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Política
INVESTIGAÇÃO

Operação da PF traz debate sobre influência de famílias na política brasileira

Operação atinge Fernando Bezerra Coelho e os filhos Fernando Filho e Miguel e reacende discussão sobre emendas, conflitos de interesse e influência familiar na gestão pública

Mariana de Sousa

Publicado: 25/02/2026 às 18:35

O ex-senador Fernando Bezerra Coelho e os filhos, o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, e o deputado federal Fernando Filho/Reprodução/Redes Sociais

O ex-senador Fernando Bezerra Coelho e os filhos, o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, e o deputado federal Fernando Filho (Reprodução/Redes Sociais)

A operação da Polícia Federal que atingiu o ex-senador Fernando Bezerra Coelho (MDB) e os filhos, o deputado Fernando Coelho Filho (UB) e o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (UB), traz a discussão de como o peso das relações familiares podem abrir margem para favorecimentos e impactar a transparência e a qualidade dos serviços à população. No centro do caso está o repasse de R$ 22 milhões em emendas parlamentares para obras na Orla 3 de Petrolina, no Sertão do estado, município administrado à época por Miguel e tendo o pai como responsável pela indicação da verba.

Para o cientista político Bhreno Vieira, o problema não está somente no fato de haver famílias na política, mas na formação de redes que concentram poder e reduzem mecanismos de controle. Já o cientista político Hely Ferreira diz que a presença histórica de dinastias políticas no Brasil mistura interesses públicos e privados e dificulta o desenvolvimento institucional do país.

A investigação, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, apura suspeitas de desvio de recursos públicos por meio do direcionamento de licitações.

 

Famílias na política

Entre os pontos que chamam atenção está o trajeto da emenda: indicada por Fernando Bezerra Coelho, executada na gestão de Miguel Coelho, depois complementada por Fernando Filho e relacionada a uma obra que atravessa terreno de empresa cujo sócio é irmão do ex-senador.

O cientista político Bhreno Vieira explica que “o ponto não é ‘família na política’ em abstrato, mas rede (de poder)”. Quando pessoas ligadas por parentesco ocupam cargos estratégicos, como mandato, prefeitura e até posições no entorno empresarial, afirma, “cresce a chance de que decisões públicas sejam tomadas com menos contraditório interno e menos transparência”.

Para Bhreno, esse cenário amplia o risco de conflito de interesses, situação em que “interesses privados podem comprometer o interesse coletivo”.

O cientista político ressalta ainda que ligações familiares não são, por si só, ilegais. Elas podem funcionar como uma ponte para viabilizar recursos necessários aos municípios. O problema surge quando faltam critérios técnicos e transparência.

Para Vieira, “o erro muitas vezes, está na falta de transparência e na não utilização de critérios técnicos e jurídicos”. E completa que, quando isso ocorre, “o político deixa o ideal ou bem coletivo e foca no benefício privado ou de seu grupo”.

Sobre casos que envolvem desapropriações e valorização imobiliária no entorno de obras públicas, Bhreno afirma que, mesmo quando os atos são legais, a percepção pública pode ser negativa. Por isso, defende que situações assim exijam “transparência máxima e controles reforçados para afastar suspeitas”.

Questão estrutural da formação do Estado brasileiro

O cientista político Hely Ferreira avalia que o caso se insere em um problema estrutural da formação do Estado brasileiro.

Segundo ele, “um dos grandes problemas é a formação do Estado brasileiro”. Hely ainda aponta que, historicamente, o país foi estruturado a partir de famílias, o que levou à mistura entre interesses públicos e privados, e que o desafio histórico do país é romper com a ideia de que “o público se confunde com o privado”.

Para Hely, o Brasil “não conseguiu ainda se libertar das questões oligárquicas”, e há famílias que permanecem no poder desde a formação da nação. Esse fenômeno, segundo ele, é ainda mais visível fora dos grandes centros.

“Quanto mais distante das capitais, das regiões metropolitanas, mas você percebe famílias que praticamente são donas dos municípios e isso reflete diretamente no desenvolvimento local”, finaliza.

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