Em 2016, uma forte estiagem baixou o nível de um lago na província tailandesa de Chaiyaphum e deixou à mostra formações estranhas no leito seco, notadas por um morador da região. Um morador local acionou o Departamento de Recursos Minerais da Tailândia, e o caso deu origem a um trabalho de investigação que se estendeu por quase dez anos até resultar na identificação do maior dinossauro já registrado no Sudeste Asiático.
O material encontrado no leito do lago correspondia a restos fossilizados de um enorme saurópode, dinossauro herbívoro do grupo marcado pelo pescoço e pela cauda alongados. Pesquisadores tailandeses e britânicos, entre eles cientistas ligados ao University College London, batizaram o animal de Nagatitan chaiyaphumensis e apresentaram a nova espécie em artigo publicado na revista Scientific Reports.
Um gigante entre os saurópodes
O conjunto de fósseis recuperados inclui vértebras, costelas, fragmentos da pélvis e ossos das patas dianteiras e traseiras. Um úmero de 1,78 metro chamou atenção: tinha quase a altura de uma pessoa adulta e surpreendeu os paleontólogos pela escala do achado.
Com base nas proporções dos ossos, os cientistas calcularam que o animal media aproximadamente 27 metros de comprimento. O peso foi estimado em 27 toneladas, quase o dobro do de outras espécies de saurópodes já registradas na Tailândia.
Já um Tyrannosaurus rex adulto pesava entre 9.000 e 15.000 libras (cerca de 4 a 7 toneladas) e tinha pouco mais de 12 metros de comprimento.
Origem e época do animal
O Nagatitan pertencia especificamente aos titanossauriformes, linhagem de saurópodes que dominou diferentes partes do planeta durante o período Cretáceo. Esses dinossauros herbívoros, caracterizados pelo pescoço comprido, pernas grossas e torso volumoso, foram os maiores animais a caminhar sobre a terra — a mesma linhagem que inclui o Diplodoco e o Brontossauro.
A datação indica que o animal viveu na região entre 100 milhões e 120 milhões de anos atrás, durante o período Cretáceo. Naquele período, a paisagem tailandesa era seca e semelhante a savanas, marcada por rios extensos e vegetação adaptada a temperaturas elevadas, bem diferente do clima tropical atual.
A camada rochosa onde os ossos foram achados, chamada formação Khok Kruat, está entre as mais recentes do país com registro confirmado de dinossauros terrestres.
Trabalho de campo e descoberta
Pesquisadores fizeram as primeiras buscas na margem do lago entre 2016 e 2019, quando retiraram boa parte do material do solo rachado pela estiagem. Novas escavações no mesmo ponto aconteceram em 2024, ampliando o conjunto de peças disponíveis para análise.
O projeto reuniu equipes do University College London e de três instituições tailandesas: o Departamento de Recursos Minerais, a Universidade Mahasarakham e a Universidade de Tecnologia de Suranaree. A equipe fez digitalizações em 3D dos ossos da perna, da coluna, das costelas e da pélvis antes de publicar as conclusões na revista Scientific Reports.
Segundo o doutorando Thitiwoot Sethapanichsakul, principal autor do estudo pelo University College London, a escala do achado surpreendeu a equipe. Em entrevista ao O Globo, ele disse que o úmero era mais alto do que ele próprio. A comparação reforça que o dinossauro tinha até o dobro do tamanho de outras espécies de saurópodes já registradas no país.
O termo “naga” no nome refere-se a uma serpente mitológica do folclore do sul e sudeste da Ásia, frequentemente associada à água — uma referência apropriada para um dinossauro encontrado na margem de um lago comunitário. Já a segunda parte do nome, “titan”, faz alusão aos gigantes da mitologia grega em referência ao porte do animal, e “chaiyaphumensis” identifica a província tailandesa onde ele foi encontrado.
Por isso, a espécie é chamada de “último titã”: ela pode representar um dos últimos grandes saurópodes a ocupar aquela região antes de mudanças significativas na paisagem local que transformaram o território em ambiente costeiro.










