Invasão da Venezuela pelos EUA deve refletir na economia do Brasil
Especialistas apontam que invasão dos EUA ao regime de Maduro terá impactos no petróleo, pode refletir na redução de preços de produtos para os brasileiros e até auxiliar na queda da inflação
Publicado: 11/01/2026 às 22:00
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Foto: SAUL LOEB / AFP)
A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e as incertezas econômicas na América Latina provocadas pela derrubada do regime de Nicolás Maduro podem impactar na redução de preços da Petrobrás, diante do controle do Petróleo pelos EUA. De acordo com especialistas, se por um lado, as decisões dos EUA podem trazer riscos para o setor brasileiro de combustíveis, por outro, podem refletir na redução dos preços dos produtos para o consumidor brasileiro e até auxiliar na queda da inflação.
Segundo o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fernando Brancoli, a tendência é que a economia brasileira sinta, de forma indireta, os impactos da invasão da Venezuela pelos Estados Unidos. Para ele, a estratégia estadunidense sobre o valor do petróleo pode fazer com que os preços dos produtos, no geral, caiam no Brasil. “Se a aposta for usar o petróleo venezuelano para ampliar a oferta global, isso pode reduzir preços internacionais, o que ajuda a inflação doméstica e o consumidor brasileiro, mas gera efeitos ambíguos sobre investimento e arrecadação no setor de energia”, pontua.
Ele explica que, de forma gradual, uma queda na oferta mundial do preço do barril tende a reduzir o preço de combustíveis como gasolina e diesel no Brasil. “Combustível mais barato reduz custo de transporte e logística, o que se espalha por vários preços da economia, de alimentos a serviços. Com menos pressão nos preços de energia, a inflação fica mais comportada e o Banco Central tem menos necessidade de apertar os juros, fazendo com que o consumidor sinta algum alívio no bolso, seja no posto de gasolina, ou no custo de vida em geral”, destaca.
Queda do preço do petróleo
Na visão do professor de Relações Internacionais da ESPM e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (Nenam) da mesma instituição, Roberto Uebel, o único impacto para a economia do Brasil deve ocorrer diante de uma eventual queda do preço do petróleo, algo que está nos planos de Donald Trump, que espera, por exemplo, que o barril chegue a US$ 50. “Isso poderia ter algum impacto para nós, no longo prazo, nos combustíveis, no frete e até mesmo na demanda de petróleo por parte da Petrobras”, analisa.
“A América do Sul passa a ser percebida como um espaço mais instável, o que pressiona câmbio, expectativas inflacionárias e custo de financiamento, ainda que o Brasil não seja parte do conflito”, destaca Brancoli.
Já segundo Uebel, o Brasil corre um risco maior se tiver alguma incursão dos Estados Unidos na Colômbia, no México ou até mesmo na Groenlândia, já que são países com maior relação comercial com o governo brasileiro.
Rela comercial entre o Brasil e China
Na visão de Brancoli, a instabilidade abre espaço para o Brasil reforçar a diversificação de parcerias, inclusive com a China, o que deve ser feito de forma diplomática, pois pode representar uma ameaça ao país sulamericano. “A oportunidade é ampliar a cooperação comercial, financeira e tecnológica com a China em um momento de rearranjo regional. O risco é transformar essa aproximação em um gesto político ostensivo que provoque reação direta de Washington”, explica.
Relação entre Brasil e Venezuela
Na análise de Uebel, a previsão de um impacto econômico para o Brasil ainda é muito reduzido ou ainda amenizado pela dinâmica internacional. “A Venezuela não é um parceiro comercial estratégico do Brasil. Então, me parece que não vai haver esse impacto no curto e no médio prazo”, destaca.
Ele explica que, se tratando da relação entre comercial entre os países, não há riscos, já que o Brasil possui superávit comercial com a Venezuela, uma relação ainda muito restrita pelos desafios logísticos. O professor explica que há apenas uma estrada em Roraima que liga o território brasileiro ao país, o que encarece o custo do frete.