Da TV aberta ao YouTube: Copa 2026 reinventa as transmissões esportivas no Brasil
Recordes de audiência na internet, transmissões exclusivas e novas linguagens aceleram transformação histórica no consumo esportivo
Publicado: 04/07/2026 às 08:00
Torcida brasileira acompanha jogo da Seleção na Casa Cazé TV, em São Paulo (NELSON ALMEIDA / AFP)
Durante décadas, assistir à Copa do Mundo no Brasil significava ligar a televisão. Mas o Mundial de 2026 está consolidando uma mudança histórica nesse cenário. Pela primeira vez, uma plataforma digital não apenas divide espaço com as emissoras tradicionais, mas se torna protagonista da cobertura.
Com mais de 21 milhões de dispositivos conectados simultaneamente durante a vitória do Brasil sobre o Japão, a CazéTV estabeleceu um recorde mundial de audiência em transmissões esportivas ao vivo no YouTube, algo que vai muito além da tecnologia.
A disputa agora não é apenas pelos direitos de transmissão. É pela forma como o futebol é consumido. Se antes acompanhar uma partida dependia quase exclusivamente da televisão da sala de casa, hoje o público tem a possibilidade de assistir aos jogos em diferentes dispositivos e ambientes.
Smartphones, tablets e notebooks transformaram o Mundial em uma experiência móvel, permitindo que torcedores acompanhem a Seleção Brasileira no trabalho, durante deslocamentos de ônibus ou metrô e até enquanto realizam outras atividades do cotidiano.
O fim de uma era de exclusividade
Durante mais de cinco décadas, a Globo foi a principal porta de entrada da Copa do Mundo para os brasileiros. A emissora moldou a linguagem das transmissões esportivas no país, criou referências narrativas e transformou nomes como Luciano do Valle, Galvão Bueno, Cleber Machado e Luís Roberto em personagens centrais da experiência de acompanhar futebol.
Desde 1970 transmitindo a Copa do Mundo, a emissora construiu uma relação quase inseparável com o principal torneio do futebol mundial, fazendo parte da memória afetiva de gerações de torcedores.
A Copa de 2026, porém, escancarou um cenário completamente diferente.
A CazéTV é a única plataforma brasileira transmitindo os 104 jogos do Mundial, sendo 49 deles com exclusividade. Isso significa que partidas envolvendo seleções tradicionais, incluindo alguns confrontos decisivos da fase de grupos e do mata-mata, só podem ser assistidas pelo YouTube.
O fenômeno simboliza a quebra definitiva da exclusividade que durante décadas esteve concentrada nas grandes emissoras. Se antes o torcedor tinha poucas opções, hoje ele escolhe entre televisão aberta, TV por assinatura, streaming e plataformas digitais.
Na televisão por assinatura, o SporTV oferece cobertura completa, programas especiais, análises e transmissões de partidas selecionadas ao longo da competição.
A cobertura também se estende ao Globoplay, que funciona como porta de entrada para os conteúdos do Grupo Globo no streaming, e à ge tv, projeto digital da emissora que reforça a produção de conteúdo para internet.
Outros players também marcam presença no cenário esportivo brasileiro. A NSports, junto ao SBT, por exemplo, é outra que está presente nas transmissões online da Copa.
O estilo que conquistou os mais jovens
Boa parte do crescimento da CazéTV passa por uma mudança de comportamento do público. Fundada pelo streamer Casimiro Miguel e pela agência LiveMode, a plataforma apostou em uma linguagem distante dos padrões tradicionais da televisão esportiva.
Os narradores interagem com o público, comentaristas usam expressões típicas das redes sociais e quadros como o "Gol de Janela” transformam os próprios torcedores em personagens da transmissão. Outro
Em 2022, durante a Copa do Catar, o recorde da CazéTV havia sido de 6,9 milhões de dispositivos conectados simultaneamente. Em 2026, esse número triplicou.
Nem todo mundo trocou a televisão
Apesar do crescimento explosivo do streaming, a televisão continua sendo a escolha de milhões de brasileiros.
Entre os torcedores mais velhos, a preferência muitas vezes está ligada ao hábito, à familiaridade e principalmente às vozes que marcaram diferentes gerações. No SBT, por exemplo, a presença de Galvão Bueno representa um dos principais atrativos. O narrador participou de 14 coberturas de Copa do Mundo e se tornou uma das vozes mais ligadas à Seleção Brasileira na história.
Para muitos telespectadores, assistir a um jogo decisivo narrado por Galvão ainda remete às lembranças dos títulos de 1994 e 2002.
A própria Globo continua apostando nessa relação histórica construída ao longo de décadas. Mesmo sem a exclusividade dos direitos, a emissora mantém equipes robustas de transmissão, programas especiais e cobertura jornalística extensa.
Para parte do público, especialmente aqueles acostumados ao formato tradicional, a credibilidade dos narradores, a análise mais técnica e a estrutura de produção ainda pesam na escolha.
As emissoras tradicionais também mudaram
A ascensão da CazéTV não transformou apenas o comportamento dos torcedores. Ela também obrigou as emissoras tradicionais a se adaptarem.
Nos últimos anos, a Globo passou a investir mais fortemente em conteúdos digitais, interação com o público e formatos voltados para redes sociais. Um exemplo disso é a GE TV, criada para ampliar a presença digital da marca esportiva do grupo.
Embora ainda tenha alcance inferior ao da CazéTV nas transmissões online da Copa, o movimento mostra que a emissora reconhece a mudança no consumo esportivo.
A linguagem das transmissões também passou por ajustes. Hoje é possível perceber maior descontração, participação de influenciadores e tentativas de aproximação com um público mais jovem, algo que dificilmente era visto nas transmissões esportivas tradicionais há alguns anos.
O modelo da CazéTV também enfrenta críticas. Há espectadores que consideram o estilo excessivamente voltado ao entretenimento e à busca por repercussão nas redes sociais.
Uma nova Copa para uma nova geração
A Copa do Mundo de 2026 pode entrar para a história não apenas pelos resultados dentro de campo, mas também por representar uma mudança definitiva na forma de assistir futebol.
A televisão continua relevante, sustentada por tradição, grandes narradores e décadas de confiança do público.
Ao mesmo tempo, plataformas digitais conquistam espaço ao oferecer interação, acessibilidade e uma linguagem mais próxima das novas gerações.
No fim das contas, a disputa deixou de ser apenas entre emissoras. A escolha agora está nas mãos do torcedor, que pode acompanhar o mesmo jogo por diferentes telas, estilos e experiências.
Com informações da AFP