Seleção Brasileira
JEJUM HISTÓRICO

Por que o Brasil não ganha uma Copa há 24 anos? Entenda a crise da Seleção

Eliminação na Copa de 2026 escancara crise estrutural da CBF, falhas na formação de atletas e as consequências de um ciclo marcado pela instabilidade de comando.

Igor Fonseca

Publicado: 11/07/2026 às 06:00

Por que o Brasil não ganha uma Copa há 24 anos? Entenda a crise da Seleção/Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Por que o Brasil não ganha uma Copa há 24 anos? Entenda a crise da Seleção (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

O jejum de 24 anos sem a taça da Copa do Mundo expõe a crise da Seleção Brasileira. Já são seis reveses consecutivos para europeus em fases eliminatórias, marcando gerações de jogadores que acumulam apenas frustrações com a camisa amarela.

Mas por que isso acontece? O Brasil deixou de ser o país do futebol? O 'joga bonito' acabou?

Contra a Noruega, a Amarelinha foi irreconhecível para quem se acostumou a ver o futebol ofensivo e vistoso de outros tempos, registrando apenas 32% de posse de bola. O resultado também consolidou a pior campanha da Seleção na história dos Mundiais, com a equipe encerrando o torneio na 11ª posição.

"O Brasil jogou atrás, jogou defensivamente contra a Noruega. Essa é a nossa capacidade hoje, infelizmente", disse à AFP o ex-jogador da seleção brasileira e comentarista Walter Casagrande.

A eliminação é a consequência de um ciclo conturbado, marcado por quatro treinadores e apenas um ano de trabalho para Carlo Ancelotti antes da estreia na Copa. A isso, soma-se a desorganização enfrentada dentro da CBF, que passou por troca de presidentes em 2025.

Problema na formação de jogadores

Uma das maiores dificuldaes enfrentados pelo treinador italiano foi nas laterais. Para o setor, Ancelotti convocou 13 jogadores ao longo do seu período, incluindo zagueiros de origem, como Éder Militão e Ibañez. No fim das contas, o principal escolhido para a direita, Wesley, foi cortado da Copa do Mundo devido a uma lesão sofrida no último amistoso antes da estreia.

Outro ponto de questionamento é a formação de jogadores, que deixam o país cada vez mais cedo rumo à Europa em transferências milionárias, assinando contratos antes mesmo da maioridade. É o caso de Endrick, Estêvão, Rayan e tantas outras jovens promessas do futebol brasileiro.

Ao pularem etapas de amadurecimento no Brasil, esses jovens chegam ao exterior para se adaptar a sistemas táticos rígidos, o que reflete diretamente na perda de protagonismo individual global.

Neymar foi, talvez, o único superastro a surgir no país desde que Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho lideraram o pentacampeonato em 2002. Kaká foi o último brasileiro a conquistar a Bola de Ouro, em 2007, há quase duas décadas.

Não por acaso, o próprio Neymar se beneficiou ao adiar sua ida para a Europa. O atacante trocou o Santos pelo Barcelona apenas aos 21 anos, já com a bagagem e a maturidade de ter conquistado uma Libertadores (2011) e uma Copa do Brasil (2010) como protagonista.

Falta de um 'camisa 9'

Dentro do aspecto de desenvolvimento dos atletas, além das laterais, desde a aposentadoria de Ronaldo Fenômeno, o Brasil tem dificuldade para achar um 'camisa 9' que tenha a missão de marcar gols, assim como Haaland é para a Noruega, Harry Kane para a Inglaterra e Mbappé (apesar de não ser centroavante) é para a França.

Seria o caso de Endrick, mas, ao se mudar muito cedo para o Real Madrid, o jovem perdeu espaço e acabou sendo emprestado para o Lyon, onde jogava pela ponta direita. Contra a Noruega, ele atuou como centroavante até a entrada de Neymar, quando acabou realocado para a direita, onde falhou na marcação no gol que abriu o placar para os noruegueses.

Desde o Fenômeno, vestiram a camisa 9 da Amarelinha jogadores como Vágner Love, Luís Fabiano, Fred, Gabriel Jesus, Richarlison e, agora, Matheus Cunha. Nenhum vingou com a seleção e, no caso de Gabriel, acabou sendo queimado pós-Copa da Rússia por ter passado em branco no Mundial.

"Os caras tinham o Haaland, um matador. A gente não tem. Ele teve as chances dele e marcou dois gols", escreveu o ex-atacante e tetracampeão Romário, no Instagram.

O inevitável ciclo conturbado

Outro ponto muito falado, e do qual é inevitável escapar, é sobre o ciclo conturbado da Seleção Brasileira com quatro treinadores e Ancelotti passando apenas um ano no comando antes da Copa do Mundo.

