Reino Unido pede reunião urgente na ONU sobre a crise alarmante do Sudão
A Anistia Internacional divulgou hoje um novo relatório, no qual analisou a atuação da RSF, força paramilitar sudanesa
Publicado: 01/07/2026 às 16:28
Sudão (EBRAHIM HAMID/AFP)
O Conselho dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas irá realizar na próxima sexta-feira (3), em Genebra, um amplo debate urgente sobre o Sudão, diante dos alertas e denúncias de ONGs como Médicos Sem Fronteiras e Anistia Internacional que reportaram atrocidades em larga escala, como crimes contra a humanidade, violações sexuais em massa e limpeza étnica, cometidas pelas Forças de Apoio Rápido (RSF, sigla em inglês).
O Reino Unido, que pediu a realização do debate juntamente com outros países europeus, advertiu que até 500 mil civis podem estar em risco no país. O governo britânico destaca também as condições de cerco na cidade sudanesa de Al-Obeid, capital do estado de Cordofão do Norte, com milhares de pessoas sem acesso a ajuda humanitária e sob intensos ataques com drones. O pedido foi apoiado pela Alemanha, Noruega, Irlanda e Holanda.
A Anistia Internacional divulgou hoje um novo relatório, no qual analisou a atuação da RSF, força paramilitar sudanesa. “As RSF cometeram crimes contra a humanidade e limpeza étnica durante a sua campanha para tomar El Fasher, no estado do Darfur do Norte, no Sudão As crianças estão entre as principais vítimas. As crianças não foram danos colaterais desta violência, muitas vezes, foram deliberadamente visadas e sofreram imensamente. Foram mortas, feridas, violadas, raptadas e recrutadas à força em grande escala”, afirmou Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional, citada no documento.
A organização detalha a análise das provas recolhidas e concluiu que existe perseguição com base na identidade étnica. Além disso, a ONG considera que os atos documentados no relatório, assim como outras investigações em curso, podem ser relevantes para o crime de genocídio. A Anistia afirma que este relatório reuniu provas suficientes para identificar publicamente três dos comandantes das RSF responsáveis por violações graves do direito internacional.
“A guerra no Sudão é uma guerra contra os civis. O mundo foi alertado para os horrores que os civis em El Fasher enfrentaram enquanto as RSF sitiavam a cidade. É uma mancha na consciência da humanidade”, disse Callamard.
A ONG apela a um cessar-fogo imediato e pede à comunidade internacional que envie forças para o terreno para proteger os civis, uma vez que sem uma ação urgente os ataques contra civis e o imenso sofrimento e trauma infligidos às crianças continuarão sem impedimentos. . “É necessário um cessar-fogo a nível nacional de imediato. Deve ser destacada para o Sudão uma força internacional independente e dotada de recursos adequados para proteger os civis contra os crimes cometidos por todas as partes envolvidas no conflito", pede a Anistia Internacional.
De acordo Callamard, entre as vítimas, também estão pessoas com deficiência e idosos que enfrentaram riscos graves, como ataques direcionados, abandono e exclusão da assistência essencial. A ONG ainda informou que as RSF cometeram desde 2024 até 2025, uma série de crimes de guerra em El Fasher e nas zonas circundantes como homicídio, transferência forçada, encarceramento, tortura, violação, escravatura sexual, outras formas de violência sexual, escravização e extermínio.
Também num recente relatório da ONG Médicos sem Fronteiras, a organização já havia traçado um cenário de violência sexual generalizada e sistemática, dentro e fora das zonas de conflito, com milhares de vítimas identificadas. Segundo o MSF, a violência sexual é usada como arma de guerra e como meio sistemático de controle da população civil, em violação do direito internacional humanitário. “Não há lugar seguro para mulheres e meninas em Darfur, no Sudão. A violência sexual é uma característica definidora deste conflito. Não está confinada às linhas da frente, mas é generalizada nas comunidades” , revelou o documento do MSF
“A violência sexual é uma característica definidora deste conflito. Não está confinada às linhas da frente, mas é generalizada nas comunidades”, afirma Ruth Kauffman, citada em comunicado.
Os relatos apontam ainda que as agressões foram frequentemente atentadas por vários agressores, em frente a familiares, e dirigidas deliberadamente a comunidades não árabes, como forma de humilhação e terror. Crianças também estão entre as vítimas: “uma em cada cinco sobreviventes tinha menos de 18 anos”, incluindo dezenas com menos de cinco anos, indica a organização humanitária.
Guerra civil
O conflito no Sudão entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF) criou a maior crise de deslocamento interno do mundo, forçando mais de 12 milhões de pessoas a abandonarem suas casas. Metade da população sudanesa enfrenta necessidade extrema e níveis severos de desnutrição.
A ONU classifica a situação no país como a maior crise humanitária mundial, afetando cerca de 34 milhões de pessoas. O Conselho de Segurança da ONU debate medidas como a expansão do embargo de armas e a imposição de novas sanções a indivíduos e redes de recrutamento que prolongam a guerra. Paralelamente, o Tribunal Penal Internacional (TPI) investiga crimes de guerra contínuos e violações do direito internacional.