'Lutei como bom cristão', diz Messias após ter nome rejeitado pelo Senado para vaga no STF
A rejeição de Messias rompeu um intervalo de 132 anos sem que a Casa barrasse uma indicação ao Supremo.
Publicado: 29/04/2026 às 20:34
Jorge Messias concede entrevista após Senado Federal rejeitar a sua indicação para a vaga de ministro do STF (Ton Molina/Agência Senado)
Em sua primeira manifestação após ter o nome rejeitado para o Supremo Tribunal Federal (STF), o advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou nesta quarta-feira (29) que participou de forma "íntegra" e "franca" de todo o processo de indicação. Ele agradeceu o voto recebido por senadores e disse aceitar o resultado.
"Me submeti a uma sabatina de coração aberto, de alma leve, espírito franco. Falei a verdade, falei o que penso, falei o que sinto, demonstrei o que sinto. Agora, a vida é assim, tem dias de vitórias e dias de derrotas. Temos que aceitar, o Senado é soberano, o plenário do Senado é soberano. O plenário falou. Agradeço os votos que recebi, faz parte do processo democrático saber ganhar, saber perder", disse o ministro da AGU em declaração a jornalistas, após o resultado.
O nome indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 42 votos contrários e 34 favoráveis. Para que a indicação de Messias fosse aprovada eram necessários pelo menos 41 votos dos 81 senadores. Com a rejeição, a indicação foi arquivada.
"Não é simples alguém com a minha trajetória passar por uma reprovação. Mas eu quero dizer algo muito importante, eu aprendi que a minha está nas mãos de Deus, e Deus sabe de todas as coisas. Deus tem um plano para a nossa vida, para a vida de cada um de nós. Lutei o bom combate, como todo cristão e preciso aceitar o plano de Deus na minha vida", prosseguiu Jorge Messias, que é evangélico e tinha apoio de segmentos religiosos.
A indicação de Jorge Messias foi anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva há cerca de cinco meses, mas a mensagem oficial com a indicação (MSF 7/2026) só chegou ao Senado no início de abril.
Ele foi indicado pelo governo federal para assumir a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso, que anunciou aposentadoria antecipada da Corte e deixou o tribunal em outubro de 2025.
Ainda na declaração a jornalistas, Messias afirmou que passou por cinco meses de um processo de desconstrução de sua imagem, afirmou ter "vida limpa" e agradeceu ao presidente Lula pela indicação.
"O presidente Lula me deu uma grande honra de ter participado desse processo e agradeço a ele pela oportunidade. Eu não encaro isso aqui como um fim, isso aqui é uma etapa do processo da minha vida", acrescentou.
Messias disse que é servidor público de carreira e que não precisava de um cargo público para prosseguir sua trajetória profissional.
A rejeição de Messias rompeu um intervalo de 132 anos sem que a Casa barrasse uma indicação ao Supremo. A decisão impõe uma derrota política ao governo do presidente Lula e resgata um capítulo pouco comum da história institucional brasileira.
Messias foi rejeitado após votação no plenário do Senado, tornando-se o primeiro indicado recusado desde 1894. O intervalo atravessa toda a República recente e reforça o caráter excepcional do episódio. Desde então, todas as indicações presidenciais ao STF haviam sido aprovadas pelos senadores, consolidando uma tradição de aval quase automático às escolhas do Executivo.
Ao longo de mais de um século, apenas cinco nomes foram rejeitados pelo Senado; todos concentrados em um único momento histórico, durante o governo de Floriano Peixoto. Naquele período, marcado por instabilidade política nos primeiros anos da República, o embate entre os Poderes resultou em sucessivas recusas de indicados à Corte.
O caso mais emblemático daquela época foi o de Cândido Barata Ribeiro. Indicado ao Supremo, ele chegou a assumir o cargo e atuar por cerca de dez meses antes de ter seu nome rejeitado pelos senadores, algo permitido pelas regras vigentes à época. Após a decisão, foi obrigado a deixar o posto, em um episódio que se tornou referência histórica sobre os limites da relação entre Executivo e Legislativo na formação do STF.
A rejeição de Jorge Messias recoloca esse tema no centro do debate político. O atual chefe da Advocacia-Geral da União foi Indicado por Lula em novembro de 2025 para a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso.