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Coluna Além da Bola: O jogo de uma nação

A Bósnia celebrou uma classificação apenas três décadas após a guerra que devastou o país

Ricardo Novelino

Publicado: 12/06/2026 às 07:30

Jogadores de Bósnia e Herzegovina
/Reprodução/FIFA

Jogadores de Bósnia e Herzegovina (Reprodução/FIFA)

Em tudo na vida, uma mesma história pode ser contada a partir de vários pontos de vista. No futebol também.

O dia 31 de março deste ano ficou marcado, para grande parte do inconsciente do “planeta bola”, pela já chamada “Tragédia Italiana”. Naquele dia, em uma disputa de pênaltis, a tradicional Azzurra, tetracampeã mundial, perdeu e ficou de fora do Mundial de 2026.

Estava feito. Era a terceira Copa sem o calcio italiano, símbolo de um estilo inconfundível de jogo, forjado em um país que chegou a ter o maior torneio nacional em meados dos anos 80. Tudo bem até a página dois.

A derrota da Itália e o ocaso de um futebol tradicional renderam as manchetes, mas muitos se esqueceram de enaltecer a façanha do vencedor daquela disputa: a Bósnia.

Caso o interesse fosse apenas dentro das quatro linhas, já renderia uma boa história. O país até chegou a uma Copa, justamente a do Brasil, em 2014, e foi eliminado como Bósnia e Herzegovina ainda na primeira fase.

Mas, se for levada em conta a recente epopeia vivida pelos cidadãos daquela nação, a história ganha um H maiúsculo.

Aquele pequeno pedaço da região chamada de Bálcãs já passou por muitos percalços ao longo de centenas de anos. Sofreu dominações de impérios poderosos, viu as grandes guerras bem de perto no século XX e sucumbiu ao comunismo.

Sob o nome da Iugoslávia, atletas tiveram a chance de disputar grandes competições esportivas. Com o fim da União Soviética e o esfacelamento do “mundo vermelho”, a partir dos anos 90, a região vivenciou um dos períodos mais sangrentos de sua história.

Ainda está bem fresco na memória o que aconteceu na Guerra da Bósnia, em meados dos anos 90 do século passado. Talvez a marca mais profunda tenha sido deixada pelo “Cerco de Sarajevo”, com quase 20 mil homens das forças armadas da Sérvia impondo o terror.

Ao menos 12 mil pessoas foram mortas e 50 mil ficaram feridas durante esse cerco. Desse total, 85% das vítimas eram civis.

Ao fim da guerra, com o Tratado de Dayton, em 1995, a Bósnia ressurgiu no mapa, contando com mais de 250 mil mortos, 2,5 milhões de deslocados e a destruição de grande parte de sua infraestrutura.

Diante de tudo isso, vale parar para pensar. Afinal, 31 anos depois dos acordos de paz, uma nação se mostrou pronta para pensar em jogar futebol. E, mais do que isso, disputar uma Copa do Mundo.

A partida contra o Canadá, um dos anfitriões do torneio, está marcada para esta sexta-feira (12).

Esse jogo pode nem ser um primor de técnica e tática, mas tem tudo para valer como história.

Vale voltar ao início e contar o outro lado daquela repescagem contra a Itália. Antes da partida, jogadores italianos foram flagrados comemorando a “classificação” diante do “patinho feio” do futebol.

É bem provável que a Bósnia não seja campeã, mas entrar em uma Copa, depois de tudo o que aconteceu, já merece um troféu.

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