Copa do Mundo
Análise

Líderes de posse de bola não vencem na estreia

Primeira rodada chega ao fim com tropeços de Portugal, Espanha, Turquia, Suíça e Uruguai. Eficiência nas transições ofensivas tem prevalecido sobre o domínio exagerado

Correio Braziliense

Publicado: 18/06/2026 às 10:46

Pedri, meia da Espanha/ Getty Images via AFP

Pedri, meia da Espanha ( Getty Images via AFP)

A Copa do Mundo costuma ditar tendências, mas também adora derrubar certezas. A primeira rodada do torneio da Fifa chega ao fim nesta quinta-feira (18/6) com uma curiosidade estatística que desafia um dos principais dogmas do futebol moderno: nenhuma das cinco seleções que mais controlaram a posse de bola venceu. Em tempos de culto à circulação da pelota, a competição parece premiar mais a objetividade do que o domínio territorial.

Portugal foi quem mais se aproximou de um monopólio. Embalada pela qualidade técnica de Vitinha, João Neves, Bruno Fernandes e Bernardo Silva, a seleção comandada por Roberto Martínez ficou com 75% da posse contra a República Democrática do Congo. Controlou o ritmo, trocou passes e empurrou o adversário para trás, mas deixou o campo com um frustrante empate por 1 x 1.

A Espanha, herdeira direta do tiki-taka que a levou ao título mundial em 2010, repetiu o roteiro. Com Rodri, Pedri, Dani Olmo e Lamine Yamal, os campeões da Euro trocaram mais de 800 passes diante de Cabo Verde. Houve pressão, volume ofensivo e 28 finalizações. Faltou apenas o gol. O paredão Vozinha sustentou o placar original.

A Turquia também seguiu a cartilha do controle. O talento de Hakan Çalhanoglu e Arda Güler garantiu superioridade técnica e posse prolongada diante da Austrália. O problema foi transformar domínio em eficiência. Os turcos rondaram a área adversária, mas terminaram derrotados por 2 x 0.

A Suíça viveu situação semelhante contra o Catar. Com mais posse e iniciativa ofensiva, os europeus chegaram à frente graças a um pênalti convertido por Embolo. Os anfitriões da última Copa do Mundo não se incomodaram em entregar a bola e esperar o momento certo para atacar. Foram recompensados com o empate nos acréscimos do segundo tempo.

Nem mesmo o Uruguai escapou da armadilha. Dono de um dos meios-campos mais qualificados da competição, com Federico Valverde e Nicolás de la Cruz como referências criativas ainda falta entrar Arrascaeta , a Celeste ficou com 67% da posse diante da Arábia Saudita. O controle da bola, porém, não impediu os sustos. Os sauditas criaram oportunidades para vencer, e coube a Maximiliano Araújo evitar uma estreia ainda mais amarga ao marcar na reta final.

A tendência observada na primeira rodada ajuda a explicar uma discussão. Em vez de disputar a posse de bola, há preferência pela disputa por espaço. Recuam-se as linhas, compacta-se o sistema defensivo e acelera-se a transição assim que recuperam a bola. A Seleção Brasileira tentou ter posse e incomodar Marrocos com pressão na saída, quando a melhor estratégia seria retroceder algumas casas para se segurar nos pontas Vinicius Junior e Raphinha.

O tema apareceu, inclusive, na entrevista coletiva de Danilo nesta quarta-feira. Um dos líderes da Seleção Brasileira admitiu que o país ainda está distante do estágio de maturidade de potências como França, Argentina e Espanha e defendeu uma reflexão sobre a forma de jogar.

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Para o jogador de três Copas do Mundo, o Brasil talvez não precise pressionar tão alto nem assumir o protagonismo o tempo inteiro. Em determinados contextos, abrir mão da posse e atacar os espaços deixados pelo adversário pode ser o caminho mais inteligente.

Temos que usar outros mecanismos. Talvez não pressionar tão alto, abrir mão da posse de bola e o comando do jogo ser do adversário. Isso é maturidade, analisou o lateral.

A primeira rodada da Copa parece reforçar a tese. Portugal, Espanha e Uruguai tiveram a bola. Os adversários tiveram o campo aberto. Em um torneio decidido nos detalhes, eficiência tem valido mais do que domínio. A posse continua sendo um caminho para vencer. Só deixou de ser o único.

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