Brizola e Lacerda retornam à cena política em novas biografias
Lançados pela Companhia das Letras, obras resgatam trajetórias de duas importantes figuras da história política nacional
Marcus Lopes - Especial para o Diario
Publicado: 26/09/2026 às 06:00
Previsão é que as duas biografias tenham continuidade em um segundo volume, a serem lançadas pelos respectivos biógrafos nos próximos dois anos (Foto: Divulgação)
Considerado um dos políticos mais emblemáticos da História do Brasil, o ex-governador Leonel Brizola (1922-2004) detestava outra figura mítica da política nacional, o jornalista Carlos Lacerda (1914-1977). “Uma boa bisca”, dizia Brizola, referindo-se ao líder udenista, que fez da oratória um dos pilares da sua personalidade pública. Lacerda, por sua vez, retribuía a antipatia, acusando o líder trabalhista, diante da insistência em atacá-lo dia sim e outro também, de ser dono de um “caráter obsessivo, espécie de fixação que a psicanálise melhor explicaria”.
Não deixa de ser inusitado o fato de que, muitas décadas depois, ambos estejam dividindo as prateleiras de lançamentos nas livrarias. Neste segundo semestre, em meio a mais um período eleitoral marcado pela polarização política entre direita e esquerda, Brizola e Lacerda, que também atuaram em campos opostos e sabiam como ninguém fomentar a polarização política por meio do discurso e mobilização de seus seguidores, ganham novas e robustas biografias que valem a pena a leitura.
Em “Brizola - Lobisomem contra o império” (Companhia das Letras, 456 páginas, R$ 100), a jornalista mineira Karla Monteiro remonta a trajetória do líder político gaúcho, discípulo de Getúlio Vargas e cunhado do ex-presidente João Goulart, desde o seu nascimento até o retorno do exílio, em 1979.
Em uma linguagem jornalística e bastante acessível, Karla, que já escreveu sobre outras personalidades de peso na História do Brasil, como o jornalista Samuel Wainer, conta como o filho de uma família pobre do interior gaúcho se tornou um dos principais líderes da esquerda brasileira. Discípulo fiel da doutrina trabalhista de Vargas, Brizola, durante sua passagem pelo governo do Rio Grande do Sul, comandou a histórica Campanha da Legalidade, principal resistência à deposição do ex-presidente João Goulart pelos militares, em 1964.
Se o gaúcho Brizola manteve a coerência ideológica até o final da vida, o mesmo não se pode dizer do carioca Lacerda. Após atravessar a juventude como ardoroso militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o jornalista deu uma forte guinada à direita e tornou-se ferrenho defensor do liberalismo econômico. É que mostra a biografia “Lacerda - Coração de tempestade”, do jornalista Mário Magalhães e que também está sendo lançado pela Companhia das Letras (536 páginas, R$ 110).
A bem da verdade, a grande vocação de Lacerda era ser opositor de quem estivesse no poder, em especial se esse poder atendia pelo nome de Getúlio Vargas, de quem o dono do jornal “Tribuna da Imprensa” era ferrenho adversário. Daí o principal motivo da briga com Brizola. Ambos - Lacerda e Brizola - atuavam em campos adversários e, tanto um como o outro, foram brilhantes oradores na defesa de suas posturas e ideais. Eram representantes de linhagens políticas distintas, mas que tinham em comum a paixão pela política e pelo discurso como forma de conquistar apoio popular e engrossar suas fileiras de admiradores.
Na prática, Brizola obteve mais sucesso em seus objetivos, ao ser governador em dois estados (Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro), deputado estadual, deputado federal e duas vezes candidato à presidência da República, em 1989 e 1994. Lacerda foi deputado federal e governador da Guanabara. Em comum, nenhum dos dois - Brizola e Lacerda - conseguiu realizar o sonho de ocupar a cadeira da presidência da República.
Mas, outra coincidência: por se tratar de duas personalidades muito intensas, a previsão é que as duas biografias tenham continuidade em um segundo volume, a serem lançadas pelos respectivos biógrafos nos próximos dois anos.