Seleção Brasileira
COPA DO MUNDO

Pacheco na hora da aposentadoria

Entre o marketing de Neymar e um ciclo desastroso de quatro anos, o torcedor brasileiro resgata o ufanismo e ignora que a Seleção de Ancelotti chega à Copa cheia de remendos

Ricardo Novelino

Publicado: 19/05/2026 às 16:14

Pacheco na hora da aposentadoria. /Foto: Divulgação/FIFA

Pacheco na hora da aposentadoria. (Foto: Divulgação/FIFA)

A cada quatro anos, o nosso povo se redescobre e se veste de brasileiro. A culpa, se é que existe culpa nisso, é da Copa do Mundo.

Basta entrar na reta final, com anúncio de grupos da primeira fase para o Mundial, a convocação da seleção e realização dos amistosos preparatórios finais, é um deus no acuda. E tome verde e amarelo para todo lado.

De loja de máquina de lavar, passando por repartição de prefeitura de interior a boteco de beira de estrada, tem ao menos uma bandeira pendurada, lembrando que tá na hora de mostrar a “força do nosso futebol”.

É um ufanismo periódico, sazonal. Em nome da política, bem que tentaram sequestrar as cores, a camisa “canarinho” e o Pavilhão Nacional, com seu bordado positivista “Ordem e Progresso” .

Mas o que mexe, de fato, com a população, quando o assunto é o “orgulho de ser brasileiro” é a bola rolando em estádio bonito e com torcida “gourmet”.

Até quem não sabe a diferença entre lateral e escanteio entra no clima. Gente que mal sabe o que é VAR ou nunca entendeu a linha de impedimento, passa a dar opinião “abalizada” sobre a escalação do time e começa a “cornetar” o treinador.

Depois que o Brasil deixou de lado a “síndrome de vira-latas”, como diria o genial pernambucano Nélson Rodrigues, e passou a ser dominante no “esporte bretão”, basta um dedinho só para o povão transformar qualquer bando de “perronhas” em um potencial candidato ao título.

Este ano, o ufanismo sazonal chegou como nunca. Na era do TikTok e do 'zap zap', é um caminhão de marketing por segundo no pé do ouvido. “vai Brasil!”. Ou melhor, “vai Neymar”. É bom botar na conta do jogador do Santos umas boas doses do exagero criado, em 2026, em torno da Seleção Brasileira. A máquina midiática do camisa 10 é descomunal.

No anúncio dos 26 convocados, na segunda (18), teve fogos e buzinaço, choro e muitas caras e bocas.

Bom para os anunciantes que acompanham o rapaz e que vislumbram muitos dólares com a inclusão do atacante na lista do italiano Carlo Ancelotti.

O ufanismo de 2026 é “reloaded”, vitaminado. Para ficar na moda, é um ufanismo com esteroides e suplementos para marombeiros de plantão.

E pensar que as referências anteriores do país que levantou a taça cinco vezes agora ficam parecendo até brincadeira de criança.

Na incrível seleção do Tri, em 70, a marchinha ufanista, pró-ditadura militar, clamava o apoio dos “90 milhões em ação”. E anunciava “Pra Frente Brasil, salve a seleção”.

Em meio ao governo de Garrastazu Médici, do “ame ou deixe-o” , Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivellino encantaram o México e honraram a camisa canarinha.

Doze anos depois, na Copa de 82, na Espanha, é difícil esquecer o “Pacheco, Camisa 12”,. Criado por uma marca de lâmina de barbear, o personagem sintetizava idolatria pela seleção mágica de Telê Santana, que entoava o “Voa Canarinho, voa”.

O time de Zico, Falcão e Sócrates foi fulminado pela Itália, Paolo de Rossi, na Tragédia de Sarriá, mas o fenômeno Pacheco perdurou. Virou até verbo “pachecar” .

O ‘pachequismo’ se tornou sinônimo de quem entra de cabeça na defesa insana e desproporcional do nacionalismo, quando o assunto é a seleção.

Depois de 24 anos sem ganhar nada, o brasileiro bem que poderia aposentar o “Pacheco”, em 2026.

E não faltam motivos: desde a derrota no Catar, há quatro anos, o ciclo foi desastroso. Até um tal de Ramón comandou um “escrete” combalido.

Nesse mesmo período, Neymar Jr, o nosso “malvado favorito”, mal jogou, marcou poucos gols e se especializou em polêmicas, a maioria delas de uma futilidade ímpar.

Enquanto o povo gritava e se descabelava com a convocação do camisa 10, o “pachequismo” inundou o país.

E a maioria se esqueceu de pontos importantes de um time que vai tentar o hexa nos Estados Unidos, Canadá e México.

Um time que se preze tem um bom goleiro, o que não é nosso caso: Alisson não joga há meses. Ederson só arrumou confusão no seu clube, na Turquia, e Weverton caiu de paraquedas.

Quem arrumar um lateral mais ou menos nesse time ganha um pacote de figurinhas.

Ancelotti levará Danilo para ser “conselheiro” e planeja um zagueiro na direita. Só para citar um dos problemas.

No meio, falta o “cérebro”, o armador das antigas. Uma espécie extinta no futebol nacional.

Na frente, os meninos aparecem bem em seus clubes, na Europa, mas que nunca deram tantas alegrias assim ao torcedor. Né não, Vini JR e Raphinha?

Podemos até chegar longe no mundial. Mas, primeiro, é de bom tom moderar na expectativa e deixar a euforia para grupos de varejo que estão tentando vender TV de 45 polegadas.

O pachequismo faz mal à saúde e ao futebol.

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