No Egito antigo, equipes encarregadas de erguer tumbas reais suspenderam as atividades depois que a entrega dos mantimentos usados para remunerá-las deixou de ocorrer no prazo esperado. O fato aconteceu há mais de três milênios, no período em que Ramsés III governava o Egito. A paralisação foi anotada no chamado Papiro da Greve de Turim, considerado um dos mais antigos registros escritos de uma interrupção coletiva de trabalho.
Quem executava esse trabalho morava em Deir el-Medina, vilarejo erguido justamente para reunir os profissionais encarregados de cavar e ornamentar os túmulos do Vale dos Reis. Esses artesãos pertenciam a famílias que exerciam o ofício havia gerações e estavam entre as categorias mais bem remuneradas do Egito. O pagamento, porém, era feito com rações de grãos e outros mantimentos, não em moeda.
O atraso que transformou comida em conflito
No ano 29 do governo de Ramsés III, equipes inteiras deixaram os canteiros e atravessaram os pontos de controle da região reclamando de fome. Elas se instalaram perto de templos funerários ligados à necrópole e recusaram voltar enquanto o atraso nas provisões — que se prolongava por quase um mês — não fosse resolvido.
O escriba Amennakht registrou em hierático o que se passou entre os artesãos e os administradores locais. Identificado com o código Cat. 1880, o Papiro da Greve tem dimensões próximas de 950 por 450 milímetros e foi produzido sobre fibras de origem vegetal. O documento data da XX Dinastia, entre 1.187 e 1.157 a.C.
De acordo com o Museo Egizio, os manifestantes queriam que suas queixas chegassem ao vizir e ao próprio faraó. O museu também identifica o papiro como um dos primeiros registros de paralisações no mundo. O documento preserva uma rara voz administrativa sobre o trabalho no Egito antigo.
Uma paralisação que durou dias de negociação
A ocupação dos espaços próximos aos templos não foi um gesto isolado de um único dia. Relatos preservados no papiro indicam que as tentativas de conciliação se estenderam por vários dias, até que o abastecimento fosse normalizado. A resistência coletiva, mantida até uma resposta concreta das autoridades, é um dos motivos que aproximam o episódio das greves modernas.
O movimento reúne elementos de uma paralisação trabalhista organizada: interrupção coletiva das atividades, reivindicação concreta sobre o pagamento e pressão direta sobre quem administrava os recursos. Essa combinação levou pesquisadores a tratar o caso como precursor das greves modernas.
Por que segue sendo lembrado 3 mil anos depois
O papiro guardado em Turim, na Itália, permanece como um dos poucos documentos que registra, com data e causa definidas, uma mobilização de trabalhadores tão antiga. O episódio é tratado como a primeira greve conhecida porque, entre os documentos já identificados, é o mais antigo associado a uma paralisação de trabalhadores — o que não quer dizer que protestos anteriores não tenham existido.
Mais de 3 mil anos depois, o relato de Amennakht ainda mostra como a falta de pagamento pode transformar um problema administrativo em ação coletiva. Registros desse tipo raramente sobrevivem quando envolvem gente comum, o que torna o documento uma fonte rara sobre o cotidiano de trabalhadores no Egito antigo.










