Primeiro ano do governo Trump amplia tensões na América Latina e na Europa
Um ano após voltar à Casa Branca, Trump intensifica políticas anti-imigração, impõe tarifaços e reacende crises diplomáticas
Jessica Andrade - Correio Braziliense
Publicado: 20/01/2026 às 07:30
Trump retornou ao poder como o 47º presidente dos EUA com uma agenda nacionalista que, ao longo de doze meses, produziu impactos que ultrapassam as fronteiras do país (ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP)
Nesta terça-feira (20/1), o segundo mandato do presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, completa um ano. o republicano governa o país norte-americano pela segunda vez, em meio a um cenário de instabilidade política e diplomática. Já conhecido do eleitorado por ter ocupado a Casa Branca entre 2017 e 2021, Trump retornou ao poder como o 47º presidente dos EUA com uma agenda nacionalista que, ao longo de doze meses, produziu impactos que ultrapassam as fronteiras do país e remodelam relações internacionais e geopolíticas.
A cerimônia de posse, realizada em 20 de janeiro de 2025, deixou claro que Trump não buscaria um mandato conciliador. Em discurso, prometeu uma nova “era de ouro” para os Estados Unidos, reforçou o lema “America First” e sinalizou que acordos multilaterais e compromissos internacionais seriam reavaliados sob critérios estritamente econômicos e estratégicos. O tom confrontacional reacendeu alertas entre aliados tradicionais.
Nas primeiras semanas de governo, Trump assinou uma série de decretos presidenciais que ampliaram o poder do Executivo e deram o ritmo do mandato. Entre as decisões, estiveram o endurecimento da política migratória, mudanças em regras de comércio exterior e revisões de compromissos ambientais. A estratégia de governar por ordens executivas passou a ser uma marca do Trump II, gerando disputas judiciais e críticas sobre o equilíbrio entre os Poderes.
O controle rigoroso da imigração tornou-se um dos pilares do segundo mandato. O governo ampliou barreiras na fronteira sul, restringiu pedidos de refúgio e acelerou deportações, afetando diretamente fluxos migratórios vindos, principalmente, da América Latina. Organizações de direitos humanos e líderes regionais passaram a denunciar impactos humanitários, enquanto Trump reforçava o discurso de segurança nacional para justificar as medidas.
Ainda na América Latina, o reposicionamento dos Estados Unidos foi sentido de forma imediata. A relação com países da região passou a ser marcada por desconfiança, pressões comerciais e ameaças diplomáticas.
A Venezuela novamente entrou no radar da política externa dos Estados Unidos. O governo Trump ampliou sanções, elevou o tom contra Caracas e pressionou países que mantêm relações comerciais com o regime venezuelano. A postura reforçou tensões regionais e reacendeu temores de instabilidade política e econômica, além de impactos diretos sobre a crise migratória no continente.
Em abril de 2025, Trump anunciou tarifas sobre produtos brasileiros, alegando desequilíbrios comerciais e ameaças à indústria americana. Meses depois, o percentual foi ampliado, provocando reação do governo brasileiro e levando o caso a instâncias internacionais. O episódio marcou um dos momentos mais delicados da relação bilateral recente entre Brasil e Estados Unidos.
No início de 2026, o segundo mandato de Trump atingiu um novo patamar de choque geopolítico quando forças militares americanas lançaram uma operação em Caracas que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, acusados pelo republicano de narcoterrorismo e tráfico internacional de drogas que vinham sendo ventiladas por autoridades dos EUA desde 2020.
A dupla foi retirada à força da Venezuela e levada para Nova York, onde enfrentou acusação formal em tribunal federal no Distrito Sul de Nova York, declarando-se inocente de todas as acusações; o episódio desencadeou uma crise diplomática regional e levantou debates internacionais sobre soberania, legalidade e os rumos da política externa americana na América Latina.
Europa também entra na mira
A política comercial agressiva não se limitou à América Latina. A União Europeia passou a enfrentar novas ameaças tarifárias, especialmente em setores estratégicos. O tarifaço recente reacendeu disputas comerciais e levou líderes europeus a discutir medidas de retaliação, aprofundando uma crise transatlântica que parecia superada após o fim do primeiro mandato de Trump.
O interesse de Trump pela Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca, voltou ao debate internacional. Declarações sobre a importância estratégica da ilha e ameaças indiretas de pressão econômica provocaram reação imediata da União Europeia e da OTAN. O episódio evidenciou a disposição do governo americano de tensionar alianças históricas em nome de objetivos geopolíticos.
Internamente, as feridas deixadas pelo ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, continuam abertas. Também em janeiro de 2026, Trump passou a apoiar iniciativas que recontam sua versão dos acontecimentos, incluindo um site dedicado ao episódio. Para críticos, a narrativa reforça a polarização política e tensiona a democracia americana.
Economia, mercados e incerteza global
As decisões do Trump II também afetaram os mercados internacionais. Tarifas, discursos imprevisíveis e conflitos diplomáticos ampliaram a volatilidade econômica global. Enquanto a União Europeia assinava um acordo de livre comércio com o Mercosul, o norte-americano anunciou um novo tarifaço. desta vez, as taxas foram impostas a países contrários a decisão dele de anexar a Groenlândia aos EUA.
A Colômbia também entrou no radar do governo Trump ao longo do segundo mandato. Declarações do presidente passaram a associar o país diretamente ao avanço do narcotráfico e ao aumento do fluxo migratório em direção aos Estados Unidos, abrindo espaço para ameaças veladas de sanções econômicas, revisão de acordos de cooperação e endurecimento da política antidrogas.
O discurso marcou um distanciamento da histórica parceria entre Washington e Bogotá e gerou reações do governo colombiano, que alertou para riscos à estabilidade regional e ao combate conjunto ao crime organizado, além de temores de que a retórica americana pudesse justificar intervenções mais duras na região.
Ao completar um ano do segundo mandato, Trump governa um país dividido e projeta instabilidade para o mundo. O presidente, que prometeu restaurar o sonho americano, consolida, na prática, um governo que amplia tensões, isola aliados e transforma a política externa dos Estados Unidos em um fator permanente de incerteza para América Latina, Europa e o equilíbrio global.
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