Um pé fossilizado descoberto na Etiópia há mais de dez anos acaba de ter sua espécie identificada. De acordo com um estudo publicado em 25 de novembro na revista Nature, o fóssil conhecido como “pé de Burtele” era do Australopithecus deyiremeda, hominíneo que teria existido cerca de 3,4 milhões de anos atrás.
Retirado do solo em 2009, na região de Afar, o fóssil só recebeu uma classificação em 2025, já que sua anatomia intrigante dificultava a identificação da espécie. Ele reunia um andar ereto sobre as duas pernas, traço mais moderno, e ao mesmo tempo um dedão do pé capaz de se opor aos demais, característica primitiva ligada à escalada em árvores — combinação que confundiu os pesquisadores por anos.
A dupla identidade do antigo caminhar
O A. deyiremeda apresentava dentes caninos reduzidos, semelhantes aos de Australopithecus afarensis, a espécie de Lucy, mas mantinha um hálux opositor — aquele dedão capaz de se agarrar em galhos. Isso significava que o hominíneo pisava firme no chão enquanto preservava habilidades arbóreas que seus parentes mais famosos já haviam deixado para trás.
A forma como esse ancestral se movia era distinta da de Lucy. Embora Lucy fosse totalmente bípede, o A. deyiremeda caminhava ereto no solo, mas mantinha a capacidade de agarrar galhos com o dedão.
O diretor do Instituto de Origens Humanas da Universidade Estadual do Arizona e paleoantropólogo Yohannes Haile-Selassie afirmou que, apesar de o bipedalismo ter sido decisivo para a trajetória evolutiva humana, ele se manifestou de formas distintas entre os hominíneos.
Respostas enterradas no mesmo sítio
A solução do mistério veio quando a equipe retornou ao sítio arqueológico de Woranso-Mille. Ali, encontrou 13 fragmentos adicionais de dentes e mandíbulas na mesma camada geológica e espaço físico do pé enigmático.
Com base nessa coincidência, os autores do estudo se sentiram seguros para atribuir o fóssil ao A. deyiremeda. Ainda assim, o consenso permanece incompleto. Parte da comunidade científica questiona a classificação, enquanto outros especialistas veem nessa confirmação uma oportunidade para compreender como espécies distintas de hominíneos ocuparam a mesma paisagem, possivelmente disputando os mesmos recursos naturais.
Uma evolução com múltiplos caminhos
O episódio reforça uma lição importante: a transição para o bipedalismo pleno não seguiu um único roteiro. Quando Lucy foi descoberta em 1975, sua anatomia pareceu indicar que os ancestrais humanos haviam deixado completamente a vida nas árvores — uma ideia que o pé de Burtele agora questiona.
A descoberta reacende o debate sobre os primeiros capítulos da evolução humana. Mostra que, enquanto certos ancestrais desciam das árvores de forma definitiva, outros hominíneos, como o dono deste pé, ainda recorriam à vida arborícola para sobreviver. Eles mantinham uma dupla competência que os tornava únicos em seu tempo.










