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CONJUNTURA

Cenário externo pressiona dólar e real tem nova desvalorização

Atenções estão voltadas para o incipiente acordo de paz entre os EUA e Irã. Ainda há dúvidas sobre um novo corte na Selic

Rosana Hessel - Correio Braziliense

Publicado: 19/06/2026 às 08:57

Bolsa de Nova York operou no azul na quinta-feira e fechou com uma alta de 0,14%, enquanto no Brasil, o ibovespa registrou queda de 0,1%/Michael M. Santiago / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)

Bolsa de Nova York operou no azul na quinta-feira e fechou com uma alta de 0,14%, enquanto no Brasil, o ibovespa registrou queda de 0,1% (Michael M. Santiago / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP))

Um dia após a decisão do Banco Central reduzir a taxa básica da economia (Selic) em mais 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, o mercado deu sinais de que está mais preocupado com o cenário externo. Os analistas têm opiniões divididas sobre o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, mas as atenções dos investidores estavam mais voltadas para o memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irã. A iminência de uma trégua no Oriente Médio ajudou a pressionar o dólar e colocar o real entre as moedas emergentes mais desvalorizadas do dia de ontem.

Os preços do barril do petróleo ficaram abaixo do patamar de US$ 80, enquanto o dólar encerrou o dia com valorização de 1,32%, cotado a R$ 5,172 para a venda. Na semana, a divisa norte-americana acumula valorização de 2,25% e de 2,62% em junho. No ano, as perdas, que chegaram a superar 10%, no início de maio, agora são de 5,72%.

A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) andou de lado e encerrou o pregão de ontem com queda de 0,1%, aos 168.277 pontos, enquanto Nova York operou no azul. A Nasdaq, a bolsa das empresas de tecnologia, avançou 1,91%, e o Índice Dow Jones subiu 0,14%. Contribuíram para esse resultado a decisão unânime do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) de manter os juros no patamar de 3,50% a 3,75% ao ano e a sinalização de que a autoridade monetária não deve mais cortar os juros devido à piora do quadro inflacionário.

De acordo com o economista-chefe do Banco BV Roberto Padovani, o Copom foi um fator adicional para o comportamento do mercado que voltou a prever aumento de juros nos Estados Unidos. "Há muitos fatores globais. Tem muito investidor desarmando posição comprada em real desde que o acordo foi anunciado e há fatores globais pesando por conta do Fed, pois há uma expectativa de que os juros norte-americanos voltem a subir", explicou.

Para Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, o mercado ficou bastante dividido, ontem, com o comunicado do Copom. "A diferença é que nessa reunião realmente houve novidades, e, nas últimas, o BC ficou aumentando pequenas modificações. Mas a sensação é que o Copom ainda faz mais um corte", afirmou ele, reconhecendo que as atenções estavam mais voltadas para as negociações do acordo no Oriente Médio. Ele disse que torce para que a reabertura no Estreito de Ormuz seja normalizada. "Já prometeram muitas datas no passado. Esperamos que saia de verdade", acrescentou.

Piora nas projeções
O comunicado do Copom de quarta-feira, segundo os analistas, deixou aberta a porta para um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na próxima reunião de agosto, apesar da deterioração nas projeções para a inflação. Pelas novas projeções, o Comitê passou a prever inflação no fim deste ano de 5,2% e, para o quarto trimestre de 2027, o chamado horizonte relevante monitorado pelo Copom, de 3,7%. Na reunião de abril, as previsões do BC para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estavam em 4,6% e 3,5%, respectivamente.

Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, destacou que a piora nas estimativas refletiu, principalmente, a incorporação dos choques de oferta associados à elevação dos preços do petróleo e seus derivados, em meio às tensões no Oriente Médio, além dos efeitos de eventos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia.

Para Lima, o comunicado do Copom mantém aberta a possibilidade de continuidade do ciclo de afrouxamento monetário. Ao mesmo tempo, avalia o especialista, o BC reiterou que permanece elevada a incerteza em torno dos condicionantes incorporados aos modelos de projeção, o que sugere que as estimativas atuais ainda estão sujeitas a revisões. Lima prevê mais dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa Selic neste ano. Com isso, os juros devem encerrar dezembro em 13,75% anuais.

Na visão do economista e professor da Universidade de São Paulo (USP) José Francisco Lima Gonçalves, os juros e o dólar subiram com a mensagem do Copom sobre seus próximos passos dependerem dos eventos futuros. "O pessoal esperava o anúncio de interrupção do ciclo de queda da Selic. Mesmo reconhecendo que a atividade econômica não está tão fraca, que as expectativas seguem sendo ancoradas e que os estímulos ao consumo das famílias preocupam, o comitê manteve seu balanço de riscos neutro. Para ele, ainda não está claro se haverá espaço para novos cortes na taxa de juros, porque isso ainda vai depender dos dados nas próximas reuniões. "Se tem espaço, só saberemos a cada reunião", explicou.

Gonçalves reconheceu que a piora do quadro fiscal tende a dificultar o trabalho do Banco Central na condução da política monetária. De fato, as contas públicas seguem desequilibradas. Conforme dados do Tesouro Nacional, de janeiro a abril, as despesas cresceram 14% acima da inflação na comparação com o mesmo período de 2024. Enquanto isso, as receitas, avançaram 4%, na mesma base de comparação, e a tendência é de piora ao longo do ano por conta da perspectiva de aumento de gastos em ano eleitoral.

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