Wellington Dias: "Cerca de 21 milhões de pessoas ascenderam na escala social"
Em entrevista ao Diario, ministro Welligton Dias falou sobre o combate à fome e culpabilizou o desmantelamento de políticas públicas pela insegurança alimentar no solo brasileiro, em 2022
Publicado: 22/07/2026 às 18:45
Wellington Dias, ministro de Desenvolvimento, Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS/Divulgação)
O novo reposicionamento do Brasil no Mapa da Fome, confirmado pelo relatório trianual da FAO-ONU, foi o centro da entrevista do Diario com o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias. Ele atribuiu o resultado ao Plano Brasil Sem Fome, lançado em 2023, que reativou programas de transferência de renda, apoio à agricultura e estímulo ao empreendedorismo. “Os programas levaram 11 anos para alcançar esse objetivo (na primeira vez)”, lembrou o ministro, em referência ao feito de 2014.
Segundo Dias, cerca de 21 milhões de pessoas ascenderam na escala social — saindo da extrema pobreza, da pobreza ou da baixa renda —, e 17,4 milhões passaram a integrar a classe média e alta. Na entrevista, o ministro destacou a articulação multissetorial entre governos e sociedade civil como fator decisivo para transformar crescimento econômico em ascensão social efetiva para as famílias brasileiras e ressaltou a necessidade de mecanismos de proteção institucional e de paz global para evitar retrocessos causados por mudanças na gestão política, crises climáticas ou conflitos internacionais.
Confira a entrevista:
Ministro, para contextualizar, o Brasil havia saído do Mapa da Fome em 2014, mas retornou no triênio 2018-2020. O que conduziu o país a essa posição novamente e o que mudou agora?
O Brasil comemorou realmente em 2014 e ali foram programas que levaram 11 anos para alcançar esse objetivo: a transferência de renda, alimentação escolar, o apoio à agricultura familiar e a segurança na produção. Agora, o que aconteceu é que, ali entre 2017 e 2022, a gente teve a ausência desses programas; todos eles foram cancelados. A população começou a cair para a classe de baixa renda, para a pobreza e extrema pobreza, alcançando em 2021-2022 o patamar de 33,1 milhões de pessoas passando fome. Fizeram com que o Brasil alcançasse o Mapa da Fome.
Lançamos em 2023 o plano Brasil Sem Fome, que na verdade foi trazer de volta um conjunto de programas: o novo Bolsa Família — que agora estimula o emprego e o pequeno negócio —, o programa Acredita e o Plano Safra, com forte apoio aos pequenos produtores, como o Pronaf B. Destaco muito a integração com a educação através do Pé-de-Meia; quando a pessoa se forma no nível técnico ou superior, portas se abrem para um emprego melhor.
O relatório da FAO-ONU aponta que a insegurança alimentar severa caiu para 0,6%, o menor nível da série histórica. Como o senhor interpreta esse dado em relação à mobilidade social?
É um patamar realmente marcante, algo que só é comum em países mais desenvolvidos da Europa ou América do Norte. Esse resultado é fruto de cerca de 21 milhões de pessoas que ascenderam na escala social, saindo da extrema pobreza e da pobreza. O próprio relatório da FAO destaca que o fator econômico — o crescimento da renda e as pessoas indo para o emprego ou para o cooperativismo — foi o que mais impactou para chegarmos nesses 0,6%. Quase 90% das vagas de emprego abertas desde 2023 foram ocupadas pelo público do Cadastro Único e do Bolsa Família.
E o que esse dado representa no contexto global?
A FAO faz esse monitoramento desde 1996. No mundo, tínhamos 750 milhões de pessoas com fome em 2021-2022, e esse número caiu para 645 milhões no triênio encerrado em 2025. O índice de 0,6% no Brasil é uma marca histórica, um patamar comum apenas em países desenvolvidos da Europa e América do Norte.
Sobre esse cenário externo, o senhor mencionou a importância de o Brasil não estar isolado. Como o país tem trabalhado a articulação internacional para garantir que os avanços internos não sejam prejudicados por crises globais?
Essa é uma preocupação central. O mundo tinha 615 milhões de pessoas passando fome em 2015 e, de lá para cá, esse número só vinha aumentando. Por isso, o presidente Lula propôs na presidência do Brasil no G20 a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. É preciso que os países mais ricos coordenem esforços.
Hoje, nossas principais preocupações são as guerras e conflitos, as mudanças climáticas e esses tarifários que afetam o preço do alimento para os mais pobres. O Brasil sofre consequências do que acontece lá fora. Se há conflito no Oriente Médio, temos impacto no preço do petróleo e nos insumos da agricultura, o que afeta o prato de comida aqui. O Brasil está mais preparado agora, temos uma situação de paz, mas essa articulação global é o que vai permitir atingirmos a meta da ONU para 2030.
Trazendo para o país, como é feita a integração com estados e municípios e como eles contribuem para esse resultado?
Nós trabalhamos com dois grandes sistemas integradores que dialogam com os municípios e estados: o Suas (Sistema Único de Assistência Social) e o Sisan (Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), que é o sistema de segurança alimentar. O Sisan articula o setor público, privado e a sociedade civil. Já temos mais de 1.500 municípios no Brasil que aderiram, criaram seus conselhos e fazem seus próprios planos.
A atuação municipal é fundamental para a busca ativa. É lá no município que a gente localiza quem ainda está em situação de insegurança para trazer para a segurança alimentar . O relatório da FAO reconhece que o método brasileiro é eficiente: unimos proteção social (saúde, assistência social, educação) com crescimento econômico (o plano safra na ponta). É o crescimento econômico chegando aos mais pobres, que ocupam as vagas de emprego e os pequenos negócios nas suas cidades
O que garante que o Brasil não voltará ao Mapa da Fome em futuras mudanças de gestão?
Nós criamos o que eu chamo de “colchão de proteção”. No modelo atual do Bolsa Família, se a pessoa consegue um emprego e a renda sobe, ela sai do benefício, mas não sai do Cadastro Único. Se lá na frente ela perder o emprego, ao invés de voltar para a fome, o retorno para o Bolsa Família é automático. É uma regra de proteção que garante segurança.
O plano Brasil Sem Fome vai prosseguir para garantir que governos sigam comprometidos em colocar o pobre no orçamento e garantir que o país, sendo a 10ª economia do mundo e o 4º maior produtor de alimentos, nunca mais volte ao Mapa da Fome.