EUA acusam formalmente o ex-presidente cubano Raúl Castro
Por outro lado, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, argumentou que a acusação contra Raúl Castro é uma manobra política, desprovida de qualquer fundamento jurídico
Publicado: 20/05/2026 às 21:02
Ex-presidente de Cuba Raúl Castro (YAMIL LAGE / AFP)
Os Estados Unidos acusaram hoje formalmente Raúl Castro, ex-presidente de Cuba e irmão de Fidel, pelo seu alegado papel no ataque a dois aviões civis em 1996, que causou a morte de três cidadãos norte-americanos.
O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que uma escalada contra Cuba era desnecessária. "Não haverá escalada. Não creio que seja necessária. Aquele país está se desintegrando", disse. Mas, considerou a acusação a Raúl Castro como um dia muito importante e ressaltou que os EUA estão libertando Cuba, mas que não pode adiantar o que acontecerá à ilha.
Por sua vez, o procurador-geral interino dos EUA, Todd Blanche, afirmou que a acusação envia uma mensagem de que aqueles que matam americanos serão responsabilizados, independentemente do tempo decorrido.
“Não se pode permitir que países e seus líderes ataquem americanos, os matem e não sejam responsabilizados. Os Estados Unidos e o presidente Trump não se esquecem e não se esquecerão dos seus cidadãos. Esta acusação não é meramente simbólica. Foi emitido um mandado de detenção contra ele. Por isso, esperamos que se entregue voluntariamente ou então será detido”, indicou Blanche.
As acusações contra Raúl Castro, de 94 anos, se baseiam num incidente de 1996, no qual jatos cubanos abateram dois aviões pertencentes à organização de exilados cubano-americanos, chamada “Irmãos ao Resgate”. No incidente morreram quatro pessoas, sendo três norte-americanos. Na ocasião, Raúl era o ministro da Defesa de Cuba e o governo de Havana se queixou sobre os voos ao então presidente dos EUA, Bill Clinton.
O anúncio também foi feito no dia em que os EUA assinalaram o aniversário do fim da ocupação militar americana de Cuba, que durou quatro anos terminando no dia 20 de maio de 1902, e que sucedeu a séculos de domínio colonial espanhol. O governo cubano não considera a data como o dia da independência do país, argumentando que Cuba se manteve submissa a Washington até a revolução de 1959.
Para assinalar ainda a data, o gabinete do Procurador dos EUA em Miami realizará um evento para homenagear as vítimas do incidente no “Freedom Tower”, que funcionou por mais de uma década como centro de refugiados para cubanos que buscavam asilo nos EUA, se tornando um símbolo da imigração cubana na cidade.
Por outro lado, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, argumentou que a acusação contra Raúl Castro é uma manobra política, desprovida de qualquer fundamento jurídico, cujo único objetivo é insuflar o dossiê fabricado que usam para justificar a insensatez de uma agressão militar a Cuba. “Os EUA mentem e distorcerem os acontecimentos. Cuba agiu em legítima defesa dentro das suas águas territoriais em 24 de fevereiro de 1996”, escreveu Díaz-Canel na rede social X.
A acusação surge num momento em que Trump pressiona para uma mudança de regime na ilha, além de impor um bloqueio petrolífero desde janeiro, o que agravou a crise energética e econômica do país. "Os EUA não tolerarão um Estado pária que abriga operações militares, de inteligência e terroristas estrangeiros hostis a apenas 145 quilômetros do território norte-americano", diz o comunicado de Trump divulgado nesta quarta-feira (20).
O presidente dos EUA também já repetiu diversas vezes que assim que resolver a questão do conflito com o Irã vai tomar a ilha.
Enquanto isso, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, se ofereceu para tratar uma nova relação entre os dois países e que os EUA poderiam fornecer 100 milhões de dólares em ajuda. Porém, Rubio acusou os líderes cubanos de serem os responsáveis pela escassez de eletricidade alimentos e de combustível no país.
Em resposta, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, chamou o chefe da diplomacia dos EUA de porta-voz de interesses corruptos e vingativos, mas não descartou aceitar a ajuda. "Continua a falar de um pacote de ajuda de 100 milhões de dólares que Cuba não rejeitou, mas cujo cinismo é evidente para qualquer pessoa diante do efeito devastador do bloqueio econômico e do estrangulamento energético. O secretário de Estado está a repetir o seu discurso enganoso e a tentar culpar o governo de Cuba pelos danos cruéis que o governo dos EUA está a causar ao povo cubano", denunciou Rodríguez. O chanceler cubano afirmou que, ao contrário do que Rubio alega, a situação de Cuba é resultado do embargo econômico dos EUA, em vigor desde a década de 1960, assim como de outras pressões de Washington.
Democratas tentam travar Trump
Um grupo de senadores democratas norte-americanos apresentou uma resolução para impedir Trump de utilizar as forças armadas contra Cuba. Citaram as repetidas ameaças de Trump de enviar tropas para mudar o governo em Havana e relatos de que o Comando Sul dos EUA recebeu ordens para elaborar planos de ataque, apesar do país não representar uma ameaça significativa à segurança nacional dos EUA.