Morre Sônia Carneiro, jornalista pioneira na cobertura política, aos 74 anos
Pioneira entre mulheres cobrindo o Congresso, profissional cobriu momentos históricos da política nacional como a redemocratização e a Constituinte
Letícia Passos - Correio Braziliense
Publicado: 20/09/2026 às 19:31
Em 2013, Soninha foi homenageada pela Câmara dos Deputados com a Medalha Assembleia Nacional Constituinte (Foto: Instagram/ Reprodução)
A jornalista Sônia Carneiro, que acompanhou de perto alguns dos principais capítulos da redemocratização brasileira e fez da cobertura política em Brasília uma parte central de sua trajetória profissional, morreu neste domingo (20/9) aos 74 anos.
Repórter da Rádio Jornal do Brasil e do Jornal do Brasil, ela esteve no Congresso durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte e acompanhou o processo que resultou na Constituição de 1988. Por último, Sônia integrou a assessoria do senador Jaques Wagner. Segundo o filho, Terence Zveiter, Sônia morreu dormindo, em casa, após um mal súbito.
Natural do Rio de Janeiro, Soninha, como era conhecida, começou na Rádio Jornal do Brasil em 1971 e construiu a carreira em Brasília quando ainda eram poucas as mulheres dedicadas diariamente à cobertura dos centros de poder. Na década seguinte, já acumulava experiência na Câmara dos Deputados e no Senado quando os constituintes começaram a desenhar a nova Carta brasileira.
A intensidade daquele período atravessava também a rotina pessoal da jornalista. Em depoimento à série Testemunha da História, da TV Senado, Sônia contou que os trabalhos consumiam dias e noites dos profissionais que acompanhavam as discussões no Congresso.
“Sacrificou muito minha vida pessoal, minha vida familiar. Eu passo praticamente o dia inteiro aqui no Congresso. E, ultimamente, até às noites, nós temos ficado aqui debatendo as emendas populares.”
A proximidade física entre os jornalistas e o plenário ajudava a imprimir ritmo à cobertura. Os repórteres responsáveis pela Constituinte trabalhavam no Comitê de Imprensa da Câmara e, como lembrava Sônia, estavam a poucos passos das discussões que definiriam o texto constitucional.
Aquele também era um momento em que a imprensa experimentava a liberdade recuperada depois dos anos de censura e do regime militar.
“Esse fim da censura e o início do período da redemocratização era um regime mais aberto, com as liberdades de imprensa seguradas. Então, a gente se sentia mais livre, mais açodada para fazer perguntas mais inconvenientes, mais abertas.”
Entre os personagens que Sônia acompanhou de perto estava Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte. As movimentações do deputado pelos corredores da Câmara obrigavam os jornalistas a acompanhá-lo quase passo a passo na busca por informações sobre as negociações políticas e o avanço dos trabalhos.
Perguntas difíceis e o papel da imprensa
Nos corredores do poder, Sônia também construiu fama pelas perguntas diretas e pela capacidade de extrair dos políticos respostas que outros jornalistas nem sempre conseguiam obter. O jornalista Jorge Bastos Moreno chegou a descrevê-la como “intrépida” e lembrou que, com destemor e irreverência, a repórter arrancava declarações que poderiam repercutir nas próprias decisões políticas.
Foi dela, por exemplo, a pergunta que levou o então presidente João Figueiredo a responder publicamente que não haveria prévias no PDS em meio às articulações para a sucessão presidencial. A proximidade conquistada com as fontes também lhe rendeu uma alcunha curiosa: Tancredo Neves costumava chamá-la de “sobrinha”, embora não houvesse parentesco entre os dois.
Para Sônia, porém, a cobertura não se restringiu a registrar o que ocorria dentro do Congresso. Ela atribuía à imprensa um papel importante na aproximação entre a sociedade e um processo que, em seus primeiros momentos, ainda parecia distante de grande parte da população.
“A Constituinte não começou azeitada. Ela começou fria. A população ainda não tinha visão do que estava acontecendo. Quando a imprensa começou a fazer as matérias, começou a mostrar os trabalhos, a população, quando viu, aí começou a participar.”
Com a cobertura de rádios, jornais e emissoras de televisão, recordava, as discussões passaram a alcançar as ruas. O Congresso tornou-se também destino de diferentes setores da sociedade interessados em participar da formulação da nova Constituição.
