostraram uma força da juventude que estava nas redes sociais, nas ruas. Não acredito que essa juventude vai trazer um apagamento dos movimentos sociais, sindical nem tampouco dos partidos políticos. Essa juventude que foi eleita, para estar no parlamento vai precisar estar em um partido, se organizar em um partido, disputar um partido, vai trazer pautas do movimento sindical, do movimento social”, avaliou.
O crescimento do número de filiados ao Partido dos Trabalhadores (PT) após as eleições deste ano é um dos exemplos apresentados por Marcos Barbosa para destacar a permanência de tais entidades como instrumentos de organização política. “O partido político continua sendo uma referência de organização, de pertencimento, de construção de identidade coletiva. Os movimentos sociais, da mesma forma, são instituições menos rígidas, mais horizontais do que um partido político pode ser, com instâncias menos delimitadas”, apontou.
Na avaliação de João Paulo Bandeira, a recuperação do protagonismo partidário passa por uma mudança na compreensão do papel dessas instituições. Em vez de enxergar os partidos apenas como instrumentos para conquistar mandatos, o cientista político defende que sejam reconhecidos como espaços fundamentais para a construção democrática e a formação de uma militância politicamente qualificada.
Memes e vídeos curtos como linguagem política
Em um ambiente marcado pelo excesso de informações e pela disputa constante pela atenção do público, os conteúdos digitais tendem a ser cada vez mais objetivos e a recorrer a apelos emocionais. Ironia, humor e memes se tornaram recursos frequentes nessa comunicação, especialmente entre personalidades que buscam ampliar o alcance de suas publicações.
Jones Manoel considera legítimo o uso dessas ferramentas, desde que não substituam o conteúdo político da mensagem. Para o parlamentar, a adaptação às diferentes linguagens da internet precisa estar subordinada à capacidade de apresentar propostas, ideias e formulações políticas.
“Tem que usar todas as ferramentas e linguagens de comunicação disponíveis, desde que nunca se perca o objetivo de realmente comunicar política, programa político, linha política, formulação teórica. A partir disso, você pode e deve usar tudo. Agora, tem que ter cuidado para não ficar preso à forma em si”, apontou.
Gilson Machado Filho, por sua vez, adota uma postura mais radical e evita recorrer a memes e publicações em tom de humor. Segundo ele, esse tipo de conteúdo não corresponde à imagem que pretende transmitir nas redes sociais.
“Se você acompanhar minhas redes sociais, vai ver que eu não utilizo memes, piadas, acho que a gente tem que ser muito coerente no nosso posicionamento. Eu sou uma pessoa séria, que realmente tem valores e princípios, e acredito que as redes sociais de um político devem relatar apenas a verdade”, explicou.
Para João Paulo Bandeira, a popularização dos memes na comunicação política também reflete mudanças nas relações sociais e na disposição para o debate. Segundo ele, a tendência de formação de grupos que compartilham as mesmas opiniões pode reduzir o espaço para a argumentação e o confronto de ideias.
“Você diz: ‘Ah, mas a política virou meme?’ Virou, porque a sociedade também virou meme. Então, aos poucos a gente vai perdendo os nossos argumentos, vai substituindo a linguagem, trocando por memes e isso acaba chegando na política”, afirmou.
Internet como fonte de informação
Frente a uma sociedade amplamente digitalizada, as redes sociais passaram a dividir com os veículos de comunicação o papel de principais fontes de informação. Um levantamento do DataSenado, divulgado em setembro deste ano, aponta que 72% dos jovens entre 16 e 29 anos utilizam as plataformas digitais como principal fonte de conteúdo sobre diferentes assuntos, incluindo política. Entre as pessoas com mais de 60 anos, o percentual é de 21%.
A estudante do ensino médio Rianne Almeida, que votou pela primeira vez neste ano, recorreu à internet para acompanhar as campanhas e conhecer as propostas dos candidatos. Para ela, a facilidade de acesso às informações, somada à desconfiança em relação à imprensa tradicional, contribuiu para que as plataformas digitais se tornassem uma referência durante o processo eleitoral.
“Acompanhei as campanhas eleitorais e também usei a internet para pesquisas sobre quem vai ganhar as eleições, essas coisas. Usei muito para observar os projetos de cada candidato, o que pretendem fazer para o Brasil, para a população”, afirmou.
A experiência do primeiro voto também despertou, segundo Rianne, um interesse maior pela política e pela participação nas decisões que afetam a sociedade. Ela destaca a importância de buscar informações antes de escolher os representantes e de compreender o voto como instrumento de exercício da cidadania.
“Me aprofundei muito mais para procurar, realmente, adquirir mais conhecimento, saber a escolha que eu estava fazendo. Muitas pessoas, às vezes, não estão nem aí para o seu voto, mas é uma coisa essencial, que nos faz cidadãos, lutar pelos nossos direitos. Acho que isso tem que vir desde cedo e, quem tem a oportunidade de exercer o seu papel, que exerça”, declarou.