Astrônomos detectaram pela primeira vez uma camada gasosa envolvendo o exoplaneta rochoso GJ 1132b, de tamanho aproximado ao da Terra e localizado fora do Sistema Solar. O planeta tem 1,4 vez o diâmetro terrestre e orbita a 39 anos-luz, na constelação de Vela. Sua atmosfera contém vapor d’água, metano ou uma combinação dos dois gases.
A descoberta, publicada no Astronomical Journal, representa um avanço na busca por sinais de vida além do Sistema Solar, porque identificar e caracterizar atmosferas de mundos rochosos distantes é essencial para compreender a diversidade de planetas do universo.
Apesar disso, o GJ 1132b apresenta condições hostis: sua superfície atinge 370°C, temperatura que torna impossível a existência de qualquer forma de vida conhecida naquele ambiente.
Temperatura proibitiva para vida
O calor extremo do planeta descarta a possibilidade de habitação. Um pesquisador da Keele University informou à BBC que o limite máximo que organismos vivos conseguem suportar na Terra é 120°C, uma fração dos 370°C registrados na superfície do GJ 1132b.
O planeta foi identificado em 2015 e despertou interesse científico exatamente por sua similaridade com a Terra em termos de tamanho, embora orbite uma estrela muito menor, mais fria e menos luminosa que o nosso Sol.
A possibilidade de o planeta perder e regenerar a atmosfera dificulta sua compreensão. Evidências sugerem que o GJ 1132b pode ter perdido uma atmosfera primária, composta por hidrogênio e hélio, e depois desenvolvido uma atmosfera secundária por meio de processos vulcânicos. Esse ciclo contradiz a expectativa de que planetas submetidos a intensa radiação estelar não conseguiriam reter atmosferas.
Como os pesquisadores identificaram os gases
A equipe usou um telescópio de alta precisão do Observatório Europeu do Sul, no Chile, para observar o planeta quando ele passa diante de sua estrela.
Quando o GJ 1132b bloqueia parte da luz emitida pela estrela, a redução no brilho oferece pistas sobre a composição química da atmosfera. A técnica é amplamente usada para localizar e caracterizar exoplanetas distantes.
Cada molécula gasosa absorve a luz de uma forma específica, funcionando como uma impressão digital química. Ao analisar esse padrão, os cientistas concluíram que o GJ 1132b abriga vapor d’água e metano em sua atmosfera. Uma das possibilidades levantadas é que o planeta seja um mundo aquático, embora as condições extremas tornem essa hipótese puramente teórica.
Implicações para a busca por vida extraterrestre
Mesmo sem potencial para abrigar vida, o achado amplia a compreensão científica sobre mundos rochosos. A descoberta demonstra que planetas que orbitam estrelas de menor massa — comuns no universo — também conseguem manter atmosferas próprias. Quanto maior a quantidade de planetas com essas características, maior a probabilidade estatística de que alguns apresentem condições favoráveis à vida.
Marek Kukula, astrônomo do Observatório Real de Greenwich, no Reino Unido, disse à BBC que a descoberta representa uma boa prova de conceito, e que, se a tecnologia atual é capaz de detectar essa atmosfera, ela também poderá, no futuro, detectar e estudar atmosferas de planetas ainda mais parecidos com a Terra e situados a distâncias maiores.
O GJ 1132b integra o catálogo de referências para o estudo de atmosferas fora do Sistema Solar e pode contribuir para investigações mais refinadas de mundos rochosos em outras regiões da galáxia.










