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ONU alerta que situação nos territórios palestinos está fora de controle

Na Cisjordânia ocupada, o secretário-geral da ONU, António Guterres, denunciou a violência diária exercida por colonos israelenses contra comunidades palestinas e manifestou preocupação com os ataques direcionados a jornalistas e diplomatas

Isabel Alvarez

Publicado: 22/10/2026 às 16:18

Palestinos deslocados caminham passando por tendas e edifícios destruídos perto da orla da Cidade de Gaza/Eyad Baba / AFP

Palestinos deslocados caminham passando por tendas e edifícios destruídos perto da orla da Cidade de Gaza (Eyad Baba / AFP)

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, alertou que a situação nos territórios palestinos ocupados está fora de controle e defendeu uma solução política para alcançar uma paz duradoura. “Em Gaza, a ajuda essencial continua a ser severamente restringida por Israel, em um momento em que o inverno está cada vez mais próximo", disse Guterres, ressaltando as crescentes dificuldades na aplicação do plano aprovado pelo Conselho de Segurança para a região.

Na Cisjordânia ocupada, Guterres denunciou a violência diária exercida por colonos israelenses contra comunidades palestinas e manifestou preocupação com os ataques direcionados a jornalistas e diplomatas, classificando o cenário como insustentável. "Os palestinos continuam a sofrer ataques diários de colonos israelenses, cujo objetivo claro é expulsar essas comunidades de suas terras. Jornalistas e diplomatas também estão sendo atacados, em uma situação que está simplesmente fora de controle", afirmou.

Nos últimos dias, uma fotógrafa norte-americana do jornal The Washington Post e vários diplomatas europeus, incluindo um prefeito francês, foram agredidos por colonos enquanto acompanhavam atividades agrícolas palestinas. Recentemente, dez israelenses suspeitos de envolvimento nesses ataques foram detidos.

Na quarta-feira (21), cerca de 80 ativistas, incluindo rabinos e voluntários internacionais, foram detidos pelas forças israelenses durante a colheita de azeitonas perto de Belém. Entre os detidos estava o candidato democrata norte-americano Brad Lander, que foi libertado posteriormente com uma advertência, enquanto dezenas de outros participantes permanecem sob custódia.

Enquanto isso, novos ataques aéreos de Israel na Faixa de Gaza deixaram mais três palestinos mortos. Entre as vítimas da ofensiva estão uma pessoa atingida dentro de um veículo na Cidade de Gaza; um ciclista alcançado pelos disparos em Khan Younis; e uma mulher morta a tiros nas proximidades do campo de refugiados de Jabalia. O governo de Israel afirma que as ações visam conter o rearmamento do Hamas.

Mais de 1.500 palestinos já morreram no enclave em decorrência de bombardeios e ataques contínuos de Israel desde o acordo de trégua firmado em outubro de 2025. Já na Cisjordânia ocupada, 182 palestinos foram mortos até outubro de 2026 em consequência de incursões de forças israelenses e de colonos, segundo dados divulgados pela Human Rights Watch.

O chefe das Nações Unidas reforçou a necessidade de estabelecer um caminho político credível para a paz, defendendo o fim da ocupação israelense e a concretização da solução de dois Estados. "É necessário pôr fim à ocupação e tornar realidade a solução de dois Estados, com Israel e a Palestina vivendo lado a lado, em paz e segurança", sublinhou.

Guterres advertiu ainda para o financiamento insuficiente das operações humanitárias voltadas à população palestina, ressaltando que apenas o Programa Alimentar Mundial (PAM) necessita urgentemente de US$ 450 milhões para garantir assistência alimentar em Gaza e na Cisjordânia nos próximos meses. "Este montante equivale ao que o mundo gasta em defesa em apenas 90 minutos", destacou, apelando pela mobilização de países doadores.

Colheita vira cenário de medo e destruição

As declarações do líder da ONU ocorrem em um contexto de escalada da violência na Cisjordânia, especialmente durante a safra da azeitona, marcada por sucessivos ataques de colonos contra agricultores palestinos e observadores internacionais.

Um grupo de sete especialistas em direitos humanos da ONU apontou as crescentes ameaças enfrentadas pelos agricultores da região com o início da colheita anual. “A situação coloca em risco os meios de subsistência, os direitos culturais, a segurança alimentar e a soberania dessas comunidades”, alertaram.

O grupo ressalta que a violência e as restrições se intensificam a cada ano. Mais de 6 mil árvores e mudas foram vandalizadas recentemente, atingindo o patamar mais alto em seis anos. A preocupação aumentou em setembro passado, após ordens de autoridades militares israelenses para a remoção de vegetação em aproximadamente 339 mil metros quadrados de terras agrícolas palestinas no norte e centro da Cisjordânia.

A colheita de azeitonas é uma fonte essencial de alimento, renda e subsistência para milhares de famílias palestinas, estando profundamente enraizada no patrimônio cultural da região. Como as oliveiras levam anos para amadurecer e podem sustentar gerações, sua destruição causa prejuízos que vão além de uma única safra, comprometendo sistemas alimentares locais, práticas culturais e a própria soberania alimentar.

Os especialistas instaram o governo israelense a cumprir suas obrigações sob o direito internacional, garantindo que suas forças protejam os agricultores palestinos contra ataques de habitantes dos assentamentos.

Além disso, pediram o fim da interferência no acesso à terra, a interrupção imediata de novas atividades de assentamento, a evacuação de ocupantes do território palestino e o fornecimento de reparações integrais pelos danos causados, incluindo a restituição de terras e o retorno de palestinos deslocados aos seus lares.

Por fim, os peritos apelaram para que a comunidade internacional, especialmente os países com maior influência diplomática, exerça máxima pressão para proteger os civis palestinos, deter e reverter políticas de anexação e assegurar a responsabilização por décadas de violações sob o direito internacional.

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