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MEGA ROUBO

O que se sabe sobre o possível maior roubo da história das criptomoedas

Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo, reserva recursos próprios para cobrir perdas e tenta reverter bloqueio de ativos roubados

Correio Braziliense

Publicado: 30/10/2026 às 15:43

Ataque à Binance: o que se sabe sobre o roubo de US$ 6,3 bilhões/JUSTIN SULLIVAN / AFP

Ataque à Binance: o que se sabe sobre o roubo de US$ 6,3 bilhões (JUSTIN SULLIVAN / AFP)

A Binance anunciou nesta sexta-feira (30) que já reservou mais de US$ 6,34 bilhões em recursos próprios para compensar os prejuízos provocados por um ataque hacker que atingiu a plataforma de criptomoedas. A invasão, divulgada pela corretora na quinta-feira (29), comprometeu aproximadamente US$ 6,3 bilhões (R$ 33 bilhões) em ativos digitais e pode representar o maior roubo da história do setor. Embora parte dos valores tenha sido bloqueada, uma parcela significativa permanece sob controle dos invasores.

A empresa, considerada a maior corretora de criptomoedas do mundo, informou que iniciou os procedimentos para recompor os ativos dos usuários afetados. Dos recursos reservados para essa finalidade, US$ 5 bilhões já estão disponíveis nas mesmas criptomoedas atingidas pelo ataque. O valor restante está sendo adquirido por meio de negociações no mercado e de operações realizadas diretamente entre instituições, conhecidas como transações de balcão (OTC).

Segundo a Binance, a conclusão dessa etapa poderá exigir mais tempo, especialmente porque alguns dos ativos envolvidos possuem baixa liquidez. A companhia também esclareceu que os valores destinados ao ressarcimento não incluem os recursos bloqueados após a invasão, que continuam passando por procedimentos de verificação e recuperação.

Até o momento, aproximadamente US$ 3 bilhões foram congelados com a colaboração de outras empresas do setor. Desse montante, cerca de US$ 2,4 bilhões foram bloqueados pelas plataformas Tether e Circle, que participaram das medidas para impedir novas movimentações dos ativos.

A Binance também conta com a colaboração de autoridades policiais, empresas especializadas em rastreamento de criptomoedas e instituições responsáveis pela emissão dos ativos digitais. A World Liberty Financial, companhia ligada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e à sua família, informou que participou dos esforços para bloquear recursos associados ao ataque.

Em comunicado divulgado no Brasil, a corretora assegurou que os prejuízos serão absorvidos pela própria companhia, com apoio do fundo de proteção destinado a situações emergenciais.

"A Binance cobrirá todas as perdas utilizando recursos do fundo SAFU e recursos próprios da empresa. Os fundos dos usuários estão seguros."

Investigação aponta invasão de sistemas internos

A análise das causas do incidente ainda não foi concluída. Inicialmente, a Binance identificou indícios de que o ataque teria começado pelo comprometimento do notebook de um engenheiro de DevOps, profissional responsável pela manutenção e operação da infraestrutura tecnológica da empresa.

Por meio do equipamento, os criminosos teriam conseguido acessar um ambiente de serviço interno e executar transações de retirada de ativos sem autorização. No entanto, investigações posteriores identificaram outros pontos de comprometimento, indicando que a invasão foi mais complexa do que a hipótese apresentada inicialmente.

O co-CEO da Binance, Richard Teng, explicou que os elementos reunidos até agora não permitem atribuir o ocorrido à atuação de um único funcionário. O executivo também afastou, preliminarmente, a possibilidade de que os invasores tenham obtido as chaves privadas utilizadas para proteger as carteiras digitais.

"Para deixar claro: o invasor não utilizou simplesmente as permissões de um único engenheiro, e isso não foi uma ação isolada, realizada com um único clique. O ataque envolveu um processo mais complexo. Nossa investigação não atribuiu responsabilidade a nenhum indivíduo. Até o momento, não encontramos evidências de vazamento de chaves privadas de carteiras", explicou.

A corretora se comprometeu a divulgar um relatório técnico detalhado quando as verificações forem concluídas. Enquanto isso, também revogou autorizações associadas aos endereços comprometidos e adotou restrições temporárias às movimentações financeiras.

Na primeira comunicação sobre o incidente, a empresa anunciou a suspensão preventiva de depósitos e saques para realizar verificações de segurança. Posteriormente, esclareceu que os depósitos permaneciam funcionando normalmente, enquanto as retiradas de recursos continuavam interrompidas.

Na manhã desta sexta-feira, a Binance informou que trabalhava com a previsão de restabelecer o serviço de saques em 48 horas. A co-CEO Yi He justificou a interrupção como uma medida necessária para impedir novos prejuízos até a confirmação de que o ambiente estivesse protegido.

