Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa com IA que seria capaz de afetar eleições, diz site
Site The Intercept Brasil revela que ferramenta usaria inteligência artificial e contas falsas para disseminar desinformação, mas campanha diz a ter contratado por questões de segurança da informação
Publicado: 16/10/2026 às 20:40
Flávio e Eduardo Bolsonaro em visita ao presidente Donald Trump (Divulgação)
A campanha do candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), pagou R$ 600 mil a uma empresa de cybersegurança estadunidense que, de acordo com um ex-funcionário, dispõe de um sistema que usa inteligência artificial para “manipulação política”. Documentos da Elytron, entregues ao site The Intercept Brasil, revelariam a existência de uma ferramenta também supostamente ofertada à campanha do republicano Donald Trump, que venceu a eleição nos Estados Unidos em 2024.
De acordo com o tecnologista Vincent Edward Reed, a ferramenta seria capaz de realizar ampla coleta de dados e traçar grupos de eleitores por perfis específicos para, assim, pulverizar boatos e desinformação a partir de “técnicas de guerra psicológica”. Além de deter métodos de infiltração para desacreditar adversários, a ferramenta de IA também seria responsável pela criação de contas falsas em redes sociais - os chamados bots ou “robôs”, em português.
Reed atuou como consultor da Elytron nos anos de 2024 e 2025 e afirma que foi intermediário da apresentação do sistema a pessoas ligadas à coordenação eleitoral de Donald Trump. Não há confirmação, no entanto, de que a campanha do republicano tenha contratado o suposto serviço. Ao deixar a empresa, o ex-funcionário informou a operação ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos EUA, mas até o momento a denúncia não foi apurada.
“Quando vi a demonstração e o dashboard (painel de controle), pude entender do que [a ferramenta] era capaz e isso foi preocupante para mim, porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA”, justificou o ex-funcionário da Elytron, ao destacar que o sistema fere princípios éticos e legais de um pleito eleitoral.
A prática relatada por ele é denominada “comportamento inautêntico”, quando contas falsas e robôs são controlados a partir de uma mesma origem para inflar popularidade e burlar regras de plataformas digitais a fim de manipular o debate público. A sua existência é reconhecida pelas big techs. A Meta, por exemplo, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, tem políticas rígidas contra a criação de contas recentes em massa, que utilizam padrões idênticos e nomes aleatórios.
Diferentemente de mera estratégia de marketing político, admitida em campanhas eleitorais, essas ações são reconhecidas como operação de influência ilegal e clandestina. Neste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou a Portaria nº 463/2026, que obrigou plataformas digitais a entregar planos de conformidade até o último dia 16 de agosto. Dentre as exigências, as big techs deveriam apresentar os mecanismos utilizados para identificar e desarticular redes de comportamento inautêntico.
Contratação estrangeira
De acordo com o DivulgaCand, plataforma da Justiça Eleitoral para a divulgação das contas eleitorais, a campanha de Flávio Bolsonaro transferiu um total de R$ 600 mil para a Elytron. Três notas fiscais foram emitidas e podem ser consultadas na plataforma. Datadas do último dia 16 de setembro, duas delas são de R$ 500 mil - sendo uma delas foi cancelada. Já a última, de R$ 100 mil, foi gerada às vésperas do primeiro turno das eleições gerais, no dia 2 de outubro.
O serviço foi registrado como “consultoria em tecnologia da informação” e as notas descrevem atividades como “apoio forense”, “teste de segurança” e “monitoramento de infraestrutura”. Apesar de a soma confirmar o pagamento de R$ 600 mil, a campanha de Flávio declarou uma despesa de R$ 1 milhão com a Elytron em prestação de contas parcial entregue no fim de setembro à Justiça Eleitoral.
O Partido Liberal, legenda do candidato, também informou o pagamento de R$ 131,9 mil à mesma empresa no dia 20 de julho e detalhou a prestação como “serviços técnico-profissionais”. A reportagem do Intercept destacou também a relação de dirigentes da Elytron, no Brasil, com o empresário e influenciador Pablo Marçal, que passou a integrar a campanha de Flávio após o TSE considerar inelegível sua candidatura à Presidência.
Ao Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro classificou a acusação como grave e de viés político-eleitoreiro. De acordo com a assessoria, a contratação da Elytron seguiu procedimentos regulares e a campanha vê na denúncia uma “tentativa de associar a contratação de um serviço exclusivo de segurança da informação para proteger os sistemas de comunicações contra ataques cibernéticos com prática de manipulação política”. A campanha do presidenciável reiterou que “não contrata nenhum serviço que viole a legislação eleitoral”.
Ao comentar a denúncia do ex-funcionário Vincent Edward Reed, a Elytron disse que “repudia veementemente qualquer tentativa de associar seu nome à disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à realização de operações clandestinas de manipulação da opinião pública” e informou que não prestou serviços à campanha de Trump, tampouco autorizou a “realização de apresentações comerciais em seu nome para oferecer operações de influência política”.
Sobre a prestação de serviços à campanha política de Flávio e ao PL, a Elytron assinalou que “possuem finalidade técnica e preventiva, voltada à proteção cibernética, à segurança das comunicações, à preservação da confidencialidade de informações e à proteção da infraestrutura tecnológica dos contratantes”.