UNICEF denuncia mais de 340 crianças assassinadas em Gaza desde o cessar-fogo
A agência da ONU ainda alerta que cerca de 800 mil continuam deslocadas e a maioria sobrevive em tendas ou prédios destruídos
Publicado: 16/10/2026 às 15:32
Palestinos caminham em meio aos escombros de prédios destruídos no bairro de Sheikh Radwan, na Cidade de Gaza, em 4 de fevereiro de 2026. Apesar de uma trégua mediada pelos EUA ter entrado em sua segunda fase no início de janeiro, a violência no território palestino continuou, com Israel e o Hamas acusando-se mutuamente de violar o acordo. (Foto de Omar AL-QATTAA / AFP) ( AFP)
Nesta sexta-feira, o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgou seu mais novo relatório que documenta o impacto da guerra na Faixa de Gaza sobre a população infantil e revela o custo humano impressionante de um conflito que continua a devastar crianças, tirando suas vidas, suas infâncias e seus futuros.
No documento, o UNICEF denuncia que mais de 340 crianças foram mortas em Gaza desde o anúncio do cessar-fogo, há pouco mais de um ano. A agência da ONU ainda alerta que cerca de 800 mil continuam deslocadas e a maioria sobrevive em tendas ou prédios destruídos.
“Essas estatísticas terríveis não equivalem a um cessar-fogo como a maioria imagina, principalmente para as famílias que lamentam a perda de seus filhos. E agora, à medida que nos aproximamos do inverno novamente, essas crianças enfrentam um quarto ano lutando para sobreviver em condições difíceis. Falta de saneamento e tendas danificadas e amontoadas em qualquer espaço que as famílias encontrem para criar um lar improvisado”, disse o porta-voz da organização, Ricardo Pires.
Pires relatou que nas últimas semanas duas meninas e cinco meninos foram mortos por tiros ou em ataques aéreos das forças israelenses em diferentes pontos do enclave, além de outros 33 menores terem ficado gravemente feridos e mais duas crianças ido a óbito por causa dos ferimentos sofridos anteriormente.
O porta-voz também ressalta que o documento aponta que 60 mil crianças perderam um ou ambos os pais neste contexto, enquanto praticamente todas necessitam de algum tipo de apoio psicológico e cuidados para a saúde mental para recuperar os traumas vividos. O relatório assinala que cerca de 67% da população de Gaza está inserida no mapa da fome, com 157 crianças entre as vítimas fatais por falta de alimentos e mais de 158 mil menores de 5 anos enfrentando desnutrição aguda.
“O futuro que as crianças de Gaza querem é um em que possam simplesmente viver a infância, como é seu direito. Para tornar isso realidade, as crianças precisam de um verdadeiro cessar-fogo e da implementação completa do plano de paz agora. As crianças precisam de segurança e proteção, estejam elas na Faixa de Gaza, na Cisjordânia ou em Israel.
As crianças precisam se recuperar, começar a se curar, voltar a uma vida normal. Isso exige que os Estados-Membros coloquem as crianças em primeiro lugar. Isso exige que as autoridades israelenses possibilitem a entrada dos materiais, equipamentos e suprimentos técnicos para reabilitar infraestrutura e restaurar serviços essenciais. Sem a entrada em larga escala de peças sobressalentes, geradores e óleo de motor, nem mesmo os serviços ainda em operação poderão ser sustentados. Ela exige que as partes envolvidas no conflito respeitem os termos do cessar-fogo e da Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU e suas obrigações sob o direito internacional humanitário. Acima de tudo, precisamos ouvir as vozes das crianças em Gaza”, apela o UNICEF.
Por outro lado, o relatório indica que mais de 560 mil crianças palestinas voltaram a ter acesso à educação em Gaza, incluindo alunos que recebem apoio em centros de aprendizagem apoiados pela UNICEF.
A agência especializada das Nações Unidas na proteção da infância afirma que a esta ajuda se junta o abastecimento de água potável a 1,2 milhões de pessoas, a coleta de resíduos sólidos e a distribuição de material médico, apesar de o porta-voz destacar que estas intervenções de emergência estão longe de restabelecer serviços essenciais, como as redes de saneamento e os sistemas de tratamento de águas residuais.
"Os fornecimentos humanitários e comerciais são essenciais para as crianças de Gaza, tal como o foram antes, durante e após o cessar-fogo. Este trabalho é fundamental e salva vidas. Mas está longe de restaurar os serviços como deveriam. Por isso, pedimos que seja permitida a entrada contínua de ajuda humanitária e de mercadorias em Gaza, para que as crianças possam continuar a se recuperar", afirmou Pires em referência ao bloqueio imposto por Israel à entrada de caminhões no enclave palestino.
Mas, o porta-voz, comunicou que todas as seis estações de tratamento de esgoto ainda estão fora de serviço e que a maior parte do esgoto bruto é bombeada diretamente para o mar, afetando a costa por quilômetros. "Há enormes poças de águas residuais, como a bacia de águas pluviais Sheikh Radwan, que está parcialmente cheia. E com as chuvas de inverno se aproximando rapidamente, estamos ficando sem tempo para bombear isso. Assim como alertamos há um ano, a água contaminada pode transbordar e inundar áreas residenciais, com impactos potencialmente fatais para crianças e suas famílias. Crianças já se afogaram em água contaminada por esgoto antes. A bacia pode ser drenada em duas semanas, mas Israel ainda não permitiu que o equipamento necessário entrasse em Gaza”, explicou.
O governo de Israel voltou a suspender a entrada de mercadorias comerciais em Gaza, medida anunciada na quarta-feira (14) pelo COGAT, órgão militar israelense responsável pela coordenação de assuntos civis e humanitários em Gaza. De acordo com o órgão, comerciantes palestinos decidiram interromper a coordenação com as autoridades israelenses para permitir a entrada de mercadorias comerciais. O COGAT diz que os comerciantes garantiram que tomaram a decisão em resposta a uma taxa de 10 mil shekels (cerca de US$ 3.220) cobrada pelo Hamas por caminhão que entra em Gaza. Eles também apontaram uma exigência de que 30% das vendas no território fossem realizadas em dinheiro.
Enclave em ruínas
Recentemente o Google Maps e o Google Earth atualizaram as imagens de satélite da Faixa de Gaza que aparecem em sua plataforma. As novas fotos viralizaram nas redes sociais e chocaram os internautas, ao mostrar em alta definição a destruição e a escala da devastação no território palestino no pós-guerra.
O Centro de Satélites das Nações Unidas (UNOSAT) afirmou em agosto que 82% de todas as estruturas de Gaza haviam sofrido algum tipo de dano por conta da guerra, sendo que dois terços delas foram completamente destruídos. Isso representa mais de 60 milhões de toneladas de destroços, segundo uma análise da rede britânica BBC.