ONU afirma que Gaza permanece em condições humanitárias precárias de sobrevivência
Mais de 75% da população precisa de abrigo adequado e os serviços essenciais estão à beira do colapso, segundo o chefe humanitário da ONU
Publicado: 19/06/2026 às 19:16
Gaza (AFP)
Nesta sexta-feira (19), as Nações Unidas alertaram que a Faixa de Gaza está sendo mantida unida somente por soluções humanitárias improvisadas e precárias e pela perseverança palestina. Mais de 75% da população precisa de abrigo adequado e os serviços essenciais estão à beira do colapso. E menos de um quarto do apelo humanitário para Gaza foi atendido, advertiu o chefe humanitário da ONU.
O Conselho de Segurança da ONU se reuniu hoje para discutir a situação humanitária em Gaza, no qual o Subsecretário-Geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, relatou um quadro muito sombrio do enclave. “Os palestinos continuam privados do básico: segurança, abrigo, água potável, assistência médica e educação. Apesar da redução dos combates ativos, civis continuam sendo mortos e mutilados em ataques aéreos diários, bombardeios e tiroteios É uma situação insustentável”, descreveu Fletcher, que apelou mais uma vez a suspensão imediata das restrições israelenses a item essenciais de sobrevivência.
O subsecretário-geral e também Coordenador de Ajuda de Emergência do OCHA, órgão da ONU responsável por organizar e coordenar as respostas globais a crises humanitárias, desastres naturais e conflitos armados, ainda afirmou que, desde o cessar-fogo, quase mil palestinos já foram mortos, incluindo mais de 250 crianças, de acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). "É isto que acontece quando as crianças são descritas como danos colaterais e potenciais terroristas, em vez de seres humanos e potenciais vizinhos", criticou.
Fletcher apontou que o Plano de Paz para Gaza do presidente dos EUA, Donald Trump, aprovado pelo próprio Conselho de Segurança da ONU, afastou o enclave palestino de uma situação catastrófica, mas não trouxe e forneceu as necessidades fundamentais da população.
Em relação aos trabalhadores humanitários, Gaza também permanece sendo o local mais perigoso do mundo para prestar auxílio. Fletcher recordou que quase 600 desses trabalhadores foram mortos na região durante os anos do conflito, mais de metade do número total registrado em todo o mundo. O Subsecretário-geral exortou o Conselho de Segurança a garantir a proteção dos civis, incluindo os trabalhadores humanitários; o acesso humanitário seguro, sustentado e sem entraves em toda a Faixa de Gaza; e um financiamento que seja oportuno, flexível e proporcional à dimensão desta crise. Além disso, insistiu no desbloqueio imediato das restrições israelenses aos artigos essenciais de sobrevivência, especificamente equipamentos médicos, incluindo ferramentas de diagnóstico, mas também peças de substituição críticas para água e saneamento, fornecimento constante de combustível e óleo de motor, equipamentos de comunicação e proteção para os trabalhadores humanitários. "Os civis não podem esperar por um momento diplomático mais conveniente para receber o básico para a sobrevivência", enfatizou.
Na reunião do Conselho de Segurança, marcou presença Bushra Khalidi, chefe de Políticas Humanitárias da OXFAM Internacional, uma confederação global de mais de 20 ONGS independentes, que num discurso emocionado, afirmou que o cessar-fogo está fracassando.
“Gaza não está separada de Jerusalém ou da Cisjordânia. É governada pelo mesmo sistema de ocupação ilegal de Israel. Um sistema que regula e nega a circulação, restringe as passagens, ameaça os lares e divide famílias. Não se pode viajar livremente e Gaza é onde este sistema atinge a sua expressão mais devastadora", denunciou.
Khalidi salientou também as forças israelenses continuam a matar palestinos e a levar Gaza a uma nova fragmentação, onde uma parcela cada vez maior da população está comprimida numa fração cada vez menor e onde os civis permanecem presos, deslocados, famintos e desprotegidos. "A paz não pode ser medida por declarações. Deve ser medida pela capacidade das pessoas de viverem em paz.", sublinhou.