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Americanas: entenda a fraude que foi descoberta em 2023

Rede varejista anunciou no início de 2023 que tinha dívidas não reconhecidas de R$ 20 bilhões, mas montante chegou a mais de R$ 40 bilhões

Estadão Conteúdo

Publicado: 25/06/2026 às 12:23

A primeira fase da Operação Disclosure foi deflagrada em junho de 2024/Foto: Divulgação

A primeira fase da Operação Disclosure foi deflagrada em junho de 2024 (Foto: Divulgação)

O ano de 2023 começou bem antes do Carnaval no mercado de capitais: a rede varejista Lojas Americanas veio a público dizer que tinha dívidas não reconhecidas de nada menos do que R$ 20 bilhões. Era 11 de janeiro e os papéis da empresa despencaram 77% em um único dia. Pouco mais de uma semana após o anúncio, com as dívidas reais recalculadas em mais de R$ 40 bilhões, a Americanas pediu recuperação judicial para evitar a falência imediata.

A explicação para a fraude contábil, à época, era de que a Americanas pegava empréstimos com bancos para pagar fornecedores antecipadamente. Em vez de registrar esses empréstimos como dívida bancária (o que aumentaria o endividamento visível), a diretoria reduzia a conta de "fornecedores", escondendo o passivo real. Era o chamado risco sacado, que escondia as "inconsistências contábeis".

Contratos de Verba de Propaganda Cooperada (descontos e incentivos comerciais de fornecedores) eram criados artificialmente. Eles eram lançados no balanço sem lastro econômico real para inflar os lucros operacionais da varejista.

Com os balanços adulterados demonstrando falsos lucros, a cúpula executiva recebia bônus milionários por metas atingidas de forma fraudulenta. Além disso, diretores venderam mais de R$ 200 milhões em ações da empresa meses antes do escândalo vir à tona, configurando o uso de informação privilegiada (o chamado insider trading).

Nova operação

Com a deflagração da nova fase da Operação Disclosure, a Polícia Federal ampliou o escopo da investigação. Se até então as figuras centrais eram o ex-CEO Miguel Gutierrez e a ex-diretora Anna Saicali, agora as investigações miram pessoas ligadas aos acionistas de referência. Entre os alvos dos mandados de busca e apreensão estão o empresário Beto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann. Procurados, eles e as Americanas não responderam a pedidos de entrevista.

A operação também atinge executivos dos bancos Itaú, Bradesco e Santander, além de ex-integrantes do conselho de administração da companhia. A Justiça determinou o bloqueio e sequestro de até R$ 54 bilhões em bens dos investigados. Itaú e Santander dizem cooperar com as investigações (leia posicionamento completo abaixo). O Bradesco não respondeu ao pedido de entrevista.

Na prática, enquanto o início do escândalo tratava a fraude como uma ação isolada da diretoria executiva, a nova fase das investigações muda o patamar da crise ao apontar para a possível cumplicidade de quem estava no topo da pirâmide e do sistema financeiro.

Após a ofensiva da PF, a Americanas informou que "seguirá colaborando com as investigações" e afirmou ser "a maior interessada no esclarecimento dos fatos". A reportagem busca contato com a defesa de todos os alvos da investigação. O espaço está aberto para manifestação.

O que os bancos dizem

O Santander afirmou, em nota, que está "ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes envolvendo a Americanas e segue colaborando com as autoridades competentes, como tem feito desde o início das apurações". "A instituição reitera seu compromisso com a ética, a transparência e o estrito cumprimento da regulamentação em suas operações."

Já o Itaú Unibanco disse que, embora não seja investigado, "colabora ativamente com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações sobre o caso Americanas".

"O banco, que sofreu perdas bilionárias com o episódio, já comprovou a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários por meio de documentos apresentados à Justiça. Os registros deixam claro, por exemplo, que o Itaú recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços. A instituição reitera que sempre atuou com rigor ético e regulatório, apoiando e confiando no trabalho das autoridades para a elucidação definitiva das irregularidades praticadas pela antiga administração da varejista."

O Bradesco disse que acompanha a operação e que está à disposição das autoridades.

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