Ativistas da flotilha interceptada por Israel denunciam graves agressões e abusos sexuais
Os governos do Reino Unido, França, Portugal, Holanda, Canadá, Bélgica e Eslovênia convocaram os embaixadores israelenses para prestar esclarecimentos
Publicado: 22/05/2026 às 17:21
Flotilha Global Sumud (Fethi Belaid/AFP)
Inúmeras queixas de violência extrema por parte de Israel foram reveladas pelos ativistas da flotilha Global Sumud que foram detidos e estavam sob custódia das forças israelenses no porto de Ashdod, no início desta semana.
Dos 422 ativistas estrangeiros da flotilha, que chegaram primeiramente em Istambul na quinta-feira (21) após serem deportados por Israel, há dezenas de denúncias graves de agressões físicas, intimidação, torturas, abusos sexuais e psicológicos, choques elétricos e maus-tratos depois da interceptação em águas internacionais do comboio de ajuda humanitária que tentava ir a Gaza.
A mídia internacional também reportou que no desembarque no aeroporto turco se pode observar que muitos dos ativistas pareciam feridos e mostrava pessoas em macas, com colares cervicais e ligaduras. As acusações às forças de segurança de Israel são de ativistas da Itália, Portugal, Turquia, Grécia e Estados Unidos entre tantos outros países.
O vídeo que foi divulgado pelo ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, já havia mostrado ao mundo os ativistas detidos de cerca de 40 nações algemados, amontoados, sendo humilhados e obrigados a ajoelhar-se com a cara no chão. Nas imagens, o ministro celebra a detenção, no qual aparece sorridente e acena com a bandeira de Israel, dando boas-vindas e zombando deles.
O incidente desencadeou indignação internacional e reações diplomáticas em toda a Europa, no Oriente Médio e no Brasil. Os governos do Reino Unido, França, Portugal, Holanda, Canadá, Bélgica e Eslovênia são alguns dos que convocaram os embaixadores israelenses para prestar esclarecimentos sobre o episódio que classificaram de inaceitáveis e degradantes. Além de diversos países pedirem a União Europeia sanções a Ben-Gvir e alguns sanções parciais a Israel.
O ministro italiano das Relações Exteriores, Antonio Tajani, inclusive pediu formalmente à Alta Representante da UE, Kaja Kallas, a adoção de sanções contra o ministro Ben-Gvir. Os ativistas que retornaram a Milão e Roma relataram à imprensa italiana terem sofrido espancamentos, falta de acesso a necessidades básicas, humilhações e até denúncias de violência sexual. A Procuradoria de Roma ainda abriu investigações sobre a interceptação e o tratamento dado aos ativistas, levantando sérias acusações que incluem sequestro e tortura.
Enquanto dois médicos portugueses, Gonçalo Reis e Beatriz Bartilotti , que participavam da flotilha e aterraram esta sexta-feira de manhã na cidade do Porto, também denunciaram torturas, espancamentos sistemáticos por parte das autoridades israelenses durante a detenção e obrigados a ficar de joelhos por horas. “Fomos raptados em águas internacionais, estivemos num barco de prisão, sem contato com o mundo. Houve muita violência, fomos torturados, fomos espancados. As pessoas foram alvejadas, foi horrível”, acusaram.
Reis e Bartilotti disseram que as condições de detenção eram terríveis, tendo sido mantidos durante vários dias num "barco-prisão" e depois numa prisão no meio do deserto junto à fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza. Os médicos contaram também que viram soldados israelenses baleando duas pessoas do grupo, além de presenciarem eles fraturarem membros de pelo menos 35 ativistas.
Beatriz Bartilotti destacou que o que foi tornado público, através do vídeo publicado por Ben-Gvir, não reflete toda a realidade. “O que viram no vídeo foi à parte boa, eles estão constantemente a fazer propaganda”, afirmou. Mas, lamentou que esta solidariedade só aconteça quando cidadãos estrangeiros são expostos à violência. “Esta violência acontece muito pior todos os dias em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano. Espero a muitos anos que realmente haja um impacto no corte de relações diplomáticas, econômicas, e que realmente se sancione este Estado genocida. É o mínimo que se pode fazer”, disse a ativista, que defende ser necessário repensar a relação dos países com Israel.
O chanceler português, Paulo Rangel, declarou que Portugal apoia possíveis sanções da União Europeia a Ben-Gvir e a suspensão temporária do acordo de associação UE-Israel. O presidente, António José Seguro, expressou total repúdio e condenação perante as humilhações públicas de seres humanos e tratamentos indignos.
Por outro lado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, defendeu a intercepção da Global Sumud, descrevendo-a como uma "flotilha provocatória", mas criticou a conduta de Ben-Gvir, afirmando que suas ações não condizem com os valores e normas do seu país.
Já a operação da flotilha voltou a chamar a atenção internacional da crise humanitária que assola o território devastado da Faixa de Gaza assim como a manutenção do bloqueio israelense, apesar do acordo para a entrada massiva de ajuda humanitária desde que entrou em vigor o cessar-fogo na região palestina.