A companhia também pretende divulgar uma atualização de sua Prova de Reservas, mecanismo utilizado para demonstrar publicamente a disponibilidade dos ativos mantidos sob sua custódia, após a conclusão das medidas de segurança e recomposição dos recursos.

Empresas investigam possível envolvimento da Coreia do Norte

A dimensão e as características da invasão levaram empresas de cibersegurança a investigar uma possível ligação com grupos de hackers associados ao governo norte-coreano. Segundo a emissora britânica BBC, especialistas identificaram semelhanças entre o ataque à Binance e operações anteriores atribuídas ao grupo TraderTraitor, relacionado às atividades do Lazarus Group.

A empresa de análise de blockchain Chainalysis afirmou ter um "alto nível de confiança" na hipótese de envolvimento de agentes ligados à Coreia do Norte. Já a TRM Labs, especializada em investigações com ferramentas de inteligência artificial, identificou padrões semelhantes aos empregados no ataque à Bybit, em 2025.

Naquele episódio, invasores conseguiram retirar aproximadamente US$ 1,5 bilhão da corretora, estabelecendo o maior prejuízo registrado até então em um ataque ao mercado de criptomoedas. O incidente da Binance supera esse valor em mais de quatro vezes.

Para Jayant Dave, diretor de segurança da informação da Check Point, as cifras envolvidas colocam a nova invasão em uma dimensão inédita, classificando-a como o "maior roubo de criptomoedas da história".

O especialista também identificou semelhanças com o ataque sofrido pela plataforma Bitget em setembro, quando foram desviados aproximadamente US$ 388 milhões (R$ 2 bilhões). Segundo ele, os episódios apontam para uma mudança nas técnicas empregadas pelos criminosos, que passaram a explorar não apenas os mecanismos de proteção das carteiras, mas também os sistemas e profissionais autorizados a movimentar os recursos.

"Isso implica que os invasores não precisam mais das chaves do cofre. Eles visam os sistemas e as pessoas com autoridade para usá-los."

Nos últimos anos, grupos norte-coreanos têm sido apontados como responsáveis por operações contra corretoras e outras empresas do setor financeiro digital. Agências de segurança de países ocidentais sustentam que parte dos recursos obtidos nesses ataques é utilizada para financiar os programas nucleares e de desenvolvimento de mísseis de Pyongyang, alvo de sanções internacionais.

O governo norte-coreano nega envolvimento em operações criminosas dessa natureza.

Apesar das suspeitas levantadas pelas empresas de segurança, a autoria do ataque à Binance ainda não foi oficialmente estabelecida. Questionada pela BBC sobre a possível participação de hackers da Coreia do Norte, a corretora não confirmou a hipótese e afirmou que continua trabalhando para identificar os responsáveis.

"Estamos trabalhando em estreita colaboração com nossos parceiros das forças de segurança para confirmar a identidade desses criminosos e levá-los à Justiça", informou a empresa.

Eric Jardine, chefe de pesquisa da Chainalysis, alertou para a necessidade de reforçar os mecanismos de proteção das corretoras. O elevado volume de recursos concentrados nessas plataformas, segundo ele, torna o setor especialmente atraente para organizações criminosas.

Ataque repercute no mercado de criptomoedas

As primeiras informações sobre uma possível invasão à Binance começaram a circular antes mesmo da confirmação oficial da empresa. A repercussão provocou instabilidade no mercado de ativos digitais, com o Bitcoin registrando desvalorização superior a 4% após os alertas.

Outras criptomoedas de grande circulação, como Ethereum e Solana, também sofreram quedas expressivas. Ainda não é possível determinar se o incidente terá consequências prolongadas sobre a confiança dos investidores ou sobre o funcionamento do mercado.

A corretora Coinbase informou que seus sistemas não foram afetados e que acompanha os desdobramentos do ataque. A Binance.US, plataforma independente voltada especificamente ao público norte-americano, também declarou não ter sofrido consequências da invasão, que atingiu a Binance.com.

Fundada na China em 2017, a Binance reúne mais de 300 milhões de usuários registrados ao redor do mundo. A companhia oferece serviços de negociação de criptomoedas, operações com contratos futuros, carteiras digitais e outros produtos financeiros vinculados a ativos virtuais. Em 2024, informou que mantinha mais de US$ 160 bilhões sob custódia.

A empresa também possui um histórico de questionamentos por órgãos reguladores de diferentes países. Em 2023, seu então diretor-executivo e fundador, Changpeng Zhao, deixou o comando da corretora depois de se declarar culpado de violações relacionadas à legislação de combate à lavagem de dinheiro.

Agora, além de tentar recuperar os recursos desviados, a Binance precisará esclarecer como os invasores conseguiram acessar sua infraestrutura e quais medidas serão adotadas para impedir novos incidentes. A companhia afirma que continuará utilizando recursos próprios para cobrir eventuais perdas confirmadas, enquanto as investigações sobre a identidade dos responsáveis e o destino dos ativos prosseguem.

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