“Quando a imprensa começou a fazer as matérias, a rádio, a TV, as pessoas começaram a se alertar do novo momento político que o país estava vivendo e aí o país começou a se animar, a se mobilizar. O Salão Verde vivia lotado. Muita gente querendo colocar na Constituição os seus interesses.”
Testemunha
A história do país acabou se misturando também à história da própria família de Sônia. No dia da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, o filho mais novo, Daniel, quis acompanhar de perto o acontecimento que ocupava havia meses a rotina da mãe. Diante da necessidade de levar os equipamentos para a transmissão da Rádio Jornal do Brasil, ela decidiu levá-lo ao Congresso.
A entrada do menino inicialmente foi impedida pela segurança. Sônia recorreu então ao deputado Inocêncio Oliveira para conseguir levá-lo até a bancada da rádio. Daniel assistiu ao lado da mãe à sessão em que a Constituição foi promulgada.
“Aí ele entrou e sentou comigo na bancada da Rádio Jornal do Brasil e assistiu todo o trabalho de promulgação da Constituinte e tal. Meu filho até hoje tem essa imagem bonita para relembrar.”
A cena ajuda a explicar uma característica que, para os filhos, ultrapassava a imagem da jornalista que passava os dias nos corredores do Congresso. Divorciada na década de 1980, Sônia precisou conciliar a rotina intensa da profissão com a criação dos filhos e, segundo Terence, nunca tratou uma coisa como impedimento para a outra.
“Se precisasse botar filho no colo, se ela estava de plantão e precisava ir para o Planalto, para a Câmara, ela levava.”
Para Terence, a força que a mãe demonstrava no trabalho também era uma marca de sua vida pessoal. “A maior das lições que ela deixou é a perseverança, a luta dela. Nunca deixou a peteca cair.”
A Constituinte foi apenas uma das grandes coberturas de uma carreira atravessada pela política nacional. Sônia acompanhou também o movimento das Diretas Já, a retomada das eleições presidenciais e o impeachment de Fernando Collor. Na Rádio Jornal do Brasil, atuou como repórter e também ocupou funções de chefia antes de seguir a carreira no jornal impresso, onde se tornou repórter especial do Jornal do Brasil.
Ao longo da trajetória, recebeu reconhecimentos pela atuação profissional. Em 2013, esteve entre os jornalistas homenageados pela Câmara dos Deputados com a Medalha Assembleia Nacional Constituinte, criada nos 25 anos da Constituição para reconhecer personagens que participaram ou acompanharam aquele período. Anos depois, a própria TV Senado voltou à história da jornalista para registrar suas lembranças na série Testemunha da História.
Depois de deixar as redações, Sônia também trabalhou em comunicação institucional. Passou pelo Ministério do Trabalho, pela representação do governo da Bahia em Brasília e pelo Ministério da Defesa, além de atuar na assessoria do senador Jaques Wagner.
Para o filho, no entanto, o legado de Sônia não se resume às décadas dedicadas ao jornalismo político. A profissional reconhecida pela coragem diante dos poderosos era, dentro de casa, a mulher que encontrava maneiras de seguir em frente sem abrir mão dos filhos e dos próprios valores.
“Que ela é uma grande jornalista, isso todo mundo sabe. Mas ela era forte, guerreira, nunca perdeu um dia, nunca abriu mão dos seus valores. Esse é o maior legado dela.”
Ao recordar a Constituinte décadas depois, Sônia não escolheu uma votação específica ou um personagem político como principal legado daquele período. Para ela, o que permanecia era a capacidade de mobilização de uma sociedade que, depois de anos de regime militar, reaprendia a ocupar o espaço público e participar das decisões do país.
“Eu acho que a luz que a Constituinte jogou para o Brasil é a necessidade de unificação. Foi fundamental a união e a mobilização da sociedade para se obter um produto de avanço social e de progresso para o país.”
Terence resumiu a mistura de admiração, saudade e humor que parece acompanhar a lembrança da mãe: “Acho que o céu estava muito chato e Deus chamou ela para ficar menos entediante: ‘Vem fazer as coberturas aqui, Soninha!’”
A família ainda não possui informações a respeito do velório.
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