Diante das constantes trocas, Carleto acabou escolhendo as opções "familiares", como Casemiro no meio-campo e Danilo na lateral direita. O volante foi apontado como um dos piores jogadores do Brasil no Mundial, apesar de ter marcado gol fundamental contra o Japão.

Danilo, por outro lado, não joga na lateral direita no clube e acabou fazendo a função por falta de outra opção viável em um curto espaço de tempo para suprir a lesão de Wesley.

O treinador italiano também teve azar com outras contusões, como a de Éder Militão, uma das possíveis soluções para a lateral, apesar de ser zagueiro de origem.

De toda forma, essas são possíveis consequências de um ciclo conturbado. Nunca saberemos se, com mais tempo, Ancelotti seria capaz de desenvolver opções dentro do elenco da seleção, se preparando para possíveis reveses imprevisíveis.

"Enquanto as principais potências reformularam suas estruturas após os fracassos, o Brasil preferiu buscar soluções imediatas, trocar treinadores dentro do mesmo ciclo de uma Copa e acreditar que a camisa resolveria tudo", pontua o colunista do Diario de Pernambuco, Beto Lago.

Da convocação de 2022 para o Catar, feita pelo treinador Tite, 15 jogadores estiveram na lista final de Carlo Ancelotti para o Mundial de 2026. Foram eles: Alisson, Ederson, Weverton, Danilo, Alex Sandro, Marquinhos, Bremer, Casemiro, Bruno Guimarães, Fabinho, Lucas Paquetá, Neymar, Vinícius Júnior, Raphinha e Gabriel Martinelli.

Claro que para jogadores como Bruno Guimarães, Vinícius Júnior, Raphinha e Gabriel Martinelli, que ainda eram jovens em 2022, seria natural esperar uma continuidade na Seleção Brasileira. Já nomes como Alex Sandro, Danilo, Fabinho, Weverton e outros não tinham continuidade garantida, mas acabaram ganhando espaço devido, em parte, ao ciclo.

"O Brasil não mereceu. Por hoje e, principalmente, pelo que (não) fez desde a última Copa. A verdade é que a gente sempre acha que pode dar certo, mesmo fazendo tudo errado. Não é garantia de título trabalhar direito. Mas que, pelo menos, tentem isso pelos próximos quatro anos", argumentou o jornalista André Rizek, do Sportv.

O horizonte para 2030: o que precisa mudar?

Não é um cenário de terra arrasada, entretanto. Ainda temos jogadores de destaque mundial, como Vinícius Júnior, Raphinha, Bruno Guimarães — mesmo que tenha perdido o pênalti decisivo —, Gabriel Magalhães — um dos melhores zagueiros do futebol mundial —, além de grandes promessas como Estêvão, Endrick, Rayan e outros que vão, inevitavelmente, surgir até 2030.

O ponto é olhar para o próprio umbigo, enxergar o que há de errado e tentar corrigir para o próximo ciclo.

Neste campo de visão, é importante olhar, inclusive, para a Copa América de 2028 como uma possível virada de chave. Ancelotti terá cerca de 24 meses para preparar um time com mais calma e escolher, além de tudo, uma forma de montar a equipe para uma proposta de jogo, mesmo que seja reativa.

"O Brasil não quis a bola. Ou não quis ou não conseguiu. No final do jogo, depois das alterações, acho que o Ancelotti quis o contra-ataque. As alterações pioraram o time, e o time tomou dois gols. Quando teve as alterações, ele fez um 4-1-4-1 e atrasou a marcação", argumentou o jornalista PVC.

Também é imprescindível que jogadores jovens estejam no plano de Ancelotti desde agora. Não adianta se apoiar em medalhões como Casemiro, Marquinhos, Danilo e Alex Sandro, se eles não farão parte da Copa de 2030. A renovação deve começar agora.

Passando por essa tentativa de evolução, o foco também deve ser voltado para quem está no comando da CBF: Samir Xaud. Há a necessidade de instaurar mecanismos que protejam nossos talentos para que eles se desenvolvam e floresçam de uma forma mais saudável.

 
 
 
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"A Seleção Brasileira continuará revelando talentos extraordinários, mas se não acontecer uma 'revolução' – principalmente em termos de gestão – vai chegar às Copas sem uma identidade consolidada e sem um projeto que sobreviva a um ciclo de quatro anos", afirma Beto Lago. "Falta organização, gestão e coragem para enfrentar os problemas que começam na base e se estendem por todo o futebol brasileiro. Troca treinadores, muda ideias, vive de ciclos curtos e, muitas vezes, aposta mais no talento individual do que em um modelo de jogo consolidado", completa o colunista.

No fim, quem paga o preço dessa conta alta são os torcedores, que se animam com a Seleção Brasileira, mas que, há 24 anos, só conhecem frustração e tristeza.

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