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Crise na Venezuela pode influenciar debate eleitoral no Brasil em 2026, diz especialista

Sobre a imagem do governo de Nicolás Maduro como referência política nas eleições brasileiras, o professor Gustavo Rocha, internacionalista e doutor em Ciência Política acredita afirma que poderão haver diferenças de narrativa dependendo do lado político.

Mariana de Sousa

Publicado: 03/01/2026 às 18:35

Donald Trump, Lula e Nicolás Maduro/ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP | Ricardo Stucker/PR | FEDERICO PARRA/AFP

Donald Trump, Lula e Nicolás Maduro (ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP | Ricardo Stucker/PR | FEDERICO PARRA/AFP)

Diante da atual conjuntura entre as operações dos Estados Unidos na Venezuela, que culminaram na captura do presidente Nicolás Maduro, a crise política tende a repercutir nas eleições brasileiras em outubro deste ano. De acordo com o professor Gustavo Rocha, internacionalista e doutor em Ciência Política pela UFPE, a situação na Venezuela pode ter reflexos no discurso político no Brasil.

“Uma intervenção dos EUA na Venezuela tende a ter impacto negativo para toda a região. A violação da soberania é algo sempre negativo. Não se trata de defender o regime de Maduro, mas a soberania de um país vizinho. Portanto, neste sentido, se assemelhando ao caso do tarifaço, se o Brasil assumir a liderança do processo de transição da Venezuela, contendo os EUA, pode ter impacto positivo para o governo. A direita, obviamente, vai tentar capitalizar com a intervenção dos EUA. Mas, como disse antes, tudo vai depender dos acontecimentos a seguir.”

Sobre a imagem do governo de Nicolás Maduro como referência política nas eleições brasileiras, Rocha acredita que haverá diferenças de narrativa dependendo do lado político.

“Do lado da direita, a tendência será de estigmatizar o governo Maduro como uma ditadura de esquerda, e aliada do governo. Que os EUA estariam libertando a Venezuela da opressão. Do outro lado, o governo tentará condenar a intervenção dos EUA, mostrando a liderança do Brasil na defesa da soberania venezuelana. Do ponto de vista do governo brasileiro, não se trata de defender um governante, mas de defender a soberania, a não intervenção e a autodeterminação do povo venezuelano.”

Para o especialista, como as ações vão impactar o cenário brasileiro “depende do desenrolar dos fatos”. Se o governo Lula se posicionar firmemente, e liderar o processo de transição para um novo momento, o governo brasileiro pode fazer do limão uma limonada, a depender dos vários fatores. “O elemento mais grave é o precedente político e o impacto econômico que a intervenção causa.”

O professor ressalta que a força da narrativa dependerá do desenrolar dos fatos: “A narrativa que terá mais força depende dos acontecimentos a seguir. Mas acredito que, em face do tarifaço, a defesa da América do Sul terá impacto positivo na avaliação do governo, especialmente se conseguir auxiliar na condução para um novo governo, limitando a intervenção dos EUA no processo.”

Rocha ainda aponta que a polarização política brasileira influencia diretamente a interpretação da situação. “O bolsonarismo, mais radical, tende a enxergar a intervenção dos EUA como libertação da Venezuela. O governo Lula tende a enxergar como uma nova intervenção indevida dos EUA na América Latina/do Sul. No cenário de polarização dado no Brasil, não tem um candidato que possa ter uma terceira postura disputando competitivamente as eleições de 2026 até aqui.”

Do ponto de vista da política regional, ele reforça a importância da reação sul-americana. “É importante conter a intervenção dos EUA na região. O recado de uma não reação a essa intervenção é um péssimo precedente para a região. Passa o recado que os EUA podem intervir sempre que acharem necessário. Por outro lado, se os principais países da região, especialmente Brasil, México e Colômbia, reagirem, e conseguirem frear o ímpeto intervencionista dos EUA, podem impor uma derrota ao intervencionismo do governo Trump. Ao mesmo tempo, permitir uma transição democrática para a Venezuela. Isso admitindo o fato de que a captura de Maduro é irreversível e haverá uma transição.”

A postura do governo brasileiro e o alinhamento ou distanciamento dos candidatos em relação aos Estados Unidos também podem ganhar peso eleitoral, segundo Rocha.

“Lula conseguiu uma enorme vitória na questão do tarifaço, ao manter uma postura soberana e negociar com Trump de igual para igual. Se conseguir manter essa postura, em relação à questão da Venezuela, pode ser uma nova vitória. Mas é uma situação muito mais difícil. A nota oficial do governo Lula sinaliza exatamente para essa posição de negociar, de forma altiva, uma saída com menos intervenção dos EUA. Mas, dessa vez, a margem de manobra é menor, pois o Brasil não detém soberania em relação à Venezuela. Nesse caso, a articulação será decisiva.”

Sobre comparações possíveis entre as relações Brasil–EUA e EUA–Venezuela, Rocha acredita que o Bolsonarismo tentará emplacar essa visão. Mas será difícil construir uma narrativa de equiparação, uma vez que Lula estabeleceu uma relação 'com química'.

"Tanto Lula quanto Cláudia Sheinbaum [presidente do México] são respeitados por Trump e podem ser interlocutores e intermediarem um debate regional que defenda a saída venezuelana. Ao meu ver, a intervenção dos EUA na Venezuela é irreversível. Porém é preciso e possível diminuir os danos. Pelo tom duro, mas diplomático, das notas brasileira e mexicana, a sinalização é exatamente para uma articulação coletiva da região para frear a intervenção dos EUA. A Colômbia, por sua vez, soltou uma nota mais dura, mas tem maior preocupação por ser mais vulnerável e o governo ter menos interlocução com os EUA.”

Rocha reforça que, independentemente da avaliação sobre a situação democrática na Venezuela, a intervenção externa é problemática. “Tudo que estou falando depende dos próximos desdobramentos. Independente da avaliação sobre a situação da democracia na Venezuela, uma intervenção de uma potência estrangeira em um país vizinho é sempre algo negativo. Nesse sentido, a intervenção dos EUA legitima o discurso anti-imperialista.”

O especialista ainda destaca que a capacidade de articulação do regime e das forças bolivarianas ainda é incerta. “Veremos nos próximos dias a capacidade de mobilização e articulação do regime e das forças bolivarianas. Eu acredito que haverá uma desarticulação. Porém, espera-se que haja alguma resiliência das forças que suportam o regime em defender o país. A ver as cenas dos próximos capítulos.”

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou em 29 de novembro de 2025 que o espaço aéreo sobre e próximo à Venezuela deveria ser considerado fechado, a mais recente escalada em um impasse com o líder de esquerda Nicolás Maduro. (Foto de Juan Barreto e Andrew Caballero-Reynolds / AFP)
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