Uma pedreira localizada perto de Turvo, em Santa Catarina, revelou rastros de um animal que amplia o que se sabia sobre os mamíferos da era dos dinossauros. Com cerca de 130 milhões de anos, as marcas pertencem a um bicho de até 1,55 metro de comprimento — medida jamais associada a um mamífero daquele período.
O achado está na Formação Botucatu, unidade geológica que se estende por partes de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Até esse registro, prevalecia a ideia de que os mamíferos do Cretáceo não passavam do tamanho de pequenos felinos. A formação preserva um deserto de dunas com mais de 130 milhões de anos.
Na época, ele abrangia áreas do Brasil e da África, que ainda formavam o supercontinente Gondwana. As pegadas mais largas medem 11,4 cm de comprimento por 13,4 cm de largura, e a passada era de cerca de 40 cm. A combinação dessas medidas e da distância entre os passos convenceu os autores de que as marcas vieram de patas de mamíferos, e não de dinossauros.
1. O animal que superou o padrão esperado
O porte estimado pelas pegadas equivale ao de um cão grande ou de um puma e supera o que se imaginava possível para um mamífero que convivia com dinossauros. Esse tamanho sugere que o animal ocupava um lugar de destaque na cadeia alimentar da região. Acredita-se que fosse um onívoro capaz de caçar dinossauros de pequeno porte ou filhotes.
A classificação ainda é provisória: a equipe atribuiu os rastros à família Chelichnopodidae, grupo definido a partir de pegadas fósseis de mamíferos, sem identificar uma espécie específica. Uma hipótese é que a escassez de dinossauros grandes naquele deserto tenha aberto espaço ecológico para que mamíferos como esse atingissem um porte maior que o esperado.
2. Um mistério sem esqueleto encontrado
Nenhum osso do animal apareceu até agora, o que intriga os próprios responsáveis pela descoberta. De acordo com o pesquisador Hermínio Ismael de Araújo-Júnior, foi apontada uma ausência de ossos como um dos pontos mais intrigantes do achado. Ele informou que o Brasil não tem fósseis corporais de mamaliformes em rochas do Jurássico ou do Cretáceo Inferior e que o registro esquelético desse grupo em todo o Gondwana é escasso.
Por conta disso, as pegadas de Botucatu são importantes por revelarem animais ausentes do registro fóssil esquelético brasileiro. As condições do deserto favoreceram a preservação das pegadas, mas não a dos esqueletos. Araújo-Júnior também informou que a expectativa tradicional de que os mamaliaformes mesozoicos eram predominantemente pequenos poderia influenciar a interpretação de pegadas incomumente grandes ou de fósseis fragmentários.
O estudo foi publicado em 1º de agosto no Journal of South American Earth Sciences por pesquisadores de universidades federais brasileiras. A ausência de ossos mantém em aberto qual espécie deixou essas marcas na antiga Formação Botucatu.










