Beto Lago: 'O alerta do Kaiser sobre o novo mundo do futebol'
A sensação de que, em meio a tantas vozes e estímulos, o foco total virou artigo raro
Publicado: 07/04/2026 às 09:19
Franz Beckenbauer ( AFP)
O alerta do Kaiser
“O problema dos jogadores de futebol de hoje é que eles têm muitas distrações.” A frase de Franz Beckenbauer vai além de uma crítica geracional. Revela mais sobre a transformação do futebol do que, necessariamente, sobre uma “queda” dos jogadores. Craque dentro e fora dos gramados, Beckenbauer foi moldado em um futebol onde o campo era o centro absoluto. Nos anos 60 e 70, o jogador vivia para o jogo, sem celular ou a indústria do entretenimento orbitando cada passo da carreira. Havia menos interferência externa, menos exposição, menos ruído. Hoje, ele divide atenção com redes sociais, contratos publicitários, construção de imagem e um ciclo de cobrança que nunca para. Ele não se desliga. É sobrecarga. Ainda assim, há um erro recorrente: romantizar o passado. O futebol atual exige mais. Os atletas de hoje são mais preparados fisicamente, mais cobrados taticamente e inseridos em um futebol mais veloz e competitivo. Se há mais distrações fora de campo, há também muito mais exigências dentro dele. O nível médio subiu e muito. O que Beckenbauer aponta, com a experiência de quem comandou dentro e fora das quatro linhas, é outra coisa: a dificuldade de concentração absoluta, aquela que separa o bom do histórico. A sensação de que, em meio a tantas vozes e estímulos, o foco total virou artigo raro.
E isso conversa diretamente com o futebol brasileiro atual. Quantos talentos promissores se perdem não por falta de qualidade, mas por uma carreira mal gerida, cercada de ruído, decisões apressadas e excesso de exposição precoce? O problema não é a distração em si, mas a incapacidade de controlá-la. No futebol moderno, talento continua sendo essencial, mas disciplina mental virou diferencial competitivo. Quem consegue filtrar o mundo ao redor ainda encontra espaço para ser gigante. Quem não consegue, vira só mais um nome no feed.
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Neymar e a inteligência emocional
E quando penso em disciplina mental, vem logo o nome Neymar. Ele vive talvez o momento mais delicado da sua relação com a Seleção Brasileira. Pela primeira vez em mais de uma década, ele não é certeza. É dúvida. E não por falta de história, mas por falta de garantias. O próprio Ancelotti não descarta o jogador, mas condiciona tudo ao desempenho e à condição física nas semanas finais antes da convocação. E, anda mais, ter inteligência emocional para entender o momento que atravessa. Na quinta, escrevo mais sobre Neymar e a Seleção.
Vitória na chuva e no sofrimento
Teve de tudo na Arena de Pernambuco: chuva pesada que castigou o gramado, queda de iluminação e paralisação. Faltou o bom futebol. Pelas características do elenco, o Tricolor foi o mais prejudicado. A bola não corria e o perigo só no lance isolado. E foi decidido assim: bola alçada de Israel e cabeçada certeira de Marquinhos, garantindo essa importante vitória para o Santa Cruz. Fundamental por ter jogado em casa e que segue para duas partidas longe do Recife.