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ELEIÇÕES EM ISRAEL

Apuração aponta impasse eleitoral em Israel; suspeita de interferência estrangeira eleva tensão

A incerteza aumentou depois que o presidente do Comitê Eleitoral Central pediu ao serviço de inteligência Shin Bet uma investigação sobre possível interferência estrangeira

Estadão Conteúdo

Publicado: 29/10/2026 às 09:51

Se as tentativas de formação de governo fracassarem, Israel poderá voltar às urnas no início de 2027/Menahem Kahana/AFP

Se as tentativas de formação de governo fracassarem, Israel poderá voltar às urnas no início de 2027 (Menahem Kahana/AFP)


Israel aguardava nesta quinta-feira (29), a conclusão da apuração das eleições, que apontam para um Parlamento sem maioria definida. Nem o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seus aliados nem os partidos que tentam tirá-lo do poder devem alcançar, sozinhos, as 61 cadeiras necessárias para controlar o Knesset, de 120 assentos. O resultado coloca as legendas lideradas por árabes no centro das negociações para formar um governo.

A incerteza aumentou depois que o presidente do Comitê Eleitoral Central pediu ao serviço de inteligência Shin Bet uma investigação sobre possível interferência estrangeira. Em carta, citou alegações de financiamento por "entidades estrangeiras contrárias aos interesses de Israel", mas não apresentou detalhes nem atestou a validade das denúncias, de origem desconhecida. Pediu conclusões em uma semana. Pela legislação, o resultado deve ser certificado até 4 de novembro.

Netanyahu usou o pedido de investigação para defender que nenhum partido coopere com siglas lideradas por árabes, embora a carta não tratasse do assunto. Seu principal rival, o ex-chefe militar Gadi Eisenkot, advertiu contra tentativas de "explorar a situação" para alterar a posse do próximo Parlamento, prevista para 10 de novembro. O partido Yashar informou que Eisenkot recebeu informações do diretor do Shin Bet.

Yair Golan, líder do partido Democratas, acusou Netanyahu de tentar deslegitimar a vontade popular, "e a população árabe em particular". Sami Abu Shehadeh, de uma das siglas da Lista Conjunta, classificou as acusações como uma nova fase de "incitação" contra partidos árabes. O presidente Isaac Herzog, responsável por indicar quem tentará formar o governo, pediu uma investigação completa, mas alertou: "Não devemos manchar a reputação de toda uma comunidade que procurou exercer seu direito de voto e participar ativamente da democracia".

Segundo projeções da imprensa local, o bloco de Netanyahu conquistaria 53 cadeiras, a oposição, 48, e os partidos liderados por árabes (19). A divulgação dos números finais poderia ocorrer ainda nesta quinta-feira, após a contagem de cerca de 500 mil votos de militares, diplomatas e pessoas em prisões e hospitais, entre outros eleitores. Esses votos não devem alterar o quadro.

Embora o Likud, partido de Netanyahu, tenha obtido o maior número de votos, a sigla acusou partidos árabes de fraude eleitoral, sem apresentar provas. O Comitê Eleitoral afirmou que houve poucos relatos de irregularidades na votação, considerada relativamente tranquila.

A formação do governo exigirá escolhas difíceis. Partidos judeus e árabes poderão formar uma aliança histórica, enquanto legendas que fizeram campanha contra Netanyahu terão de decidir se aceitam uma composição com o premiê. Até lá, ele segue no cargo.

Mesmo fora de uma eventual coalizão, as siglas árabes poderão influenciar o Knesset ao apoiar a oposição na escolha do presidente do Parlamento e na definição da pauta legislativa. Eisenkot admitiu uma aliança sob condições. Ahmad Tibi, da Lista Conjunta, afirmou à Rádio do Exército ter conversado com oposicionistas sobre a substituição do atual presidente do Knesset e prometeu apoio ao candidato do bloco. Também pediu coragem política a Eisenkot.

A Lista Conjunta celebrou a "demonstração de força sem precedentes" de eleitores árabes e de judeus "dispostos a nadar contra a corrente do racismo". Houve pequenas manifestações em Tel Aviv e Jerusalém a favor de uma coalizão com legendas árabes. A primeira participação de um partido árabe em um governo israelense ocorreu apenas em 2021, por um período breve.

Se as tentativas de formação de governo fracassarem, Israel poderá voltar às urnas no início de 2027, hipótese que Herzog e Eisenkot desejam evitar. Uma nova votação lançaria dúvidas sobre a repetição da elevada participação árabe e sobre o retorno de milhares de israelenses que viajaram ao país especialmente para votar contra Netanyahu.

A eleição ocorre em uma sociedade dividida e marcada por três anos de guerras. Entre os temas centrais estão a isenção do serviço militar obrigatório para ultraortodoxos e as acusações de corrupção contra Netanyahu, além das suspeitas de que ele retardou acordos sobre Gaza, inclusive para libertar reféns, por interesse político. O tratamento dado aos palestinos em Gaza e a violência de colonos judeus na Cisjordânia ocupada também afetam a imagem internacional de Israel.

Outra fonte de tensão é a possibilidade de novos ataques ao Irã, mencionada pelo governo Donald Trump para depois das eleições legislativas americanas de 3 de novembro. Especialistas avaliam que uma retomada da guerra poderia levar Netanyahu a defender um governo de unidade sob seu comando e adiar uma investigação pública sobre as falhas de segurança que antecederam o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, estopim da guerra em Gaza.

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