O Brasil reconheceu oficialmente em 2019 o Sistema Costeiro-Marinho, um bioma que permanecia invisível nos mapas e se estende dos mangues do litoral amazônico às águas profundas além da plataforma continental. A região reúne uma biodiversidade distribuída por ecossistemas tão distintos quanto recifes biogênicos, costões rochosos e manguezais.
Entre os animais gigantes que habitam o Sistema Costeiro-Marinho brasileiro estão as baleias-jubarte, que podem alcançar cerca de 16 metros de comprimento e pesar mais de 30 toneladas. Esses mamíferos percorrem milhares de quilômetros durante suas migrações e utilizam áreas do litoral brasileiro para reprodução. Além delas, tubarões-baleia, considerados os maiores peixes do mundo, também aparecem em águas brasileiras e podem ultrapassar 12 metros de comprimento.
O bioma também abriga espécies menos conhecidas, como o peixe-morcego, que utiliza suas nadadeiras adaptadas para se locomover pelo fundo do mar, e o cavalo-marinho, encontrado em ambientes costeiros protegidos. Nas regiões mais profundas, vivem ainda diferentes espécies de polvos, crustáceos e peixes adaptados à baixa luminosidade e às elevadas pressões, revelando uma diversidade de animais que permanece pouco conhecida pela população.
Considerado todo o território marítimo brasileiro, o bioma ocupa aproximadamente 4,5 milhões de quilômetros quadrados, mais da metade do território terrestre do país. Só a parte continental — formada por mangues, restingas, praias arenosas, estuários e costões rochosos — soma quase 195 mil quilômetros quadrados, área superior à do Pampa inteiro.
Por que o bioma precisava de reconhecimento
Antes de 2019, a ausência de uma categoria própria abria lacunas na proteção ambiental. Um manguezal em Alagoas, por exemplo, era classificado apenas como Mata Atlântica, apesar de ocupar simultaneamente áreas da Caatinga e da costa amazônica.
Clemente Coelho Junior, professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Pernambuco, explica que essa sobreposição deixava o ecossistema em um “buraco” entre as definições de biomas.
Houve tentativas de desmatamento de mangues em regiões de Caatinga porque o entendimento anterior era que esse ecossistema pertencia exclusivamente à Mata Atlântica. O reconhecimento do Sistema Costeiro-Marinho como bioma próprio garantiu proteção legal a toda a extensão costeira, porque os manguezais passaram a ser considerados áreas de proteção permanente em sua totalidade.
Complexidade de um ambiente único
O ambiente costeiro-marinho brasileiro é tão vasto e variado que diferentes órgãos o dividem de formas distintas. O IBGE lista quatro plataformas ao longo do litoral, enquanto o programa Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva, da Marinha, identifica três.
Otto Gadig, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista em São Vicente, descreve o sistema como “enorme, rico, diverso e com uma interface absurda com a parte terrestre”.
A geografia muda significativamente de norte a sul, e da região amazônica até o Espírito Santo predominam recifes biogênicos formados por algas calcárias, semelhantes aos de Porto Seguro, em águas mais quentes.
A partir do Espírito Santo em direção ao sul surgem costões rochosos, ilhas costeiras e o fenômeno da ressurgência no litoral carioca, que torna as águas mais frias e atrai espécies diferentes.
Tesouros Vivos escondidos nas águas
O Catálogo das Espécies de Peixes Marinhos do Brasil , publicado em 2003, registra 1.297 espécies de peixes no Sistema Costeiro-Marinho. Um artigo de 2018 aponta 733 espécies exclusivamente marinhas, das quais 111 são endêmicas da região que engloba as costas brasileira e argentina. Entre essas espécies, 100 estão ameaçadas de extinção e 19 são endêmicas.
Uma das espécies mais notáveis é a Laminaria abyssalis , única alga castanha do gênero Laminaria encontrada no Brasil. Endêmica do litoral do Espírito Santo, essa alga de clima frio cresce entre 45 e 120 metros de profundidade graças à ressurgência de Águas Frias.
Os pescadores locais chamam as áreas onde elas crescem de “mares de bananeiras”, por causa dos largos frondes, equivalentes a folhas.
O site Flora do Brasil registra 762 espécies de macroalgas no país, número que deve se aproximar de 800 atualmente. O sistema também inclui crustáceos, moluscos, mamíferos marinhos e aves. As microalgas formam o fitoplâncton, do qual são conhecidas 1.250 espécies no Brasil.
Esses organismos são essenciais: responsáveis pela produção de metade do oxigênio do planeta, sustentam toda a cadeia alimentar dos oceanos. Apesar dessa diversidade, o Sistema Costeiro-Marinho permanece pouco estudado e conhecido pelo público brasileiro. Seu reconhecimento oficial como sétimo bioma avança na categorização científica e garante que futuras políticas de conservação considerem a complexidade de cada ecossistema que o integra.










