Governo aposta em saída inédita para enfrentar novo tarifaço dos EUA
Às vésperas da entrada em vigor da sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, Planalto articula apoio a setores afetados, busca novos mercados e tenta se afastar do uso eleitoral, por bolsonaristas, de conflitos diretos com Trump
Rafaela Gonçalves - Correio Braziliense
Publicado: 21/07/2026 às 07:10
Para manter o debate apenas no campo comercial, o ministro Márcio Rosa, do Mdic, coordena as rodadas de negócios com empresários locais (Divulgação/MDic)
Entra em vigor amanhã a tarifa adicional de 25% imposta pelo presidente norte-americano Donald Trump sobre produtos brasileiros. Por enquanto, o governo não fala em medidas de reciprocidade, preferindo o caminho da articulação com o setor produtivo brasileiro para reduzir os prejuízos às empresas que expotam para os Estados Unidos.
Embora enxergue pouco espaço para uma reversão imediata do tarifaço, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende manter abertos os canais de diálogo com Washington e evitar um confronto direto com Trump diante da escalada das tensões comerciais entre os dois países.
A avaliação no Palácio do Planalto é de que uma reação mais incisiva, especialmente no campo político, poderia fortalecer a narrativa defendida pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e por aliados da Casa Branca às vésperas das eleições presidenciais no Brasil. Integrantes do governo afirmam que qualquer embate público tende a ser explorado pelo bolsonarismo como um elemento de polarização eleitoral, deslocando o foco dos impactos econômicos das tarifas.
Nos bastidores, a orientação é separar o debate comercial da disputa política. Interlocutores do governo afirmam que a prioridade é impedir que o tema seja transformado em um embate ideológico entre Lula e Trump, preservando espaço para negociações técnicas conduzidas pelos canais diplomáticos já existentes.
Embora a ordem seja a de não escancarar o confronto, o presidente Lula não deixa de estocar, nos eventos públicos, a família Bolsonaro. Foi o que fez ontem, em discurso na convenção do PDT, que sacramentou o apoio da legenda à sua reeleição. "
Rodadas de negócios
A estratégia do governo será concentrar esforços em negociações diplomáticas e em medidas para reduzir os impactos econômicos do tarifaço. Entre as prioridades estão novas rodadas de consultas com os setores produtivos afetados, a construção de mecanismos de apoio interno e a busca por mercados alternativos capazes de absorver parte das exportações brasileiras que perderem competitividade nos Estados Unidos.
A estratégia combina reuniões com representantes da indústria e do agronegócio, a elaboração de um pacote de apoio e a busca por novos mercados para as exportações brasileiras. Japão, Canadá e Emirados Árabes Unidos estão no radar. Também há expectativa de intensificar conversas com países da Ásia e do Oriente Médio.
A rodada de encontros é coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) e reúne os segmentos mais expostos ao mercado norte-americano. A intenção é mapear os efeitos da sobretaxa sobre a produção, o emprego e os contratos de exportação, além de identificar quais instrumentos de apoio poderão ser acionados para minimizar os impactos.
A nova tarifa deverá atingir aproximadamente 3 mil produtos brasileiros. Pelos cálculos do governo, a medida alcança cerca de 18% das vendas do Brasil para os Estados Unidos, o equivalente a US$ 7,2 bilhões em exportações.
Enquanto o diálogo com o setor privado avança, a equipe econômica trabalha em diferentes frentes. Uma delas é ampliar o acesso a linhas de financiamento e mecanismos de garantia para empresas exportadoras por meio do Plano Brasil Soberano. Outra, é acelerar iniciativas de diversificação de mercados, reduzindo a dependência de segmentos que têm os Estados Unidos como principal destino comercial.
"O governo tem como prioridade atender e apoiar os setores atingidos por essa tarifação injusta, indevida e ilegal. Esses setores poderão contar com o apoio do governo federal por diferentes meios, incluindo a diversificação de mercados", destacou o ministro da Indústria, Márcio Elias Rosana entrevista coletiva na qual o governo falou sobre o assunto, na semana passada.
Especialistas, no entanto, avaliam que essa estratégia tende a amenizar apenas parte dos prejuízos, já que a substituição de destinos comerciais exige tempo e custos adicionais. "O redirecionamento das exportações pode amortecer parte das perdas, mas envolve custos logísticos, contratuais e descontos nos preços", afirma o economista-chefe da Blue3 Investimentos, Roberto Simioni.
O cenário pode se tornar ainda mais desafiador. O governo acompanha a expectativa de que Washington anuncie, na sexta-feira, uma nova tarifa adicional de 12,5%, resultado de uma investigação sobre supostas falhas na fiscalização de produtos relacionados ao trabalho forçado. Caso a medida seja confirmada, parte das exportações brasileiras poderá enfrentar uma sobretaxa acumulada de até 37,5%.
Nos bastidores, integrantes do governo reconhecem que o espaço para uma negociação direta com a administração norte-americana é reduzido neste momento. A avaliação é de que o canal diplomático permanece praticamente paralisado, levando o Planalto a concentrar esforços na construção de medidas internas para amortecer os efeitos das restrições comerciais.
Embora mantenha a Lei da Reciprocidade Econômica entre as alternativas disponíveis, o governo evita estabelecer prazo para uma eventual reação. A orientação é preservar esse instrumento para um momento considerado mais oportuno, mantendo, por ora, a prioridade na interlocução com o setor produtivo e na mitigação dos impactos econômicos.
Pressão fiscal
Se, de um lado, o governo reconhece a necessidade de socorrer os setores mais atingidos, de outro enfrenta o desafio de fazer isso em um ambiente de forte restrição orçamentária. A equipe econômica trabalha para concluir um pacote de apoio, mas procura calibrar as medidas de forma a evitar novos impactos relevantes sobre as contas públicas.
A tendência é que o programa seja mais enxuto do que o lançado anteriormente, de R$ 15 bilhões. Em vez de subsídios amplos, a prioridade deverá recair sobre instrumentos de menor custo fiscal, como linhas de crédito, garantias e reforço a mecanismos já existentes de financiamento às exportações.