Em meio ao pior momento financeiro de sua história recente, a Volkswagen avalia eliminar até 100 mil postos de trabalho e encerrar atividades em fábricas alemãs. O presidente-executivo Oliver Blume apresentou o programa de redução de gastos aos funcionários em uma série de nove encontros, iniciados nesta semana, distribuídos pelas principais unidades da montadora na Alemanha.
A maior montadora europeia enfrenta o avanço de rivais chineses em outros mercados, o descompasso na eletrificação da frota e um modelo de produção considerado excessivamente pesado. As entregas da companhia caíram 8,6% no segundo trimestre, a maior queda em quatro anos.
O primeiro desses encontros aconteceu em Wolfsburg nesta terça-feira (01/09). Outras oito devem ocorrer até o fim da semana, em unidades como Emden, Zwickau, Braunschweig e Hannover. A direção já havia negociado cerca de 50 mil cortes por meio de desligamentos voluntários, mas agora avalia que outros 50 mil postos precisam sair da folha de pagamento.
Estrutura pesada na crise da Volkswagen europeia
Quase 630 mil pessoas trabalham hoje na Volkswagen, e esse contingente cresceu à medida que a empresa passou a controlar mais etapas da cadeia produtiva. De peças a softwares, e a reunir marcas como Skoda, Porsche, SEAT e Bugatti sob o mesmo guarda-chuva. Essa estrutura concentra custos elevados que comprometem a margem operacional da companhia.
A montadora reconhece que a produção europeia superou em cerca de meio milhão de unidades por ano o que o mercado consegue absorver. A demora para investir nos carros elétricos custou caro justamente quando fabricantes chineses avançaram na China, mercado que já foi o principal destino das vendas da marca alemã.
Governança trava a reestruturação
Um obstáculo interno também dificulta a mudança de rumo: no mês passado, os membros do conselho de supervisão negaram aval à segunda leva de medidas de redução de gastos apresentada pela diretoria. Representantes dos trabalhadores e o governo da Baixa Saxônia controlam boa parte dos assentos no conselho.
Segundo relatos da imprensa alemã, o estado, que detém 20% dos direitos de voto, recusou-se a aprovar os planos. O governador Olaf Lies afirmou que, para ele, o importante era encontrar soluções conjuntas. Isso limita a margem de manobra de Blume diante da urgência financeira.
Fechar fábricas alemãs era tratado até pouco tempo como último recurso, mas a diretoria já admite não enxergar caminho para manter essas unidades lucrativas ao longo da década de 2030. Outras fabricantes também criticam os custos de produzir na Alemanha. O presidente-executivo da Mercedes-Benz, Ola Källenius, citou uma diferença de 70% nos custos de operação entre a Hungria e a Alemanha.
Sindicatos ameaçam endurecer o embate
Trabalhadores da Volkswagen figuram entre os mais bem remunerados do setor automotivo mundial, resultado direto da força histórica dos sindicatos e dos conselhos internos de representação. A reação a este novo pacote de cortes tende a ser dura.
Durante o encontro em Wolfsburg, a presidente do conselho de trabalhadores, Daniela Cavallo, afirmou que a confiança na diretoria de Blume foi abalada, embora ainda não de maneira irreparável. Sindicatos já sinalizaram disposição para ampliar protestos caso a empresa tente rever compromissos firmados sobre segurança no emprego.
O impasse coloca a Volkswagen diante de uma escolha difícil: cortar cerca de 100 mil vagas significa confronto direto com sindicatos fortes e cidades que dependem economicamente das fábricas. Por outro lado, manter a estrutura atual, segundo a própria diretoria, pode levar a empresa à insolvência.
Blume elaborou o plano Target Vision 2030, que chamou de maior plano de transformação da história do Grupo Volkswagen. A proposta pretende reduzir pela metade a linha de modelos e cortar despesas administrativas. Especialmente na Alemanha, além de diminuir a meta global de produção de cerca de 11 milhões de veículos por ano, pico registrado em 2018, para 9 milhões.










