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Política
ELEIÇÕES 2026

Reeleição de Lula mantém Brasil fora do bloco de governos alinhados a Trump na América Latina

Resultado frustra a expectativa de Washington de ter o maior país da região entre seus aliados e preserva o núcleo de governos de esquerda ao lado de México e Uruguai

Nilton Vilanova

Publicado: 25/10/2026 às 21:23

Presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva/ Ricardo Stuckert

Presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva ( Ricardo Stuckert)

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo (25), com 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% de Flávio Bolsonaro (PL), com 99,76% das urnas apuradas, deixa o país de fora da lista de governos alinhados ao presidente dos EUA, Donald Trump, e interrompe uma sequência de vitórias da direita na região.

Nos últimos 18 meses, todas as sete eleições presidenciais disputadas na América Latina foram vencidas por candidatos da direita, segundo levantamento do New York Times. Os mais recentes desta lista são Abelardo De La Espriella, eleito em junho na Colômbia; e Nasry Asfura, que venceu em Honduras no ano passado. Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador e Peru também elegeram conservadores em seus pleitos mais recentes.

Com a reeleição de Lula neste domingo, a esquerda segue no comando do Brasil, do México e do Uruguai, os três principais governos da região que ficam fora do eixo de Trump. Além destes, Cuba, Venezuela, Guatemala e Nicarágua completam o bloco dos países latino-americanos que não obedecerão cegamente os comandos de Washington.

O Brasil, por ser o maior país da América Latina em população, área e economia, seria, para o analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, a "peça fundamental" da chamada "onda laranja", em referência à cor associada a Trump. "O Brasil é o maior prêmio", afirma.

Em um artigo publicado na última semana, Winter lembra ainda que o presidente americano tem proximidade e uma relação de alguns anos com a família Bolsonaro, de quem recebe constantes reverências e acenos.

Apesar da ligação com o clã Bolsonaro e da identificação ideológica, Trump nunca declarou apoio formal a nenhum candidato. Após a apuração das urnas no primeiro turno, o presidente americano disse que Flávio teve uma vitória "apertada, mas impressionante". Na terça-feira (20), ao comentar a mudança política na América do Sul, afirmou que todos os candidatos que apoiou na região venceram, sem citar o Brasil.

Pressão que não funcionou nas urnas

A relação entre os dois países nos últimos dois anos foi marcada por atritos. No ano passado, Washington impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sancionou diversas autoridades, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em reação ao processo que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. No início deste ano, o governo Trump estabeleceu uma nova rodada de tarifas e de vistos negados ou revogados.

A resposta de Lula, entretanto, foi a defesa da soberania nacional. Pesquisas e analistas, entretanto, indicam que as medidas americanas podem ter beneficiado mais o presidente do que o opositor. Em entrevista recente à BBC News, o cientista político Carlos Gustavo Poggio, professor e pesquisador na área de Relações Internacionais com foco em política externa dos Estados Unidos e América Latina da Berea College, nos EUA, já havia avisado que, em caso de declaração mais forte de Trump, "o tiro poderia sair pela culatra".

Segurança fora do pacote

A segurança pública é o principal pretexto da estratégia de Trump para ampliar a sua influência na região. O governo americano lançou em setembro o chamado "Escudo das Américas", coalizão de combate ao narcotráfico e às facções criminosas, e classificou como grupos terroristas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), contra a vontade do governo Lula. O Brasil não integra o Escudo, e a reeleição afasta, ao menos por ora, a perspectiva de adesão.

Winter avaliou, antes das eleições, que a Casa Branca "provavelmente reagiria com decepção" a uma vitória de Lula, mas depois buscaria "algum tipo de entendimento pragmático". O analista diz ainda que o resultado criaria uma "dor de cabeça no curto prazo" para Trump e consolidaria Lula como figura histórica da esquerda no "Sul Global", grupo de países em desenvolvimento.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, conhecido pelos discursos duros e polêmicos em relação aos países latino-americanos, disse na última segunda-feira (19) que "os novos governos aliados não são subordinados aos EUA, mas compartilham prioridades com Trump, como o combate ao narcotráfico e a atração de investimentos americanos".

Aliados sob pressão em casa

O resultado das eleições no Brasil chega num momento em que diversos governos latinos alinhados a Washington enfrentam desgaste. Na Argentina, o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), órgão oficial de estatísticas do país, aponta queda de 1,7% da economia em 12 meses até agosto. No Chile, o desemprego chegou a 9,6%, o maior em cinco anos, e o presidente José Antonio Kast tem aprovação em torno de 30%. No Peru, levantamentos de institutos pesquisas independentes apontam 28% de popularidade para Keiko Fujimori, empossada há três meses.

Poggio diz que a onda conservadora é "menos ideológica e mais das pessoas insatisfeitas com os atuais mandatários". Nesse cenário, a reeleição de um presidente em exercício contraria a tendência que analistas identificam na região.

Ruído diplomático

Na última semana, o Itamaraty repudiou declarações do presidente argentino, Javier Milei, que sugeriu possibilidade de fraude na eleição brasileira. O comunicado classificou as falas como "nova e inaceitável" tentativa de ingerência no processo eleitoral. Milei esteve no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e chegou a dizer, em um evento em Washington, que era preciso tirar "a patadas" o presidente Lula do Palácio do Planalto.

A Direita na América Latina (12):

Argentina: Javier Milei

Bolívia: Rodrigo Paz

Chile: José Antonio Kast

Colômbia: Abelardo de la Espriella

Costa Rica: Laura Fernández

El Salvador: Nayib Bukele

Equador: Daniel Noboa

Honduras: Nasry Asfura

Panamá: José Raúl Mulino

Paraguai: Santiago Peña

Peru: Keiko Fujimori

República Dominicana: Luis Abinader

Esquerda e centro-esquerda (7)

Brasil: Lula

Cuba: Miguel Díaz-Canel

Guatemala: Bernardo Arévalo

México: Claudia Sheinbaum

Nicarágua: Daniel Ortega

Uruguai: Yamandú Orsi

Venezuela: Delcy Rodríguez

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