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Economia
TARIFAÇO

Governo aposta em apoio a empresas e adia retaliação aos EUA

Em reação à sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, imposta pelos EUA, governo anuncia medidas de compensação para áreas impactadas e rebate acusações de práticas desleais. Segundo Alckmin, ações de reciprocidade serão adotadas "no momento adequado"

Vinicius Doria

Publicado: 17/07/2026 às 06:45

Coletiva no Mdic: Geraldo Alckmin disse que o tarifaço é medida injusta e que os argumentos dos Estados Unidos não são plausíveis/Valter Campanato/Agência Brasil

Coletiva no Mdic: Geraldo Alckmin disse que o tarifaço é medida injusta e que os argumentos dos Estados Unidos não são plausíveis (Valter Campanato/Agência Brasil)

Poucas horas depois de a Casa Branca anunciar a aplicação de tarifas de 25% sobre milhares de produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos, o Palácio do Planalto mobilizou o primeiro escalão da equipe econômica do governo para anunciar medidas de compensação aos setores mais atingidos e rebater as acusações de práticas desleais de comércio que embasaram a aplicação das taxas após investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). Para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), "não há qualquer justificativa para medidas unilaterais" contra o Brasil.

Em longa entrevista à imprensa na sede do Mdic, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin; os ministros da Fazenda, Dario Durigan; das Relações Exteriores, Mauro Vieira; e do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, João Paulo Capobianco; o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; e o anfitrião Márcio Elias Rosa fizeram um balanço dos impactos esperados com o tarifaço e adiantaram medidas que devem ser adotadas para aliviar os prejuízos dos exportadores.

O tom político da reação brasileira foi dado pelo chanceler Mauro Vieira, que considerou a medida dos Estados Unidos "sem lastro com a realidade", motivada por interesses políticos. Ele lembrou que, desde março do ano passado, foram feitas mais de 30 reuniões entre os dois países — que começaram antes mesmo do anúncio do primeiro tarifaço, de 50%, em abril de 2025.

Para o ministro — que fez severas críticas às declarações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (leia mais na página 3) —, "o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações".

Em nota divulgada no início da noite dessa quinta-feira, o Mdic informou que o governo iniciará "imediatamente" os trâmites previstos na Lei de Reciprocidade como resposta ao tarifaço dos EUA. Internamente, porém, não está prevista a adoção de medidas nessa linha enquanto não se esgotarem as negociações diplomáticas e comerciais entre os dois países.

A Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso em abril do ano passado, autoriza o Poder Executivo a aplicar medidas de proteção comercial em resposta a ações unilaterais de países ou blocos econômicos que prejudiquem a competitividade internacional do país. "A Lei de Reciprocidade, aprovada na Câmara e no Senado, é uma possibilidade, e o governo saberá usá-la no momento adequado", frisou Alckmin.

"O presidente Lula nos dará orientação a respeito disso. Nós seguiremos sem baixar a cabeça, sem nos dobrar a interesses estrangeiros. Com isso, vamos seguir protegendo o Pix, o maior símbolo da nossa soberania financeira. Nós seguiremos protegendo a nossa soberania, sem viralatice, e seguiremos protegendo a nossa democracia contra a interferência internacional indevida", reforçou o ministro da Fazenda, Dario Durigan.

Em vez do confronto e da adoção de atos que possam ser interpretados como retaliatórios, o governo prefere manter os canais de diálogo abertos. Por isso, aposta em medidas internas para aliviar o impacto do tarifaço nos setores atingidos — principalmente na indústria, que pode enfrentar dificuldades para escoar a produção com a queda nas vendas para o mercado dos Estados Unidos.

A denúncia de ilegalidade do tarifaço sob a ótica dos acordos internacionais será levada aos organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias.

Linhas de crédito

O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, disse que o governo vai trabalhar para prestar auxílio e diversificar os mercados compradores aos setores incluídos na lista de taxação da Casa Branca. "Os setores mais atingidos, como de madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, mobiliários, produtos cerâmicos, calçados e açúcar, poderão contar com a ajuda do governo federal de diferentes formas, e uma delas é apoiar a diversificação de mercados", informou.

Esses setores poderão acessar linhas de crédito para capital de giro e investimentos e terão ajuda dos órgãos de fomento às exportações para buscar novos mercados.

Segundo o ministro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determinou que o apoio a esses segmentos seja a principal prioridade do governo neste momento. A área técnica do Midc estima que o tarifaço atinja diretamente 2,4 mil empresas, que respondem por 18% do total das exportações brasileiras ao mercado norte-americano — equivalente a US$ 7,4 bilhões (pouco mais de R$ 40 bilhões), segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Mdic.

Uma das principais queixas do governo se refere ao fato de que as autoridades dos EUA ignoraram todas as respostas e explicações dadas pelos negociadores brasileiros em relação às acusações de práticas desleais de comércio.

Na quarta-feira, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) confirmou que milhares de produtos serão sobretaxados em 25% por práticas comerciais consideradas desleais pelo governo Trump. O escritório incluiu na lista de atos passíveis de punição as regras brasileiras para comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico (como o Pix), tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal.

Brasil Soberano

Na entrevista coletiva, o ministro da Fazenda informou que haverá uma readequação do programa Brasil Soberano para que os setores afetados pelo tarifaço possam buscar socorro a prejuízos imediatos que, na ponta, podem representar desemprego. O programa, criado no ano passado como resposta ao primeiro tarifaço imposto pela administração Trump e retomado neste ano com a aprovação de uma medida provisória pelo Congresso Nacional, prevê uma série de ações emergenciais para proteger o setor produtivo de barreiras comerciais tarifárias e não tarifárias impostas por outros países aos produtos exportados pelo Brasil, decorrentes de "razões geopolíticas e de instabilidade internacional".

"Os setores afetados serão, mais uma vez, chamados ao diálogo, e nós ampliaremos e reforçaremos o Plano Brasil Soberano, que dá apoio a quem foi injustamente afetado", explicou Durigan. Ele ressalvou, porém, que a estabilidade macroeconômica "está e estará mantida a despeito da interferência externa dos Estados Unidos". Os recursos para o Novo Brasil Soberano ainda não foram definidos. Na MP aprovada pelo Congresso, foram disponibilizadas linhas de crédito de até R$ 15 bilhões para as empresas exportadoras afetadas.

Confira a matéria no site do Correio Braziliense.

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