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ONU admite que ultrapassar 1,5°C do Acordo de Paris é inevitável

Novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) diz que aquecimento global ultrapassará a barreira de 1,5°C, meta do Acordo de Paris

Marília Parente

Publicado: 02/09/2026 às 16:40

Os países acertaram, no Acordo de Paris de 2015, em tentar impedir que o aquecimento global/Crédito: Paulo Pinto / Agência Brasil

Os países acertaram, no Acordo de Paris de 2015, em tentar impedir que o aquecimento global (Crédito: Paulo Pinto / Agência Brasil)

O aquecimento global ultrapassará a barreira de 1,5 °C nos próximos anos, meta mais ambiciosa firmada pelo Acordo de Paris, exigindo uma gestão internacional para limitar o pico térmico antes de tentar reduzir a temperatura na segunda metade do século. Essa é a constatação do relatório especial "Limitando o Overshoot: Navegando pela superação de 1,5 °C e caminhos para o retorno”, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) nesta terça-feira (2).

O documento assinala uma mudança fundamental no paradigma da diplomacia climática mundial. Se nas últimas décadas o debate esteve focado em como evitar ultrapassar a marca de 1,5 °C, a urgência agora se volta para como gerenciar a crise durante o período de ultrapassagem (overshoot) e garantir que a temperatura global inicie uma trajetória de declínio até o final deste século.

O PNUMA faz um alerta contundente às lideranças globais: ultrapassar 1,5 °C não deve ser interpretado como um "novo normal" aceitável. “Não existem cenários benignos acima de 1,5 °C”, aponta a diretora executiva da instituição, Inger Andersen.

Segundo o relatório, mais de 80% dos recifes de corais tropicais já sofreram branqueamento severo nos últimos três anos, e a perda de geleiras atingiu níveis recordes. Se a temperatura subir em direção a 1,8 °C ou 2,0 °C, a probabilidade de desencadear "pontos de virada" irreversíveis, como o colapso do gelo da Antártica e a savanização da Floresta Amazônica, aumenta exponencialmente.

"Conforme ultrapassamos 1,5 °C, os impactos climáticos se intensificarão de forma não linear e cumulativa com o tempo. A probabilidade de cruzar pontos de virada irreversíveis aumenta com a magnitude e a duração de temperaturas mais altas. Estes incluem a desestabilização dos principais mantos de gelo, a degradação da floresta amazônica [savanização/morte progressiva] e a disrupção da Circulação Meridional do Atlântico", diz trecho do relatório.

Questionada pelo Diario de Pernambuco durante encontro com a imprensa promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS), a cientista Thelma Krug, presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS/OMM), enfatiza que a trajetória atual torna o excedimento da temperatura inevitável no curto prazo.

"Com um aumento médio de 0,25 °C por década, nos próximos dez anos superaríamos o teto de 1,5 °C. A inevitabilidade está vindo à tona com mais força. Sob o ponto de vista físico, reverter o aquecimento global após o overshoot é possível, mas exige um esforço enorme para fazer com que as emissões sejam menores do que a nossa capacidade de remover CO2 da atmosfera. A reversão é um processo lento, limitado e que exige emissões líquidas negativas", afirmou a cientista.

Também presente no encontro, o economista Sérgio Margulis, ex-economista do Banco Mundial por 22 anos e atual professor da PUC-Rio, destacou a urgência de ampliar os investimentos mundiais em descarbonização. De acordo com ele, 90% dos recursos empregados em políticas do tipo estão concentrados nos países ricos.

"A descarbonização não é barata e tem que atingir todos os países. A ordem de grandeza desse investimento talvez precise ser de 2% a 5% do PIB global, algo em torno de 5 trilhões de dólares por ano. Se formos para 3 °C de aquecimento, os custos de impacto podem subir para 10% do PIB global, um valor muito mais caro do que a pandemia da COVID-19", alertou.

Cidades Costeiras

Para regiões vulneráveis e cidades litorâneas, as conclusões do relatório trazem um senso de urgência renovado. O PNUMA adverte que a elevação do nível do mar continuará por séculos, mesmo se a temperatura global começar a cair após o pico. 

Isso ocorre devido à inércia térmica dos oceanos e ao derretimento contínuo das massas de gelo. O relatório projeta que Pequenos Estados Insulares e zonas costeiras de baixa altitude enfrentam riscos de submersão parcial ou total, exigindo uma reestruturação profunda do planejamento urbano, da infraestrutura e das políticas de habitação.

Para Thelma Krug, cidades costeiras precisam se planejar para, inclusive, remanejar populações para longe de áreas de risco. "O oceano é enorme e aquece muito devagar. Se demora para aquecer, demora muito para resfriar — e esse 'muito' significa décadas ou séculos. Mesmo que a gente pare as emissões hoje, o nível do mar vai continuar subindo. Não é mais uma questão do passado de expansão térmica apenas, hoje temos a contribuição direta do degelo", destacou a cientista.

Conter a crise

Para evitar que a ultrapassagem se transforme em um colapso permanente, a ONU propõe que os governos articulem suas políticas em três fases:

  1. Resposta Imediata: Redução drástica nas emissões de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4), juntamente com medidas urgentes de adaptação para as populações mais vulneráveis;
  2. Enfrentamento e Contenção: Aceleração da descarbonização profunda até atingir o "zero líquido" (net-zero) de emissões no momento do pico de temperatura;
  3. Resiliência de Longo Prazo: Manutenção de emissões líquidas negativas de carbono por décadas para forçar o declínio gradual da temperatura de volta para abaixo de 1,5°C.

A despeito da superação iminente do teto de 1,5 °C, os especialistas concordam que o Acordo de Paris continua sendo o único instrumento político global viável. Para Krug, abandonar o acordo diplomático geraria um vácuo perigoso.

"O fato de estarmos entrando no overshoot não coloca o Acordo de Paris em xeque. A ciência não muda o fato de que temos que zerar as emissões líquidas de dióxido de carbono até meados de 2050. Eu tenho dúvidas se conseguiríamos chegar a um novo acordo no atual cenário político mundial. O caminho é preservar o acordo e estimular os países", conclui a cientista.

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